Durante o Tour de France, que acontece até 26 de julho, tenho um privilégio que poucos apaixonados por vinho têm.
Enquanto Renan do Couto e Celso Anderson narram os ataques e explicam cada movimento do pelotão nas transmissões da ESPN, meu olhar costuma escapar alguns quilômetros para os lados.
Não estou procurando uma fuga.
Estou procurando vinhedos.
Há alguns anos percebi que assistir ao Tour é também percorrer uma das maiores rotas enoturísticas do planeta.
Em apenas três semanas, a corrida atravessa alguns dos terroirs mais importantes da Europa, cruzando pequenas cidades e estradas secundárias que ajudam a contar a história do vinho muito antes de qualquer ciclista passar por elas.
Nesta edição de 2026, o roteiro está especialmente generoso.
Começa na Espanha, entra na França, passa pelo Languedoc-Roussillon, cruza os Pireneus, percorre o sudoeste francês, passa pela Borgonha, Alsácia e Jura, enfrenta os Alpes e termina, como manda a tradição, brindando em Paris com Champagne.
Para quem gosta de vinho, é impossível olhar apenas para os ciclistas. É uma viagem por algumas das regiões mais fascinantes da viticultura europeia.

O começo em Priorat
Logo nas primeiras etapas, antes mesmo de a corrida entrar definitivamente na França, o Tour passa por Barcelona, Tarragona e pela região do Priorat.
Ali nascem alguns dos vinhos mais emblemáticos da Espanha.
Os vinhedos parecem desafiar a gravidade, plantados em encostas íngremes de solo de llicorella, uma ardósia escura que obriga as videiras a mergulhar profundamente em busca de água.
É um terroir duro, quase extremo. Talvez por isso produza vinhos tão intensos.

Dos Pireneus para a terra da Tannat
Quando o Tour entra nos Pireneus, aproxima-se de Madiran.
Curiosamente, talvez o vinho mais interessante para representar essa etapa nem seja francês. Madiran é a terra da Tannat, uma uva conhecida pela enorme estrutura e pelos taninos vigorosos. Mas foi no Uruguai que ela encontrou uma segunda casa.
Hoje, muitos consumidores conhecem a Tannat uruguaia antes mesmo de provar um Madiran. É um belo exemplo de como uma variedade pode ganhar nova identidade ao cruzar o Atlântico.

Bordeaux dispensa apresentações
Poucos dias depois, o Tour chega a Bordeaux. Não há muito o que explicar: é simplesmente uma das regiões que moldaram a história do vinho moderno.
Mais curioso do que visitar Bordeaux é perceber que, durante a corrida, ela aparece quase naturalmente, como se fosse apenas mais uma cidade do percurso.
Mas não é.
Para muitos produtores do mundo, Bordeaux continua sendo uma referência. Logo adiante, o percurso segue para Bergerac, outra joia do sudoeste francês. Muito menos conhecida do grande público, a região produz excelentes tintos e brancos e costuma surpreender quem resolve ir um pouco além da vizinha ilustre.

Cahors: antes da Argentina havia a França
Outra parada que gosto particularmente acontece nas proximidades de Cahors.
Sempre que alguém fala em Malbec, pensamos imediatamente em Mendoza.
Mas muito antes disso a uva era conhecida como a "uva negra de Cahors".
Ali ela produz vinhos muito diferentes dos argentinos: mais austeros, mais terrosos e frequentemente mais longevos. É quase como conhecer a origem de uma velha conhecida.

Da delicadeza da Borgonha à descontração de Beaujolais
Quando o Tour se aproxima de Nevers e depois de Chalon-sur-Saône, aproxima-se também da Borgonha e de Beaujolais.
Poucas regiões representam tão bem dois estilos completamente distintos de entender o vinho.
De um lado, a sofisticação quase obsessiva da Pinot Noir e da Chardonnay borgonhesas. Do outro, a leveza, a fruta e a alegria dos vinhos elaborados com Gamay. Separadas por poucas dezenas de quilômetros, parecem dois mundos diferentes.

Alsácia: a França que parece Alemanha
Uma das partes mais bonitas desta edição talvez seja a passagem por Belfort e Mulhouse. Ali começa a Alsácia. A arquitetura muda. A gastronomia muda. Até os sobrenomes mudam.
É uma França profundamente influenciada pela cultura germânica. Essa mistura aparece também na taça.
Os Rieslings, Gewürztraminers, Pinot Blancs e Pinot Gris da Alsácia dificilmente se parecem com qualquer outro vinho francês.

O espetáculo dos Alpes
Na última semana chegam os Alpes e, com eles, o Alpe d'Huez, a montanha a ser conquistada. Aqui as montanhas dominam tudo. É impossível assistir às subidas sem imaginar o trabalho necessário para cultivar videiras em terrenos tão difíceis.
São paisagens onde ciclistas e viticultores compartilham o mesmo desafio: vencer a inclinação.
E, no fim, Champagne
Quando o Tour termina em Paris, gosto de imaginar que o roteiro fecha exatamente como começou.
Não apenas celebrando o campeão. Mas celebrando uma viagem.
A taça ideal para esse momento é um Champagne.
Não apenas pela tradição da vitória. Mas porque, depois de cruzar Priorat, Madiran, Bordeaux, Cahors, Borgonha, Alsácia e Rhône, brindar parece a única maneira possível de encerrar a jornada.















