A chita é nossa, mas já foi da Índia

A chita é nossa, mas já foi da Índia

Conheça a história do tecido baratinho que é a cara das festas juninas - e do Brasil o ano todo

Com a proximidade do mês de junho, tudo parece ganhar mais cor. E flor. O responsável por isso é ele, o tecido popular que, com o tempo, ganhou status e espaço artístico.

Estamos falando da chita. Sim, enganado está quem pensa que seus motivos decoram apenas os santos populares e as tradições campestres. Afinal, o brasileiro gosta de cor o ano todo.

A chita foi trazida ao país pelos portugueses. Porém, antes disso, as navegações da coroa conheceram o tecido na Índia Medieval. A chita era conhecida como “chintz” pelos indianos, fabricada em um algodão telado e estampado graças a uma técnica manual de carimbos de madeira. Por ser colorida, logo caiu no gosto da nobreza europeia – tanto para vestes quanto para decorar palácios. Os tons vivos eram um símbolo de poder e somente as classes dominantes podiam os usar.

A chita só “chegou” por aqui, ou seja, começou a ser produzida nos trópicos nacionais, quando a família real portuguesa partiu. Com isso, houve a liberação da impressão de papel e tecido no Brasil. Antes, existia uma proibição de manufaturas, assinada em 1795. O início da confecção e do comércio se deu na Bahia e em Pernambuco, os principais centros administrativos da época. 

O tecido de origem indiana, altamente consumido pela nobreza europeia, ganhou sotaque local e passou a ser estampado com a técnica de xilogravura. Sua confecção, em algodão Morin, conferia leveza. A trama era espaçada e os motivos florais saltavam aos olhos em cores vibrantes. O custo de produção da chita era baixo, logo, ela se tornou acessível e disseminada em diferentes camadas sociais. O tecido também foi muito utilizado até para forrar colchões. 

Hoje, não é incomum que surja em galerias, palcos e vitrines. Já nos anos de 1960, por exemplo, ganhou o apelido de “mamãe-Dolores,” por sua participação no figurino da personagem - de mesmo nome - da novela O Direito de Nascer, da TV Tupi. Na mesma década, caracterizou os membros da Tropicália, como os cantores Caetano Veloso e Gal Gosta.

E nos anos de 1970, virou gracejo hippie e adentrou as residências brasileiras em almofadas, sofás e cortinas. A estilista Zuzu Angel, nesta época, foi a primeira a levar o tecido às passarelas. Gerou buzz na alta-sociedade carioca e, também, projeção internacional.

Hoje, enfim, a chita tem certo ar kitsch e continua a enfeitiçar diferentes criativos – o ano todo, não apenas no São João. Contudo, falemos dela: a festa junina, possivelmente a principal vitrine-palco do tecido no Brasil. O têxtil aparece em peso nas bandeirolas, toalhas de mesas e vestidos rodados. 

Essa conexão foi firmada pois a chita teve, por séculos, uma forte presença em zonas rurais por sua produção simples e aplicação versátil. O São João é uma celebração da colheita no campo. Assim, este tecido disparou como representante festivo da vida interiorana e caipira. 

Contudo, esta relação foi pautada ao longo do tempo por uma necessidade econômica. Ligava-se exclusivamente o tecido à uma ideia de escassez e até de breguice. Para alguns, este significado ainda existe. Porém, a chita transpassou preconceitos e se estabeleceu como símbolo nacional. Das quadrilhas às almofadas - que podem ser chiques - da sala de estar.