Betsy e Olavo Monteiro de Carvalho: sinônimo de sofisticação, do Rio à Côte d'Azur

Betsy e Olavo Monteiro de Carvalho: sinônimo de sofisticação, do Rio à Côte d'Azur

Mais que um casal, eles deram vida à um daqueles raros casos em que elegância escolhe duas pessoas ao mesmo tempo

Sempre tive uma fascinação incurável pelos cariocas que transformaram os anos 1970 numa obra de arte. Havia uma aristocracia solar que dispensava apresentações: bastava atravessar o calçadão. O bronze era uniforme social, a educação vinha antes do sobrenome e o charme parecia apenas um efeito colateral da maresia. A Belacap, convenhamos, fez mais pela elegância brasileira que muito estilista.

Jobim resumiu o Rio como ninguém: um quadro onde Matisse e Munch dividem a mesma moldura. Beleza e melancolia. Talvez seja justamente dessa mistura que tenha nascido o carioca irresistível, que  dança para esconder o abismo e sorri como quem já fez as pazes com ele.

Nesse universo reinavam Betsy e Olavo Monteiro de Carvalho. Não eram apenas um casal, eram uma tese estética. Quando a elegância escolhe duas pessoas ao mesmo tempo, deixa de ser atributo e vira patrimônio.

Filha de Aloysio e Peggy Salles, Betsy atravessava os salões com seus olhos azuis inquietos que pareciam decidir, em silêncio, quem merecia existir ao seu redor. Ombros dourados pelo sol, postura de quem jamais confundiu sedução com exibicionismo. Uma locomotiva chicissime. Dessas mulheres que dominavam a arte do carão muito antes de inventarem a indústria da insegurança. Se hoje vendem preenchimentos, naquela época fabricavam mistério.

Não por acaso, tornou-se a primeira capa da Vogue Brasil, eternizada pela lente magistral de Otto Stupakoff, em 1975. A fotografia permanece moderna porque o verdadeiro estilo desconhece calendário. A moda envelhece e a classe atravessa o tempo.

Na casa da família em Saint-Jean-Cap-Ferrat, comprada em 1930 pelo avô de Olavo, o Mediterrâneo parecia uma extensão da varanda. Art déco impecável, piscina aquecida, um Rolls-Royce Corniche esperando e, como vizinhos, os Rockefeller. Um detalhe quase constrangedor de tão corriqueiro naquele universo. Os almoços no Rampoldi, em Mônaco, jamais obedeciam o relógio. Eram longos, generosamente irrigados por taças de Cristal, enquanto as conversas valiam mais que qualquer joia exposta nas vitrines da Place du Casino. 

Pouca gente lembra que Olavo também era Marquês de Salamanca, com a dignidade reservada aos Grandes da Espanha. Mas os títulos pareciam interessá-lo menos que uma boa mesa no Antonio's, no Leblon. Há quem prefira o privilégio da conversa ao protocolo da coroa.

À frente da Monteiro Aranha por quase duas décadas, trabalhou com a disciplina de um industrial e carregou, para desespero dos invejosos, a fama de playboy, bon vivant e grande namorador. Talvez porque tenha entendido outra verdade que a psicanálise também conhece: alguns acumulam dinheiro para preencher vazios; outros distribuem humor, afeto e hospitalidade porque descobriram que o luxo verdadeiro é jamais transformar sucesso em arrogância. Recebia como poucos. Era leal aos amigos, cordial sem esforço e elegante sem performance. Também era vascaíno com a convicção de quem sabia que sofrer pode ser uma forma refinada de fidelidade.

Escrevo estas linhas porque certos personagens merecem escapar da poeira dos arquivos. O Rio dos Monteiro de Carvalho não era apenas uma geografia, era um estado de espírito. Um lugar onde Santa Teresa conversava com Cap-Ferrat, o sotaque carioca circulava entre champanhes franceses e o bom gosto jamais sentia necessidade de anunciar a própria presença.

No fim, o verdadeiro privilégio nunca foi morar ao lado dos Rockefeller, foi pertencer a uma geração que compreendia uma verdade hoje quase esquecida: riqueza impressiona por uma noite. Estilo permanece quando a festa acaba, as luzes se apagam e o tempo, derrotado, continua repetindo o mesmo nome. Cheers aos Monteiro de Carvalho.