Em qualquer aeroporto, dos regionais aos grandes hubs mundiais, a porta da sala VIP representa uma mítica muito própria. Ela sempre fez (e faz) milhares de viajantes acreditarem que pertencem a um grupo extremamente seleto.
Durante muito tempo, adentrar esse espaço era quase um rito de passagem. Para isso, era preciso voar de executiva (no mínimo), acumular milhas aos montes ou ostentar um cartão de crédito poderoso.
Hoje, ainda que restrito, esse acesso está mais democrático — proporcionalmente à movimentação crescente nos aeroportos pelo planeta. O cartão certo está na carteira de muito mais gente do que estava há dez anos. Programas de fidelidade e planos de acesso por assinatura fizeram da entrada nos lounges um benefício mais possível.
Como acontece sempre que um privilégio se populariza, surge um novo desafio: aprender a compartilhá-lo. As poltronas são melhores, o café é mais encorpado e a comida é cortesia. Porém, o conforto não suspende as regras básicas de convivência. Pelo contrário: quanto mais disputado o espaço, mais elas importam.
REGRAS CRUCIAIS PARA NÃO VIRAR O VIP SEM NOÇÃO
• Antes de tudo, garanta que você realmente pode entrar ali. Cada lounge tem as suas regras de acesso, que podem variar de um aeroporto para o outro — e mudar a qualquer momento. Checá-las no balcão, enquanto uma fila se acumula atrás de você, é perda de tempo para todo mundo.
• Se houver fila para entrar, resista à ideia de pedir para "dar uma olhadinha". Isso atrapalha quem está entrando e quem está saindo.
• Se todo mundo ali é “very important”, então ninguém é mais important que o outro, combinado?
• Dito isto, guarde o nariz empinado no bolso junto com o seu cartão black. Se você supõe que o passageiro da mesa ao lado não deveria estar ali, provavelmente o problema é você.
• Não fique na espreita de quem parece estar de saída . A sensação de ter alguém urubuzando seu lugar é extremamente desconfortável. Seja paciente: é um ambiente de alta rotatividade.
• Sirva-se com calma. O buffet de comida pode ser gratuito, mas não é exclusivo. Encher o prato não é só falta de consideração, mas potencial desperdício de comida. Se quiser experimentar de tudo, faça vários pratinhos aos poucos. O carpaccio não vai desaparecer.
• O mesmo vale para o bar, que naturalmente é open. Se você não tomaria quatro taças de vinho em meia hora no restaurante, por que faria isso antes de embarcar em uma viagem ? Encher a cara é uma péssima ideia, ainda mais para quem nunca voou levemente alcoolizado. Não só a altitude do voo pode afetar sua saúde como os agentes do portão têm o direito de negar o embarque se o passageiro estiver visivelmente alterado.
• Não seja o auditor gastronômico que reclama com o staff sobre a variedade de queijos ou o rótulo do espumante disponível. Sua passagem por Doha foi melhor? Guarde para você.
• Nada de fazer contrabando de comida ou bebidas para o amigo que não pôde entrar. Não ache que ninguém está percebendo sua operação logística, encaixando o iogurte na mochila e cinco cookies embalados no guardanapo.
• O mesmo vale para aquela ideia de levar uma comidinha extra para o voo. Sair com um café ou uma garrafa d’água para o voo? Sem problemas. Mas o farnel não embarca, ok?
• Limpe a mesa após comer. O lounge tem equipe de limpeza, mas isso não é desculpa para deixar prato sujo, copo e guardanapo espalhados. A cortesia mínima é juntar os pratos e colocá-los no local indicado.
• Gorjetas: não é obrigatório, mas pode ser simpático — como no bar de coquetéis ou se alguém te deu uma atenção especial. É um sinal de cortesia, especialmente em países onde a cultura das tips é mais comum, como nos Estados Unidos.
• Porém, por favor, não confunda gorjeta com tentativa de suborno. Tentar agradar a atendente para tentar entrar naquela área ainda mais vip, se você não tem acesso, pode resultar em uma cena mais constrangedora do que imagina.
• Como acontece no saguão, a mala fica no chão — não na poltrona. No lounge, os lugares são ainda mais contados.
• Tomadas são um recurso coletivo. Carregar celular e notebook faz parte. Ocupá-las durante horas para alimentar o smartwatch, o fone bluetooth, a bateria externa, o tablet, o celular corporativo… Parece preparação para o apocalipse.
• Inclusive, falando em notebook: trabalhar é absolutamente corriqueiro. Transformar uma mesa compartilhada numa filial de escritório, espalhando cabos, papéis e equipamentos, nem tanto. Com certeza há um canto mais apropriado ali dentro.
• Reuniões por vídeo merecem um cuidado especial. O lounge inteiro não precisa participar da call semanal com seu time. Alguns oferecem cabines privativas para esses momentos. Se não houver, use fones de ouvido — e fale baixo.
• Aliás, a regra de ouro do fone não só continua valendo como fica ainda mais grave. Salas VIP são menores e mais silenciosas do que o salão de embarque, então nada pode acontecer no viva-voz.
• Respeite as áreas silenciosas. Se a sala separou um espaço para quem quer descansar ou trabalhar em paz, não transforme justamente esse canto na área da fofoca com a amiga.
• Não fotografe desconhecidos. Nem para mostrar como a sala está cheia, nem para se gabar nas redes sociais, muito menos porque alguém “está fazendo uma coisa engraçada”. Ninguém entrou ali para virar figurante dos seus stories.
• Vale reforçar: lounge não é estúdio de produtor de conteúdo ou influencer. Uma foto discreta do café ou da vista não incomoda ninguém. Montar o tripé para transformar o ambiente em cenário é sinal de falta de consideração com os outros ao redor.
• O mesmo vale para aquela figura que, de tão confortável, acha que está na própria sala: tira os sapatos, deita no sofá e coloca um filme no notebook enquanto acumula pratinhos de brigadeiro. Se for para fazer assim, fique em casa.
• Nada de grooming na mesa. Cortar unhas, pentear cabelo, aplicar maquiagem pesada — essas coisas têm lugar certo, e é o banheiro. Também lembre que esse não é o banheiro da sua casa, e a sala VIP não é extensão. Nada de roupões e toalhas circulando, se houver espaço para um banho rápido entre conexões.
• Fique de olho no horário. Muitos lounges, especialmente os independentes, não fazem anúncios de embarque para não perturbar o ambiente. Ninguém vai pegar sua mão enquanto você relaxa. E a companhia aérea não terá nenhuma simpatia com quem perdeu o voo porque estava confortável demais.
• Talvez a regra mais importante de todas: não trate o lounge como recompensa por conseguir entrar. Trate-o apenas como um lugar um pouco mais confortável para esperar. O verdadeiro luxo nunca foi o buffet ou a poltrona reclinável. É conseguir compartilhar um espaço cheio sem fazer dele um problema para os outros.















