Diário de uma man-eater: capítulo 7

Diário de uma man-eater: capítulo 7

Os relatos íntimos de uma recém-divorciada de 45 anos

Voltei para a terapia na quarta-feira seguinte.

Não é nada, não é nada, a decisão exigiu um esforço considerável.

Primeiro precisei encontrar o número da terapeuta, numa pasta chamada "Importantes", espremido entre o eletricista e a veterinária da cachorra que morreu em 2019. Depois lembrar por que tinha parado. Aí vieram as desculpas.

Na noite anterior, tive uma crise de rinite.

Na manhã da consulta, um enjoo que não passava por nada.

Que beleza é o corpo da gente, ajuda muito.

No trajeto, considerei a possibilidade de morrer atropelada, o que infelizmente não aconteceu.

O déjà vù não foi dos mais agradáveis quando o elevador parou no sexto andar do prédio comercial em Ipanema.

Ainda dava tempo de fugir. Será?

A sala de espera estava igualzinha. Um frigobar modelo antigo que servia de apoio ao ventilador, uns copos de plástico descartáveis ao lado, um porta-revistas de metal vazio, um poster desbotado do Renascentismo e duas cadeiras baixas demais para serem consideradas confortáveis.

Não demorou muito para o paciente anterior sair da consulta. Com o rosto inchado e os olhos vermelhos, segurava uma bola de lenços de papel amassados e chorava como se tivesse acabado de enterrar alguém. Engoli seco para não chorar junto e fixei uma imagem dela atendendo a um telefonema urgente.

Joguei a cena para o universo, como havia aprendido no curso de meditação que tentei fazer nas últimas férias.

“Imagina, essas coisas acontecem," respondia em minha imaginação ao cancelamento repentino.

Mas ela abriu a porta. “Vamos, Marina?”

Tanta dificuldade para convencê-la a me deixar ir, que diabos estava fazendo ali de volta?

"Como você está?”

“Não faço ideia” foi a resposta mais sincera que consegui dar.

Ela sorriu daquele jeito irritante que só os terapeutas têm. Certeza que ensinam isso na faculdade.

Passei 45 minutos falando do André.

Da separação, da raiva, da falta que ele fazia, da falta que não fazia, do homem do bar, do menino da bicicleta, da greve de sexo, dos dias na escuridão e do meu talento para transformar desejo em tese de doutorado. Era tudo sobre ele.

Quando a sessão terminou, estava exausta.

Sem saber direito o que fazer, passei no mercado para comprar pão, iogurte, tomate e qualquer coisa que justificasse a existência de uma pessoa adulta responsável.

Comprei um azeite caro que não precisava, flores que certamente morreriam até sexta e uma revista de decoração porque a mulher da capa parecia ter resolvido a própria vida (ou contratado alguém para isso).

No caixa, lembrei que o André odiava flores.

Antes de pagar, voltei ao estande e peguei mais um buquê.

O carro foi sozinho para casa.

Passei os sinais no automático sem reagir às buzinas, dobrei na Redentor sem botar a seta, passei pela catraca sem perceber quando ela abriu. Só voltei a prestar atenção quando avistei o moço da piscina no portão de casa. Não parecia estar me esperando. Mas gostei da versão que inventei.

Já o tinha visto centenas de vezes. No jardim, nas festas de aniversário das crianças, empilhando colchões de ar, carregando caixas.

Nunca tinha reparado nas suas mãos.

Grandes, bronzeadas, as veias saltadas no dorso. Bonitas de uso.

A terapia claramente estava fazendo efeito.

Perguntei se ele podia dar uma olhada no ventilador do meu quarto.

"Com todo o prazer.”

"Prazer o meu," respondi sem falar.

Enquanto subíamos a escada, tentei lembrar o nome dele. Jorge, Ayrton, Guilherme? Nenhum deles.

Excelente sinal.