A voz de Édouard Louis como antídoto à homofobia
Foto: Divulgação/ Elisa Mendes

A voz de Édouard Louis como antídoto à homofobia

Sucesso literário, o escritor francês inspira peças que fortalecem temas como as violências de gênero e classe

Foi na Flip de 2024, em Paraty, que o Brasil descobriu o escritor francês Édouard Louis, hoje com 33 anos.

Autor de livros que se enquadram no gênero do romance autoficcional, ele alavancou as vendas de suas obras na passagem pelo País e conquistou um fã-clube que não para de crescer.

O dramaturgo e diretor teatral carioca Luiz Felipe Reis, de 43 anos, porém, prestava atenção em Louis desde 2018, quando viu uma reportagem no jornal inglês The Guardian

Curioso, ele leu O Fim de Eddy e História da Violência antes das edições brasileiras e percebeu que as narrativas cruzadas renderiam uma peça. 

História da Violência tem situações interessantes de trabalhar em cena, e O Fim de Eddy é a base biográfica de Louis,” justifica Reis, em entrevista ao Page9

O projeto, com a colaboração do dramaturgo e diretor Marcelo Grabowsky e da atriz Julia Lund, começou a ser idealizado no mesmo ano, mas, por questões de produção e o entrave da pandemia, estreou só em junho de 2025 no Rio de Janeiro. 

Eddy – Violência e Metamorfose, agora em cartaz no Teatro Faap, em São Paulo, traz a história do jovem Louis (interpretado por João Côrtes) que, em meio à busca de firmar a sua identidade, descobre que a homofobia que o persegue desde a infância pode ganhar contornos trágicos.

Foto: Divulgação/ Elisa Mendes

O ponto de partida é o retorno de Louis à casa da família, no interior francês, um ano depois de um trauma longe de ser superado. Ele, após uma noite de amor com Redá (papel de Erom Cordeiro), um descendente de argelinos, foi estuprado e quase morto na manhã seguinte. 

A decisão de dividir o choque com a irmã e o cunhado (representados por Julia Lund e novamente Cordeiro) escancara preconceitos e mágoas que evidenciam o abismo social.

Para Reis, o impacto da literatura de Louis é o alinhamento de uma variedade de questões, como as violências de gênero e classe, que se conecta com a homofobia, a xenofobia, o machismo e o racismo.

“Muitos críticos dizem que ele é um escritor autorreferente, mas, através disto, Louis produz uma dinâmica social e política que mostra como os corpos não identificados ao masculino dominante são vulneráveis,” afirma. 

A atriz carioca Julia Lund, de 42 anos, co-fundadora da Cia. Polifônica ao lado de Reis, completa o raciocínio que justifica a aceitação do escritor por diferentes tipos de leitores: “A obra de Louis atinge um público diverso e não fica restrito ao interesse de homens ou gays, tanto que as mulheres se identificam como pessoas oprimidas pelos homens e até como mães, já que ele tem dois livros que mostram o quanto sua mãe foi vítima de abusos.”

O ator paulista João Côrtes, de 31 anos, ouviu falar de Louis a partir da repercussão da Flip, mas só leu alguns de seus livros – Mudar: Método, O Fim de Eddy e Quem Matou Meu Pai – diante do convite para o espetáculo. 

Como um artista e homem gay, Côrtes imaginava que a identificação seria grande, porém, ficou surpreso com a avassaladora conexão. Afinal, sua formação de rapaz criado em uma classe média de uma metrópole é bem diferente da do francês, crescido em uma família pobre e disfuncional de um vilarejo francês.

“Vi que existem em comum a vergonha, a culpa em relação ao desejo e a necessidade de se distanciar de todos para, enfim, se encontrar,” diz o ator. “Ele constrói um determinado cenário e expande a complexidade de uma sociedade toda.”

Côrtes ouviu relatos de espectadores de diferentes idades e entendeu a importância da representatividade para que as pessoas se aceitem. “Dentro das plataformas que tenho, seja o palco ou a rede social, o que me motiva é ajudar os outros a se sentirem melhores,” diz ele, que se assumiu publicamente gay há três anos em uma postagem no Instagram. “Quando você conta uma narrativa LGBTQIAPN+, conta a narrativa de muitos, porque converso com homens e mulheres que enfrentaram situações parecidas.”   

Eddy – Violência e Metamorfose é uma experiência teatral repleta de qualidades. A construção dramatúrgica e a direção tratam os temas com grande profundidade e rigor estético sem rejeitar a comunicação popular. 

As interpretações de Côrtes, Julia e Cordeiro são marcadas por um naturalismo carregado de sutilezas que reforça as atmosferas de opressão, exclusão e incomunicabilidade. 

Uma das passagens mais fortes e esteticamente impecáveis é a longa cena de sexo entre Louis e Redá que marca o começo do encontro, até então feliz, dos dois. 

Os movimentos coreografados e sensuais não soam gratuitos ou apelativos, pelo contrário, endossam a proposta da montagem. 

“Fizemos questão de trazer essa noite de prazer para mostrar a dimensão do contraste da violência posterior,” diz Reis. “É como se, depois do gozo, Redá precisasse produzir algo contra o corpo que desejou.”

Para o alagoano Erom Cordeiro, de 49 anos, talvez Redá tenha caído em um lugar de culpa e autopunição que precisasse ser castigado – e isso se tornou uma falha trágica do personagem intrigante do artista. 

Cordeiro confessa que resistiu à febre literária em torno do autor francês e só conheceu os seus livros em paralelo à leitura da dramaturgia. “O que mais me chamou atenção foi como ele tira a voz do narrador, que é a dele e da irmã, e amplia o discurso de um jeito tão delicado,” analisa. 

Eddy – Violência e Metamorfose foi a primeira peça adaptada da obra de Louis no Brasil. Ainda no ano passado, o livro Quem Matou Meu Pai (2018), inspirou a montagem Papaizinho, dirigida por Luisa Espindula e Caio Scot, que fez apresentações no Rio e São Paulo Em janeiro, Mulher em Fuga, baseada nos livros Lutas e Metamorfoses de uma Mulher e Monique se Liberta, estreou na capital paulista com o ator Tiago Martelli e a atriz Malu Galli vivendo Louis e sua mãe. Em julho, a peça circula pelo interior de São Paulo e Porto Alegre. 

O próprio escritor voltou ao Brasil, em março, desta vez para subir ao palco, em uma dramatização de Quem Matou Meu Pai na MITsp – Mostra Internacional de Teatro de São Paulo. O mesmo festival recebeu o espetáculo alemão História da Violência, dirigido por Thomas Ostermeier. 

A familiaridade dos livros do autor francês com a cena é facilmente explicada. Foi em um curso de teatro, durante o colégio, que Louis se sentiu acolhido pela primeira vez e percebeu que, naquele espaço social, poderia ser o que era. “No teatro, ele recebeu a autorização para se tornar o artista e o escritor,” observa Reis. “Todo o tormento que atravessou na adolescência foi a força para a transformação na vida adulta.”