O parquinho veste Prada (de segunda mão)

O parquinho veste Prada (de segunda mão)

Vestir uma criança com uma peça que já teve outro dono deixa de remeter à necessidade para se tornar uma escolha

Pela primeira vez, vestir uma criança com uma peça que já teve outro dono deixou de remeter somente à necessidade para se tornar uma escolha que combina estilo, consciência ambiental e economia.

Vestir roupa usada deixou de ser comportamento restrito ao guarda-roupa adulto. Silenciosamente, chegou aos parquinhos, às festas de aniversário e às primeiras fotos de escola. 

Vestidos delicados, tricôs feitos para durar, macacões que atravessaram gerações e peças garimpadas em brechós passaram a disputar espaço com lançamentos. Mais do que uma mudança estética, é uma nova forma de enxergar a infância e consumir moda. 

“Quando começamos, em 2019, ainda havia uma barreira cultural que hoje praticamente desapareceu,” diz Daniela Bussab, cofundadora do Re-Petit, brechó online especializado em roupas infantis. Ela percebe que houve uma “virada de chave” há cerca de dois anos, impulsionada tanto por uma comunicação mais positiva em torno da roupa de segunda mão quanto pela chegada à maternidade de consumidoras que já compravam em plataformas de revenda.

Muitas delas cresceram frequentando second hands, adquirindo peças usadas e questionando os impactos ambientais do consumo. Sendo a indústria da moda uma das maiores poluidoras do mundo, prolongar a vida útil das roupas contribui para reduzir o desperdício têxtil e as emissões de carbono associadas à produção de novas peças. “Além de gostar, elas se gabam disso nas mídias sociais. Ao mesmo tempo, os brechós estão mais bem posicionados e há celebridades e influencers levantando essa bandeira,” diz Daniela.

No Re-Petit há “lojinhas” abastecidas por nomes como a atriz Claudia Raia, a influenciadora Fiorella Mattheis, a chef Renata Vanzetto e a designer de bolsas Yasmine Paranaguá. A dinâmica ajuda a ampliar a visibilidade da plataforma e reforça um ciclo em que a roupa infantil deixa de ser um produto descartável para adquirir novas camadas de significado, estimulando desde cedo uma relação mais saudável com a moda.

Com quase 90 mil peças comercializadas,18 mil itens em estoque e 60 mil visitas únicas por mês no site, Daniela atribui o crescimento do negócio a um modelo baseado em curadoria, operação totalmente digital e serviços personalizados, como as malinhas enviadas às casas das clientes da capital paulista com peças selecionadas a partir de um cadastro preenchido no site. “Também recebemos peças de todo o país, retiramos os desapegos e temos 18 pontos de coleta, sendo dois em Campinas e os outros em bairros, localizados em lojas parceiras,” diz. Além de roupas, o Re-Petit comercializa acessórios, brinquedos, livros e objetos para amamentação.

Publicitária, Daniela criou o brechó ao lado da empresária Marcela Coelho quando ambas estavam repensando suas carreiras após a maternidade. “Éramos recém-mães e fomos impactadas pela quantidade de roupas que comprávamos e que se perdia muito rápido, além dos valores, que são altos,” diz. Ao pesquisar o mercado perceberam que no exterior o recommerce crescia impulsionado pela pauta da sustentabilidade. “Começamos pegando roupas de pessoas próximas e ocupando um quarto na minha casa. Em menos de um mês o espaço já não era suficiente.”

O ritmo acelerado de crescimento das crianças ajuda a explicar esse movimento. Elas trocam de numeração, em média, sete vezes mais rápido do que os adultos e grande parte das roupas é deixada de lado antes mesmo de apresentar sinais de desgaste. O resultado é um mercado abastecido por peças em excelente estado, enquanto famílias encontram uma forma de reduzir gastos sem abrir mão da qualidade. Em vez de adquirir um item novo com fibras sintéticas, por exemplo, muitos consumidores têm preferido comprar uma peça usada de algodão orgânico assinada por uma marca desejada, pagando até 80% menos.

