Bibliotecas presidenciais se tornaram um tópico quente nos últimos meses. Barack Obama inaugurou a sua – que mais se assemelha a um centro cultural – e Donald Trump aventou publicamente seu plano: um arranha-céu em Miami com hotel e um museu dedicado à sua própria história.
No interior do país, na cidade de Medora, na Dakota do Norte, uma outra biblioteca presidencial foi aberta, mas o homenageado deixou a Casa Branca em 1909.
Inaugurada neste ano no dia em que os Estados Unidos completaram 250 anos, a Theodore Roosevelt Presidential Library busca manter vivo o legado do presidente, que entre a política do Big Stick e a adoração pela caça animal, fundou o serviço florestal americano e foi um dos grandes responsáveis por manter a vegetação natural de mais de 930 mil quilômetros quadrados de terra.

O conservacionismo de Teddy Roosevelt guiou o projeto da biblioteca, feito pelo escritório Snøhetta, originalmente da Noruega, mas com um escritório em Nova York. O local parece “surgir” em meio às badlands do interior do país em uma estrutura cujos materiais e cores foram escolhidos para integrar a obra à paisagem.
A ideia por trás do projeto nasceu de uma caminhada. Craig Dykers, que comanda o Snøhetta, acampou na região em busca de inspiração e encontrou um par de pedras escondidas sob uma folha. Do achado surgiu o conceito de dividir a biblioteca em dois pavilhões – um com museu e restaurante, outro com auditório, escritórios e salas de aula – conectados por um telhado caminhável grande o suficiente para estacionar dois Boeing 747.
O telhado também abriga o Native Plant Project, esforço de recuperação da vegetação nativa que começou antes da construção do local. Uma equipe catalogou sementes de origem genética local e recrutou voluntários da North Dakota State University para cultivá-las, transformando o telhado e o platô em uma vitrine da flora local.

No interior da biblioteca, paredes internas de terra socada são altas, texturizadas e com faixas onduladas de solo colorido, resgatando uma técnica construtiva pré-industrial compartilhada por colonos europeus e povos nativos na região, funcionando quase como esculturas sobre a geologia da região.
O conteúdo do museu celebra os feitos de Roosevelt na presidência, mas também confronta seu imperialismo, racismo e a relação conturbada com povos indígenas. A estátua do presidente a cavalo, ladeado por um homem africano e um nativo americano – removida da fachada do American Museum of Natural History, em Nova York – não está em exibição, mas guardada no acervo da instituição.
A grande atração, porém, é tecnológica: um holograma de Roosevelt com inteligência artificial, desenvolvido pela Microsoft.
A escolha por Medora não foi por acaso. Foi lá que Roosevelt se exilou após sua mulher e sua mãe morrerem no mesmo dia, 14 de fevereiro de 1884. Em luto, ele deixou Nova York e construiu uma cabana no Little Missouri River Valley, atualmente na entrada do parque nacional que leva seu nome. Foi durante esse período que o futuro presidente desenvolveu as ideias de conservacionismo que aplicaria durante a presidência.

A cerimônia de inauguração contou com a presença de Trump, que cortou a fita ao lado de Doug Burgum, seu secretário do Interior e ex-governador da Dakota do Norte, um dos grandes defensores do projeto. Trump chamou Roosevelt de "he-man" por ter construído o Canal do Panamá e classificou a nova biblioteca como um "novo tesouro nacional", mas evitou o tema central da obra: o conservacionismo.
Em Medora, cidade de apenas 160 habitantes segundo o censo de 2024, os preços dos imóveis já sobem e novas casas surgem nas colinas – a expectativa local é que a biblioteca atraia mais turistas para o roteiro que passa pelo parque de Yellowstone, o Monte Rushmore e o parque de Roosevelt. Ed O'Keefe, CEO da instituição, projeta 280 mil visitantes por ano.
Diferentemente das bibliotecas de Obama e do projeto de Trump, a de Roosevelt não está ligada ao National Archives and Records Administration. Ela é mantida por uma fundação privada, já que os documentos originais do presidente foram dispersos antes mesmo de existir o conceito de biblioteca presidencial, criado pelo primo distante de Teddy, Franklin D. Roosevelt na década de 1940.















