Madonna nunca esteve tão em evidência quanto agora.
Às vésperas dos 68 anos, ela volta a mirar em seu habitat natural: a pista de dança. É quase um retorno às origens, ao lugar onde tudo começou, quando ainda era apenas uma jovem determinada dividindo sonhos com o DJ Jellybean Benitez no lendário clube Funhouse, em Nova York. Foi ali que a cantora e compositora deu seus primeiros passos. O resto tornou-se uma das histórias mais gloriosas da cultura pop.
Curiosamente, quando Madonna lançou seu primeiro single, Everybody, em 1982, eu já me considerava um veterano das discotecas de Copacabana, no Rio de Janeiro. Naquele tempo, meu grande ídolo era John Travolta.

Eu participava de concursos imitando suas coreografias de Os Embalos de Sábado à Noite. Era um garoto gordinho, muito distante da beleza cinematográfica de Travolta, mas completamente entregue à dança.
A obsessão pelos movimentos fazia com que eu convencesse público e jurados de que, por alguns minutos, eu também podia ser um astro da pista.
Quando o som de Madonna finalmente desembarcou nos clubes brasileiros, eu frequentava religiosamente o Crepúsculo de Cubatão, templo da cena dark carioca. Ali reinavam Eurythmics, Depeche Mode, Duran Duran e tantos outros nomes que moldaram uma geração. Minha companheira de aventuras era uma adolescente brilhante, irreverente e moderníssima chamada Fernanda Young. Foi ela quem me disse, antes de quase todo mundo: "Essa garota chamada Madonna Louise Ciccone vai mudar tudo". E mudou.

Por isso acompanhei atento, em 1984, sua apresentação histórica no Video Music Awards, vestida de noiva, cinta-liga e crucifixos, transformando um simples número musical em um terremoto cultural. Naquele instante ficou claro que não estávamos diante de apenas mais uma cantora pop: estávamos vendo nascer um fenômeno disposto a desafiar convenções, religiões, moralismos e a própria indústria da música.
Pouco depois, eu também tomava uma decisão radical. Abandonei meu emprego de caixa de banco e a faculdade de direito, em Niterói, para me tornar DJ no Resumo da Ópera, a casa mais desejada da noite carioca, criada por Ricardo Amaral.

Enquanto eu começava minha vida atrás das picapes, Madonna seguia reinventando a própria carreira. Escandalizou o Vaticano com Like a Prayer, emocionou Hollywood ao vencer o Oscar com Sooner or Later e embalou meu primeiro grande amor através do álbum Erotica, um disco que, muito além da sexualidade, falava sobre liberdade, vulnerabilidade e coragem para assumir os próprios desejos.
Foi nessa época que cometi uma das maiores loucuras da minha vida: vendi meu equipamento de som para comprar a primeira edição do livro Sex. Para muita gente era apenas um escândalo editorial. Para mim, era uma obra de arte.
Um objeto que simbolizava uma artista disposta a pagar qualquer preço por sua liberdade criativa. Décadas depois, aquele livro tornou-se um dos bens mais valiosos da minha coleção, disputado em leilões internacionais por cifras impressionantes.

Quando Madonna chegou aos 40 anos, mostrou ao mundo um lado mais delicado e sofisticado com Bedtime Stories. Até hoje esse disco é a trilha sonora das minhas caminhadas pelo Harlem, em Nova York. Veio então outro desafio gigantesco: interpretar Evita Perón no cinema.
Muitos duvidaram que ela fosse capaz. Como sempre, Madonna respondeu trabalhando mais do que todos. O Brasil, aliás, já havia conhecido aquele musical anos antes, em 1982, com uma interpretação inesquecível da cantora Cláudia. E eu estava lá, emocionado, derramando lágrimas ao ouvir Don't Cry for Me Argentina.
Em 1988, o techno dominava completamente os clubes e as raves de São Paulo. O pop parecia perder espaço. Mesmo assim, eu fazia questão de incluir Ray of Light nos meus sets. Aquela mistura de espiritualidade, eletrônica e transcendência parecia conversar perfeitamente com aquele novo momento da música.

No início dos anos 2000, Madonna voltou mais uma vez à frente do seu tempo com Music. Muita gente prestou atenção apenas na estética cowgirl dos videoclipes, mas o álbum era infinitamente mais ousado: uma fusão elegante entre folk, country e música eletrônica.
No mesmo período, São Paulo assistia ao nascimento do Xingu, clube onde Liana Padilha e Luca Lauri reinventavam as pistas com poesia, experimentação e beats sofisticados. Foi desse encontro de universos que nasceu minha parceria com eles em Baile de Peruas, uma lembrança que guardo com enorme carinho.

E então chegou 2005. Bastaram os primeiros acordes de um sample do ABBA para que Hung Up devolvesse Madonna ao centro da cultura pop e recolocasse os anos 70 dentro das pistas do século XXI. Até hoje poucas músicas conseguem provocar uma reação tão instantânea em qualquer pista de dança do planeta. É impossível ouvi-la sem sentir vontade de celebrar a vida.
Hoje percebo que, durante mais de quatro décadas, Madonna nunca foi apenas a trilha sonora da minha carreira como DJ. Ela foi a trilha sonora da minha própria existência. Cada disco marcou uma fase, cada reinvenção dialogou com alguma transformação da minha vida. Crescemos juntos. Ela desafiando o mundo; eu, tentando encontrar meu lugar dentro dele através da música.

Talvez seja por isso que, toda vez que coloco uma música dela para tocar, não seja apenas Madonna que entra na pista. Entra também aquele menino gordinho de Copacabana que sonhava dançando diante do espelho, o jovem que abandonou uma vida previsível para seguir um chamado, o DJ que descobriu que a música pode ser uma forma de resistência, liberdade e afeto.
Obrigado, Madonna. Por cada risco assumido. Por nunca pedir licença para existir. E, principalmente, por me ensinar que envelhecer não significa diminuir a intensidade da vida. Enquanto houver uma pista de dança, uma luz acesa e alguém disposto a celebrar a própria liberdade através da música, você continuará sendo eterna. E eu continuarei dançando.