Os números reforçam essa transformação. O Fórum Econômico Mundial projeta que as roupas para crianças são o segmento de crescimento mais acelerado dentro do mercado global de revenda de moda. Na mesma direção, o relatório The State of Fashion 2025, da McKinsey & Company em parceria com o portal The Business of Fashion, aponta a busca por maior valor agregado como um dos principais motores do consumo de moda e identifica a revenda como um dos canais que mais crescem em comparação ao varejo tradicional.

A expectativa é que, até 2028, o mercado global de revenda movimente cerca de US$ 350 bilhões e amplie sua participação no setor de vestuário, impulsionado por consumidores interessados em produtos com maior durabilidade e valor percebido. 

No Brasil, levantamento do IEMI - Inteligência de Mercado mostra que, mesmo em um cenário econômico desafiador, os segmentos infantil e bebê permanecem entre os mais resilientes do varejo físico e digital de moda. Juntos, representam cerca de 16% do mercado têxtil nacional e registram crescimento médio anual de 6%. Apenas no ano passado, foram comercializados aproximadamente 1,5 bilhão de itens, movimentando mais de R$ 63 bilhões.

Outro modelo de negócio aposta exclusivamente nas lojas físicas. Foi essa a escolha de Tatiane Martins ao fundar, há dez anos, a Charlie & Lolla, nome inspirado em um desenho animado. Também motivada pela rápida rotatividade das roupas do filho, ela abriu uma pequena loja no bairro do Morumbi, em São Paulo, com cerca de mil peças. Hoje, a unidade é a mais movimentada da rede, que também possui endereços na Vila Mariana e no Tatuapé, administrados em sociedade com familiares. Instaladas em casas de ruas tranquilas, as três lojas venderam aproximadamente 8 mil peças apenas em junho.

Funcionária pública, Tatiane pediu licença sem remuneração para se dedicar integralmente ao negócio quando percebeu o potencial do mercado de segunda mão infantil. Diferentemente do modelo tradicional dos brechós, prefere comprar as peças em vez de trabalhar com consignação, estratégia que considera importante para fidelizar fornecedores. Entre as marcas mais procuradas estão Gap, Ralph Lauren, Carter’s, Tommy Kids, Lacoste, The North Face, Fábula e Filó Kids, principalmente para crianças entre zero e três anos, faixa etária em que a troca de numeração acontece com maior frequência.

Tatiane estima que 80% das pessoas que vendem itens infantis utilizam o valor recebido para comprar outros produtos para os filhos. O ambiente digital funciona como apoio à operação física. A empresária concentra as vendas em grupos fechados de Whatsapp organizados por faixa etária e no atendimento via Instagram. “São nove comunidades com aproximadamente mil mães em cada uma. Elas respondem por cerca de 40% das vendas.”

Outro formato em expansão é o de franquias de roupas infantis usadas, como a Cresci e Perdi. Fundada em 2014, em São José do Rio Pardo (SP), pela empresária Elaine Alves, após o nascimento do primeiro filho, a rede comercializa enxovais, carrinhos, acessórios e roupas novas e seminovas com descontos que podem chegar a 90% em relação ao varejo tradicional. O investimento inicial para abrir uma unidade gira em torno de R$ 275 mil em cidades com população entre 40 mil e 60 mil habitantes.

Há ainda quem transforme o reaproveitamento das roupas em atividade lúdica e ferramenta de aprendizado. No Rio de Janeiro, Jasmine Schueler, sócia-diretora da escola Moda D, começou há dez anos oferecendo oficinas de férias voltadas à customização. Hoje, recebe crianças a partir dos 8 anos em aulas particulares e, a partir dos 10, em turmas coletivas, muitas vezes acompanhadas de mães e avós interessadas em aprender costura.

“Quando a criança entra no curso deixa aflorar a criatividade do vestir e quer fazer o que tem vontade de usar,” diz Jasmine. Entre suas lembranças, está a de uma aluna de apenas 8 anos apaixonada por moda, que tinha livros sobre Chanel e queria fazer peças complexas como blazer. 

Seja comprando uma peça usada ou transformando uma roupa por meio da costura, uma nova geração está aprendendo, desde cedo, que uma peça pode atravessar muitas infâncias antes de chegar ao fim de sua história.