Na reta final do espetáculo Mudando de Pele, a atriz Taís Araújo, no papel de Mayah, dá voz a uma frase carregada de simbologias na ficção e na realidade: “E não há nenhum outro lugar em que eu gostaria de estar. Qualquer outro lugar do mundo do que aqui, e agora”.
Com três décadas de carreira, a artista carioca de 47 anos chegou a um auge de popularidade e prestígio consumado na peça escrita pela inglesa Amanda Wilkin e dirigida por Yara de Novaes. A montagem, em cartaz no Teatro Raul Cortez, do Sesc 14 Bis, em São Paulo, atesta sua maturidade e preocupação em entregar mensagens relevantes. Neste caso, a representatividade preta e a importância do autoconhecimento para a emancipação feminina.
Em Mudando de Pele, Taís é uma mulher à beira dos 40 anos em crise com as escolhas que borraram sua identidade. Em um único dia, Mayah implode seu mundo como se, inconscientemente, soubesse da necessidade de recomeçar do zero. Depois de um ataque de fúria, a personagem é demitida do emprego, rompe um relacionamento e fica sem ter onde morar.

Ao alugar um quarto na casa de uma jamaicana de 90 anos, a protagonista se reconecta com sua ancestralidade e percebe o quanto os mais velhos lutaram para que as gerações seguintes tivessem a garantia de direitos civis. Fica mais perplexa ao conhecer Kemi, uma garota que se orgulha das raízes pretas e se recusa a se adaptar aos padrões de uma sociedade branca.
Intérprete e personagem começam aos poucos a se fundirem durante o espetáculo. Taís jamais baixou a cabeça para imposições racistas e tem um papel definidor na autoestima de jovens pretos que cresceram acostumados a verem seus trabalhos na televisão. O mais recente, a novela Vale Tudo, saiu do ar em outubro passado.
Lançada no papel-título de Xica da Silva, folhetim da extinta TV Manchete em 1996, a artista se tornou a primeira protagonista preta de uma novela da TV Globo em Da Cor do Pecado, exibida em 2004. Dali para frente, conheceu uma ascensão inédita e fez questão de ter a sua voz ouvida nos bastidores e diante do público. “Tenho um compromisso e sou essa mulher que pode ser rebelde, provocar reflexões”, afirma Taís, em entrevista ao Page9. “Eu aproveitei muito bem todas as oportunidades que me foram dadas, com seriedade e profissionalismo, e acho importante o brasileiro se ver e se gostar.”
Quando decidiu voltar ao teatro, Taís queria um texto de uma autora preta que fugisse da dor ou da superação do preconceito. Em O Topo da Montanha, peça que apresentou entre 2015 e 2019, ao lado do marido, o ator Lázaro Ramos, o racismo se fazia notório mesmo embalado por uma ficção envolvendo o ativista Martin Luther King (1929-1968).
Nos últimos anos, porém, a atriz entendeu que existe uma espetacularização do sofrimento negro e buscou uma personagem que enfrentasse problemas capazes de reverberarem em plateias heterogêneas. O principal assunto da montagem são os conflitos de uma mulher que chega aos 40 anos sem se conhecer e, numa ruptura radical, desce ao fundo do poço para emergir à superfície.

Mayah se sente violentada na rotina do trabalho, sofre com a falta de escuta do namorado e, em sua transição para a maturidade, entende que não basta ser desaforada com quem lhe diga algo de negativo. “A problemática racial atravessa a sua história, mas essa mulher não pode ser reduzida a isso”, define. “As pessoas têm desejos, amores, sonhos e querem ser enxergadas além do sofrimento.”
O figurino, criado por Teresa Nabuco, em tons marrons, começa largo, cheio de camadas e, durante a peça, a atriz se despe de casacos até chegar a uma malha que marca o seu corpo. O cabelo, então preso, é assumido perto do final com a fartura dos cachos em um rito de passagem.
Yara de Novaes é responsável por dois dos melhores monólogos recentes do teatro brasileiro, Prima Facie e Lady Tempestade, interpretados respectivamente por Débora Falabella e Andrea Beltrão. Prática, a diretora se caracteriza por uma preocupação cênica que ultrapassa a obviedade do artista como único elemento de um solo e estabelece constantes quebras para o personagem. “Em um monólogo, que é um ambiente de risco, eu precisava de alguém com o estofo da Yara”, assume a atriz.
Mesmo que o texto se concentre na boca de Taís, ela conta em cena como o suporte de duas musicistas, Dani Nega e Layla, que, além do apoio sonoro, interagem pontualmente com a protagonista. A presença das duas artistas serve de contraponto e choque para Mayah, que, por autodefesa, na primeira parte da peça, é dominada por uma arrogância para disfarçar ressentimentos.
Como produtora e estrela de Mudando de Pele, Taís volta a confirmar que tem nas mãos o controle das mensagens que pretende oferecer. Em momento de transformações sociais, sabe o seu poder junto ao público e, mesmo em um trabalho com uma linguagem bem mais subjetiva que aquela comum na teledramaturgia, não desaponta os fãs. Suas impressões digitais ficam claras ali.
Reconhece que muitos que vão vê-la jamais tinham pisado em um teatro e, diante da responsabilidade, tem consciência de que isto só acontece graças à projeção na televisão. “Quando li esta peça percebi que as pessoas gostariam de ouvir a história e, sendo produtora, preciso de um retorno de bilheteria”, diz.
O faro de Taís se mostra infalível. Depois do sucesso no Rio de Janeiro, a temporada de Mudando de Pele tem ingressos esgotados até o fim, em 5 de julho. Uma nova série de apresentações na capital paulista começa em 13 de agosto, desta vez no Teatro Faap, e as entradas serão vendidas a partir do dia 25 deste mês. “Eu só quero que a experiência destas pessoas seja mágica, única e que elas sempre voltem ao teatro”, declara. “Vivemos um processo de construir novos olhares nos diferentes veículos de comunicação, e meu lugar como artista é falar o que penso no palco.”
















