Querido colega, não foi a IA que fez meu trabalho

Querido colega, não foi a IA que fez meu trabalho

O mundo segue validando a intelectualidade feminina com aquela velha pergunta: “Foi você mesma quem fez?”

Há alguns anos, vivi uma cena que aposto que você, mulher, já deve ter experimentado de alguma forma. Eu tinha acabado de entregar um planejamento complexo, daqueles que exigiram noites mal dormidas e um esforço desgastante de conectar teses e argumentos para transformar o que era, até então, uma ideia, em um projeto concreto. 

Ao apresentar o resultado, a reação do meu interlocutor não foi necessariamente um elogio ou um questionamento técnico — algo para o qual eu me preparei, inclusive, para responder. Ele encostou na cadeira, sorriu e disse: "Muito bom. Foi você mesma quem fez?"

Eu era jovem e ainda sem muitas das barreiras mentais que tenho hoje. Fui tomada por aquela pergunta a ponto de me questionar se as semanas que dediquei àquele projeto tinham realmente existido, ou se estavam apenas na minha cabeça.

Senti como se meu HD mental tivesse sofrido uma pane. Aquela fala despejou em mim bem mais do que uma dúvida sobre a minha competência: chegou como um bug na forma como eu processava a ideia de um trabalho bem feito e, principalmente no que era sucesso feminino no ambiente de trabalho. 

Homens frequentemente são promovidos ou contratados com base em seu potencial de aprendizado enquanto, para nós mulheres, a régua sempre foi a da entrega comprovada. Esse tipo de lembrança é a porta de entrada para uma reflexão muito mais ampla sobre como o mundo vem validando a intelectualidade feminina.

Mulheres estudam mais, se preparam mais para qualquer tipo de posição e, com as inteligências artificiais de hoje em dia, essa mesma dúvida ganhou uma roupagem nova e mais tecnológica. Se antes questionavam a nossa capacidade intelectual como se fosse fruto de uma mente masculina, hoje essa dúvida se materializa com questionamentos como: "Qual foi a IA que você usou?"

A IA, que promete democratizar a produtividade, tem criado uma nova camada de suspeita sobre a autoria feminina a despeito de aceitar que, sim, uma mulher pode ter conseguido chegar naquele resultado com base no próprio repertório. 

Quando um homem utiliza ferramentas avançadas de automação, ele costuma ser visto como um líder inovador, alguém que otimizou o tempo de forma inteligente; mas quando uma mulher faz o mesmo, o viés inconsciente sugere que ela estaria roubando no jogo.

Se historicamente a autoria feminina foi questionada como algo que um homem teria feito, agora enfrentamos o desafio de competir com a percepção de que a máquina fez todo o trabalho. 

Não precisamos ir longe para concluir que, apesar de mais preparadas, também estamos mais exaustas e ansiosas em ter que — com uma frequência insalubre, por sinal — provar que estamos prontas e sabemos o que estamos fazendo.

Eu sou adepta do uso de inteligência artificial há três anos. Automatizei tarefas repetitivas, liberei tempo para o pensamento estratégico, mas só posso usufruir dos benefícios dessa economia porque em casa, o trabalho doméstico é compartilhado, não uma responsabilidade unilateral. 

Mas quando olho para minhas pares encontro uma realidade onde as tarefas de cuidado continuam recaindo desproporcionalmente sobre elas. No ambiente profissional, a situação não é das melhores: dados do relatório Women in the Workplace da McKinsey mostram que as mulheres em cargos de liderança realizam significativamente mais trabalho de apoio e bem-estar para suas equipes do que seus pares masculinos. 

O resultado é que economizamos tempo gerando relatórios por IA para gastá-lo gerenciando a ansiedade de um sistema sobrecarregado. 

Ainda que a IA traga muita inovação para todos os setores, um estudo da UNESCO revela que apenas 22% dos profissionais que trabalham com Inteligência Artificial no mundo são mulheres. 

Quando os algoritmos que decidem quem é elegível para uma vaga de emprego ou quem tem o perfil ideal de liderança são desenhados por um grupo homogêneo, eles inevitavelmente perpetuam os preconceitos do mundo analógico. A IA escolhe seu lado não por maldade, mas por matemática: ela replica o passado. E o passado nunca foi um lugar confortável para nós, mulheres.

Diante disso, como podemos navegar por essas tensões sem deixar nossa saúde mental pelo caminho? Não tenho uma resposta definitiva ou um manual de instruções, mas talvez possamos começar a desenhar algumas mudanças juntas, porque qualquer tática que nos ajude a reivindicar direitos e autoria só para de pé se, dentro de nós, homens e mulheres, a estrutura misógina também se dissolver. 

Porque no fim do dia, tecnologias são excelentes reprodutores do que existe dentro de nós.