Dessa vez, assistimos à final da Copa do Mundo com expectativas diferentes. Pela primeira vez, um dos eventos mais assistidos do mundo contaria com um show de intervalo, algo muito americano de se fazer, replicando o formato de sucesso do halftime show do Super Bowl.
O espetáculo, com produção da Global Citizen e curadoria musical de Chris Martin, reuniu ícones do pop, como Madonna, BTS, Shakira, Justin Bieber e Coldplay — e um maestro.
No show do intervalo, Gustavo Dudamel regeu integrantes da New York Philharmonic e da Orquestra Sinfônica Simón Bolívar, criada na Venezuela, sua terra natal, em uma versão de Seven Nation Army — com os Muppets no palco (Animal, Janice e Floyd Pepper) participando da performance.
A música da banda The White Stripes é um fenômeno dos estádios: o riff virou um dos cantos (“oh-oh-oh-oh-oh-oh-oh”) mais usados em jogos de futebol. Uma escolha certa para entreter uma audiência tão variada.

Gustavo Dudamel não dispensa apresentações. Famoso pela conexão com o público que transformou por completo a maneira como assistimos a um concerto, a plateia fica em êxtase ao vê-lo.
Já cruzou a cultura pop com sua orquestra inúmeras vezes, incluindo o Coachella 2025 e o Super Bowl 2016, ao lado de Coldplay, Beyoncé e Bruno Mars. No estádio de New Jersey, ao se apresentar a uma audiência estimada em mais de cinco bilhões de pessoas, levou a outro patamar aquilo que vem fazendo há anos: desmistificar a ideia de que a música clássica é elitista ao aproximar a música erudita de estilos que vão do pop ao jazz.
Dudamel lota apresentações pelos quatro cantos do mundo e vem sendo comparado a Leonard Bernstein pelo fascínio que desperta fora do universo clássico e pelo carisma que conquista plateias mundo afora. Ah, e ainda tem o cabelo, que também balança enquanto rege.
Em setembro, Dudamel, 45 anos, passará a ocupar o posto de diretor artístico da Filarmônica de Nova York, entrando para uma lista de grandes nomes que já passaram pela instituição, ao lado de Gustav Mahler e do próprio Bernstein, e se tornará o primeiro latino a comandar a mais antiga orquestra sinfônica dos Estados Unidos.

Nos últimos 17 anos, o venezuelano atuou como diretor musical da Filarmônica de Los Angeles. Assumiu o posto aos 28 anos e, desde 2022, ele acumulou também o título de diretor artístico. Durante esse período, a Filarmônica de Los Angeles se tornou uma das mais importantes do mundo.
Dudamel nomeou 54 dos 106 integrantes atuais, melhorou a saúde financeira da orquestra e, ao impulsionar uma visão ousada e programação eclética, conquistou um público maior e mais jovem.
Além disso, criou o YOLA (Youth Orchestra Los Angeles) — programa de educação infantil que hoje atende cerca de 1.500 jovens músicos em núcleos espalhados pela cidade, oferecendo de maneira gratuita instrumentos, aulas de música, apoio acadêmico e formação de liderança.
Educação musical é um dos pilares de sua carreira. A origem dessa vocação vem da infância.
Dudamel cresceu em Barquisimeto, cidade com menos de 1 milhão de habitantes na Venezuela, em uma família ligada à música: seu pai é trombonista profissional de salsa; sua mãe, professora de canto. Por incentivo dos pais, iniciou os estudos musicais aos cinco anos.
A base de sua formação musical foi o El Sistema, programa criado em 1975 pelo músico e economista José Antonio Abreu, com a premissa de que a educação musical deveria ser gratuita e acessível a todas as crianças do país. Uma inspiração para tudo aquilo que Dudamel vem deixando como legado.
Ao longo da carreira, Dudamel conquistou nove Grammys, teve sua trajetória retratada no documentário Viva Maestro!. E, embora nunca tenha sido oficialmente confirmado, tudo indica que serviu de inspiração para o personagem do maestro latino interpretado por Gael García Bernal na série Mozart in the Jungle, do Prime Video.
Enquanto prepara a mudança para Nova York, uma série de despedidas ao maestro celebridade têm sido realizadas. Antes de encerrar seu ciclo à frente da LA Phil, comandará A Concert for Venezuela, no Hollywood Bowl, em 23 de agosto. O espetáculo beneficente arrecadará fundos para comunidades afetadas pelos terremotos no país natal do maestro, em parceria com o PNUD e o CAF.
A temporada em Nova York começa com eventos por toda a cidade, não apenas no palco do Geffen Hall. A orquestra retornará ao Radio City e levará duas apresentações da ópera Tosca, de Puccini, ao Carnegie Hall em novembro.
Uma nova era está prestes a começar.















