Lucky é uma garota de sorte. Ela é bonita, sexy, inteligente, com alta capacidade de se safar de qualquer problema. Ela deu um golpe fenomenal, faturou milhões e agora, ao lado da pessoa amada, ela poderá descansar, fazer planos e usufruir de toda essa fortuna. O que ela deseja, ela consegue.
Não, Lucky não é uma garota de sorte. Ela continua sendo bonita e sexy, mas a situação — fugas, esconderijos, disfarces, mentiras e correrias — não tem permitido que ela se ache bela. Seu rosto, quase sempre sujo, agora está marcado por feridas, cicatrizes e hematomas.
Sua inteligência e sua capacidade de se safar continuam afiadas, só que o momento exige que ela use todo esse talento de maneira imediata para se salvar. E a fortuna e a pessoa amada já eram. O segundo pegou a primeira e sumiu pelas areias do deserto. Lucky está só.

Lucky é Luciana Armstrong, a golpista charmosa e audaciosa, protagonista de Lucky, o novo thriller policial da Apple TV. Os dois primeiros estão em exibição desde o último dia 15. Os outros cinco da primeira temporada serão lançados a cada quarta-feira até o dia 19 de agosto.
Na série, Lucky é interpretada por Anya Taylor-Joy, de Duna: Parte 3 e O Gambito da Rainha, outro sucesso recente do streaming. Adaptado do romance homônimo de Marissa Stapley, o roteiro — de Jonathan Tropper — acompanha a frenética fuga da personagem principal que acorda na gigantesca suíte do Caesar’s Palace, em Las Vegas, e se dá conta que foi vítima de um boa noite Cinderela e traída por quem ela mais confiava.
Sem dinheiro e ainda presa ao hotel, ela transforma-se na suspeita número 1 e passa a ser perseguida e a lutar pela sobrevivência. Os salões do cassino são os primeiros cenários da constante e louca escapada de Lucky.
Como nada é fácil para Lucky, ela não é perseguida por um, mas por dois adversários. O primeiro é o FBI, comandado pela agente do Billie Rand (Aunjanue Ellis-Taylor), guardião da lei e com a legítima função de recuperar o US$ 10 milhões roubados.
O outro perseguidor não é pautado por nenhuma espécie de ética: é um grupo mafioso liderado pela gélida Priscilla Masterson (otimamente interpretada por Annette Bening).

Ela não apenas está atrás da monumental fortuna como não tem o menor interesse em preservar a integridade física de Lucky, sua ex-nora. Priscilla é mãe de Cary (Drew Starkey), aquele que traiu Lucky.
Nesse labirinto de perigos, em que a protagonista precisa pular de caminhões, escapar de assassinos, trocar socos com capangas, fugir de um porta-malas somente com um isqueiro e se defender de um ataque mortal com apenas uma chave de fenda, Lucky conta apenas com uma ajuda: a de seu pai.
E nem é um dos auxílios mais efetivos, já que Jack Armstrong (vivido por Timothy Olyphant) encontra-se a muitas milhas de distância, encarcerado em um presídio. Sua única “arma” é um telefone. Com fio!
Resultado de um estilo de produção que os americanos fazem em grande quantidade e com frequente qualidade, a série surgiu no momento em que Reese Witherspoon, produtora da Hello Sunshine, ofereceu o livro — Lucky foi lançado no mercado editorial brasileiro em 2022 — a Annie Taylor-Joy.
O convite trazia embutido uma proposta: Annie não seria apenas a protagonista, mas também teria a oportunidade de fazer sua estreia como produtora executiva. Sua responsabilidade estaria à frente e atrás das câmeras. Taylor-Joy aceitou.
“Adoro filmes de golpes. Sempre sofisticados, sensuais, com aquele charme do George Clooney,” disse Anya em uma das entrevistas de divulgação da produção. “Lucky oferece uma visão bem diferente, pois trata de alguém que precisa continuar se movendo para sobreviver. Para isso, ela está sempre tirando algo das outras pessoas,” completou.

Assim, nesse contexto agitado e febril, Lucky se destaca por um detalhe decisivo: dá à uma história de ação um drama pessoal e familiar.
Com cenários escaldantes — muitas corridas pelo deserto entre cactos e cascavéis — Lucky é um produto de seu meio. Filha de um golpista, que outrora se dá mal e é preso, ela desde cedo soube que não teria como fugir a esse destino.
O único ensinamento que seu pai lhe passou foi o de aplicar golpes, dos mais insignificantes aos mais audaciosos. E só o fato de não ser presa já parece ser uma vitória. Essa criação disfuncional não desperta repulsa, mas exalta a cumplicidade entre dois personagens. O público até esquece que são dois marginais.
Já os dois primeiros capítulos são generosos ao mostrarem como pai e filha criaram esse estranho elo tendo a criminalidade como objetivo comum. É uma estranha forma de vida — e uma estrada que parece nunca terminar.
Ou, na melhor das hipóteses, vai acabar num abismo.















