Ele é inescapável.
Existe um coquetel onipresente em todos os balcões do Brasil: o drink que desbancou a Gin Tônica e o Aperol Spritz no gosto popular.
Ladies and gentlemen, o Fitzgerald!
Criado na década de 1990 pelo bartender americano Dale DeGroff, um dos nomes mais icônicos da coquetelaria mundial, no Rainbow Room, em Nova York, foi batizado com o nome de um dos gigantes da literatura americana, F. Scott Fitzgerald, o autor de O Grande Gatsby. Assim, a mistura de gin, suco de limão-siciliano, xarope de açúcar e bitter aromático entrou para o rol de clássicos modernos.
Mas não foi uma explosão mundial. Hoje, em Nova York, os bartenders locais até preparam o coquetel, mas dificilmente ele aparece em menus ou com qualquer tipo de destaque.
Na Europa, a vida do Fitzgerald é ainda mais difícil. Mas o destino (ou a moral) do Fitzgerald mudou quando ele desembarcou no Brasil — e ganhou o carinhoso apelido de “Fitz”.

O começo da jornada
Um dos primeiros registros do Fitz por aqui data de 2013, momento em que a coquetelaria começava a ganhar relevância no País. Nesse mesmo ano, o hoje premiado bar Boca de Ouro abria suas portas. Foi lá que muita gente bebeu seu primeiro Fitzgerald.
“Quando o bar abriu, o foco era mais em cervejas e tínhamos poucas bebidas para fazer coquetéis na casa. Na época, usamos o livro do Dale DeGroff como principal referência e o Fitzgerald estava entre os drinks que conseguíamos fazer com os poucos ingredientes que tínhamos,” disse Arnaldo Hirai, sócio do bar.
“Acho que ninguém conhecia e inicialmente não saía tanto porque servíamos em uma taça de Martini - acho que era a única taça que tínhamos -, o que gerava uma resistência por parte dos homens. Aquele drink rosado, naquela taça... Um preconceito bobo que, felizmente, hoje em dia diminuiu muito. Resolvemos servir em um copo baixo com gelo. E aí foi...” disse Hirai.
Hirai acredita que o Fitz ‘faz tanto sucesso porque é um sour (um perfil que agrada muito desde sempre) com gin.’
“Além disso, acho que se popularizou porque praticamente todo bar que se dispõe a fazer coquetéis já tem os ingredientes. No Boca, até hoje, é o segundo coquetel que mais vende. Só perde para o Macunaíma — coquetel criado pelo próprio Hirai e que se transformou em um clássico brasileiro.”
O mixologista Marco De La Roche foi outro precursor do drink no Brasil. “Lembro de ter colocado em 2018 no Riviera, ainda servido na taça, como pede a receita original. Mas, como as coisas à frente do seu tempo, não pegou,” disse.
Segundo De La Roche, a consolidação do Fitz ocorreu em 2023. “Foi em meados de 2023 que entendi que a gin-tônica estava com os dias contados. Depois de cinco anos reinando nos bares mais chiques e mais comuns das principais cidades do País, a onda estava desacelerando. E para quem entende de movimentos e tendências de consumo, foi fácil matar a charada. Com o Fitz, mantinha-se a estrutura, o gin, mas com uma mudança de figurino,” disse.
Já em 2023, De La Roche inseriu o Fitz em 10 bares nos quais fez consultoria — mas com gelo e no copo baixo. “Sucesso absoluto! A partir do verão de 2023-2024, o Fitzgerald passava a ser a melhor nova escolha de todo bom bebedor de balcão. Ele também abriu a porteira para outros clássicos esquecidos, como o Mark Twain e o Pegu Club, além das variações naturais de Fitz com cachaça, gin com jambu e por aí vai,” disse.

