Em Buenos Aires, num arquivo que reúne mais de um século de história do design argentino, percebi algo que não esperava. Não foi a dimensão do acervo que mais me impressionou: são mais de 450 fundos documentais, desenhos, protótipos, correspondências e fotografias preservados segundo normas internacionais de arquivologia. O que mais me impressionou foi perceber que ele permanece vivo.
A Fundação IDA – Investigación en Diseño Argentino, criada em 2013 por Gustavo Quiroga e Raúl Naón, nasceu com um propósito claro: resgatar, preservar e difundir o patrimônio histórico e contemporâneo do design do país. Mais do que custodiar documentos, tornou-se uma plataforma pública de pesquisa.

Museus, universidades, curadores, pesquisadores e empresas recorrem continuamente ao seu acervo para produzir exposições, pesquisas e publicações. Um belo exemplo de como a iniciativa privada pode assumir um papel decisivo na preservação da cultura material de um país. Um modelo que merece ser observado e, quem sabe, adaptado à nossa realidade.
Foi essa visita que me trouxe de volta a uma pergunta que tem ocupado meus pensamentos nos últimos meses: o que o passado que escolhemos guardar nos diz sobre onde estamos e para onde vamos?
E, mais do que isso: será que preservar o passado não é, na verdade, o passo fundamental para a criação de um futuro mais inteligente e sustentável?

Essa mesma pergunta já ecoava em mim dias antes, durante a apresentação do Banco de Soluções Projetuais, iniciativa do Instituto Arthur Casas de Arquitetura e Inovação (IACAI).
A plataforma reúne, organiza e disponibiliza gratuitamente soluções capazes de ampliar o repertório técnico e cultural da arquitetura brasileira, propondo caminhos para uma construção mais industrializada, eficiente, limpa e sustentável.
Os números apresentados são difíceis de ignorar. Em 2024, cerca de 30% dos resíduos sólidos produzidos no Brasil vieram da construção civil. As edificações respondem por 51% do consumo nacional de energia.
Lembrei então de uma palestra de Paulo Mendes da Rocha, a que assisti há mais de uma década. Um dos nossos maiores arquitetos e vencedor do Prêmio Pritzker, Paulo dizia, com a lucidez e a contundência que lhe eram características: "Não precisamos construir mais nada. Não podemos continuar construindo desta maneira."

Foi impossível não estabelecer um paralelo entre a IDA e o IACAI. Embora atuem em campos distintos, ambos partem da mesma convicção: conhecimento disperso é conhecimento perdido. Um organiza soluções para aquilo que ainda construiremos. O outro organiza a memória daquilo que já construímos.
Ambos transformam conhecimento individual em patrimônio coletivo. E ambos, no fundo, usam o tempo como instrumento: olhar para o que já foi construído é a forma mais precisa de entender em que ponto estamos agora.
Diferentemente das matérias-primas, o conhecimento não se esgota quando é compartilhado. Pelo contrário. Cresce, amplia repertórios, inspira novas interpretações e atravessa gerações.
Mas conhecimento, por si só, não basta.
É preciso também coragem para questionar modelos estabelecidos, revisitar certezas e imaginar respostas proporcionais aos desafios do nosso tempo.
Foi exatamente essa coragem que ouvi no neurobiólogo e filósofo italiano Stefano Mancuso, dias depois, ao defender que "precisamos apagar 20% das ruas, remover o asfalto e plantar árvores."
Mancuso não propõe uma visão romântica nem uma questão estética, mas uma resposta radical à emergência climática: o tipo de resposta que só é possível quando estamos dispostos a questionar aquilo que parecia inquestionável.
Talvez seja esse o verdadeiro projeto do futuro: não inventar do zero, mas compreender as motivações e as razões que nos levaram a construir como construímos. Para que possamos escolher, com consciência, o que preservar, o que transformar e o que deixar para trás.
Porque construir o futuro talvez comece exatamente aí: na coragem de compreender o que decidimos preservar.

Recomendações de leitura
Para quem quiser seguir essa reflexão, indico dois livros que dialogam diretamente com os temas deste texto. Fitópolis, de Stefano Mancuso, propõe uma reinvenção radical da relação entre cidade e natureza: uma resposta concreta à urgência climática que mencionei aqui. Já Reset Modernity!, de Bruno Latour, questiona os próprios fundamentos do que chamamos de progresso, convidando-nos a repensar criticamente o legado da modernidade antes de seguir construindo sobre ele.