O impacto
Hoje, o principal indicador estatístico desse fenômeno no mercado nacional é o estudo setorial Cocktail Trends Report (CTR), desenvolvido pela consultoria especializada TragoDados. A pesquisa mapeou os hábitos de consumo e as vendas reais nos bares mais prestigiados e premiados de São Paulo (incluindo estabelecimentos com distinções do Prêmio Paladar, Veja SP e classificados na lista internacional 50 Best Bars). O Fitzgerald conquistou o 1º lugar isolado como o coquetel clássico mais vendido do circuito, somando 10 citações diretas de liderança absoluta entre os estabelecimentos consultados.
Outro indicador desse sucesso é o impacto que o drink teve (e ainda tem) na própria indústria nacional de bebidas. O caso mais marcante é o da Nib Bebidas. Até o “boom” do Fitzgerald, só especialistas e nerds de coquetelaria sabiam o que era um bitter — que pode ser explicado como uma espécie de tempero do drink.
Foi justamente o Fitz, que costuma levar de dois a quatro generosos dashes de bitter aromático, que popularizou a categoria no País. O mercado é dominado pela Angostura Bitters, marca de referência no setor, fabricada em Trinidad e Tobago. No entanto, durante muitos anos, a importação desse produto para o Brasil sofria interrupções constantes, causando problemas para bartenders e consumidores.
Por conta da demanda crescente e puxada pelo consumo do Fitzgerald, empresas brasileiras investiram na produção de bitters nacionais. “O Fitzgerald alavancou o consumo de bitters no País e trouxe visibilidade para esse tipo de produto, que começou a ser visto como um ingrediente importante para a coquetelaria. Além disso, mudou a história da NIB, que se transformou na maior empresa de bitters do país,” disse Pablo Moya, sócio-fundador da marca. A estimativa é que a NIB coloque no mercado mais de 5 mil garrafas por mês.
“O Fitz é um coquetel fácil de beber. Ele tem um equilíbrio perfeito entre doçura, acidez e amargor. Ele veio para substituir a Gin Tônica, que se perdeu no meio de tanta mistura que fizeram por aí,” disse Moya.

O sucesso
Para o mixologista e consultor de bares Marcelo Serrano, o sucesso do Fitzgerald está no equilíbrio entre o açúcar e o limão. “Ele caiu muito bem no paladar brasileiro. É versátil, um drink para todas as horas,” disse.
“Ele é muito pedido pelas nossas clientes. Um drink cítrico, suave e refrescante, totalmente internacional. Combina com a nossa casa, o ambiente e a música que tocamos,” disse André Fernandes, proprietário do bar Fizz.
Já para o bartender Japores, do Beefbar e do Song Qi, “o paladar do brasileiro deixou de aceitar apenas o que é doce. Agora, os drinks cítricos ganharam espaço. É fácil de beber, fácil de vender e fácil de reproduzir,” disse.
“Quando lemos New Classic Cocktails, do grande bartender Dale DeGroff, ele diz que precisou de um novo drink com gin para o verão. Ele chegou a uma receita simples, servida bem gelada e extremamente refrescante. O Fitzgerald tem tudo o que a gente procura: punch alcoólico, é cítrico, tem amargor e dificilmente depende de uma hora ou clima específico para beber. É simples e completo; por isso é um dos mais pedidos no momento," disse Danilo de França Alves Araújo, bartender do Basq.
Como tudo que faz sucesso, o Fitzgerald também tem seus detratores — que o consideram um drink simples demais, sem graça e afins. Para a bartender do Oculto, Gabriela Fernandes, esse tipo de postura com um coquetel tão bem aceito pelo público não faz sentido. “Para quem está começando a beber, sair da gin tônica ou do gin com energético para o Fitz é um avanço bastante interessante,” disse.
“Não entendo por que alguns bartenders torcem o nariz. O Fitz é muito bom. As pessoas devem beber e ser felizes. Esse coquetel trouxe um degrauzinho a mais de complexidade para o gosto do brasileiro,” defende Gabriela.















