Andréa del Fuego é publicada em 12 países, ganhou, em 2011, o Prêmio José Saramago por Os Malaquias, faz sucesso com seu A Pediatra e estreia esta semana na programação principal da Festa Literária Internacional de Paraty.
Mas bem antes disso, quando já escrevia muito, gostava mesmo era de se perder em blogs. E, assim, se achava sempre em um novo relevo. De um blog sobre flores, caía em uma página escrita por um adolescente fã de heavy metal.
O algoritmo diminui a complexidade, acredita del Fuego. “Mas ele já estava entre nós. A religião é um. As ideologias também. Você não precisa inventar um mundo todo dia, acordar de manhã e criá-lo outra vez. A gente já estava no completo absurdo, meu amor,” diz.
Dos blogs tirou também o gosto pela coesão, por textos puerilmente lapidados. Como fez em Nego Tudo, coletânea de minicontos lançada por ela de maneira informal, há 21 anos, que ganhou em novembro passado uma edição da Companhia das Letras. Ela diz que é uma imersão no gênero de ficção súbita.
E apesar do tamanho enxuto, o gênero apresentaria um maior desafio. “O romance permite certa distração na página. Tem hora que o pensamento voa, mas você vai para o parágrafo seguinte e tudo bem,” diz. “Já a ficção súbita é um antídoto à falta de atenção.” Quando se tem pouco, a atenção é mais requerida.
Falando em atenção roubada para o feed, a escritora aponta para a mudança gerada pela digitalização: a perda do anonimato do leitor. “Ele passou a ter dicção, gravar vídeo e criar resenha. E, hoje, a capilaridade dos livros se deve muito a esse contágio via leitores que divulgam a própria leitura.”
Page9 conversou com a escritora.

Como você está se sentindo em relação à Flip?
Eu não imaginei que ela fosse tão observada assim. Eu sempre a frequentei, mas essa é a minha primeira vez na programação oficial. Dá para sentir a voltagem ainda mais, tem um sabor extra.
Hoje existe uma rede de literatura contemporânea nacional articulada pela Flip. Quando você lançou Nego Tudo, há 21 anos, tudo era bem diferente. O que mudou de melhor na área ao longo do período?
Agora temos um campo consolidado. Eu sei que passamos por trepidações, pois a cultura é a primeira que sofre turbulências econômicas e políticas. Contudo, é inegável que os brasileiros leem mais os brasileiros. O País se lê mais.
Além disso, teve um momento em que as mulheres, no mundo todo, encontraram um maior escoamento para demandas históricas. Lá atrás, há 20 e tantos anos, eclodiram os blogs. Na primeira edição do Nego Tudo, que na verdade eu nem chamo de edição pois não teve ISBN (International Standard Book Number ou Padrão Internacional de Numeração de Livro) e somente 111 exemplares foram vendidos para os amigos em um bar, foi uma época na qual as pessoas que escreviam começaram a se conhecer. Por conta dos blogs! A rede revelou um para o outro.
Era gigante a novidade de poder publicar um texto e ter leitores. Assim começava uma conversa, com pessoas que surgiam no seu blog e deixavam comentários. E aí, cortando para mais de duas décadas depois, o leitor deixou de ser anônimo, as pessoas passaram a ter um perfil com dicção, gravação de vídeo e criação de resenha. A capilaridade dos livros hoje se deve muito a esse contágio via leitores que começam a divulgar a sua própria leitura. Os clubes de leitura também fazem isso. Grupos que são, em sua maioria, criados e mediados por mulheres – e que costumam ler mulheres.
Hoje temos um mercado no qual as mulheres são curadoras de festivais, juradas dos prêmios, escrevem, são ilustradoras, tradutoras, revisoras e donas das editoras. Por fim, somos a maioria dos leitores. Eu enxergo o movimento da literatura feita por mulheres como um carro-chefe disso tudo.
E o que piorou na área nesses 21 anos?
Não vejo piora. Sabe por quê? A última decisão ainda é do escritor. Claro, existe uma liberdade inalienável: não há mais arte singular, individual, nesse sentido. Porém, há uma decisão ali. Com base nessa escolha, e ninguém sendo obrigado a exatamente nada na literatura (o que é um gesto de liberdade, autonomia e cidadania), forma-se uma pluralidade.
Acontece que vivemos um momento histórico de muitas demandas sociais imediatas e antigas. A literatura conversa com vozes e momentos históricos silenciados. E ela aguenta e absorve os tempos.
Pensando em escolhas, queria que você falasse um pouco da sua, em Nego Tudo, pela estrutura chamada de ficção súbita. Qual é a “piração” no microconto?
Todas as piras.
Neuroses?
Não, perguntas estéticas. O fragmento sempre me atraiu, tem algo aí que vem do romantismo alemão: a ideia da impossibilidade da obra de arte total. É um formato que pensa o próprio sopro e a narrativa da vida. No caso do Nego Tudo, temos uma série de atmosferas. Não são narrativas.
Este livro surgiu de exercícios de síntese que eu fazia por conta dos blogs. Ao circular por eles, gostava muito desses fragmentos. Aprecio a metáfora de “amores de estufa” para descrever essas ficções súbitas. É algo que não tem raíz, que não dará frutos, nem tem antes e depois. Os minicontos podem ter variados temas e não seguir uma linearidade temporal.
Quando você era uma leitora assídua de blogs, o seu interesse passava por assuntos variados?
Na época não existia este algoritmo, era um outro tipo de navegação. Então, num blog, tinha lá a opção de ir para o seguinte e era uma coisa aleatória. Não era porque eu via uma flor que apareceria um blog com flor. Você caía num adolescente que gostava de heavy metal, depois em uma mulher que fazia velas.
Acredita que o algoritmo carregue uma expectativa frustrada?
O algoritmo diminui a complexidade, ele segue um viés de confirmação. Tem um descanso que provém dele que é o de não precisar estressar, ou seja, de não ser necessário adaptar a percepção a cada novo pensamento. Mas o algoritmo já estava entre nós. A religião é um. As ideologias também. Você não precisa inventar um mundo todo dia, acordar de manhã e criá-lo outra vez. É humana a compulsão pelo viés de confirmação. A gente já estava no completo absurdo, meu amor.

Por falar em absurdo, e considerando a gradativa perda da capacidade de prestar atenção, você acredita que este formato facilite a compreensão por sua coesão? Ou é o contrário?
É completamente ao contrário. É uma leitura mais exigente, não flutuante. O romance permite até uma certa distração na página. Tem hora que o pensamento sai da frase e do parágrafo, mas você vai para o seguinte e tudo bem, há um maior poder de retomada. Já a ficção súbita é um antídoto à falta de atenção.
Há vertentes na literatura que colocam o romance como forma superior. Sente preconceito pelo miniconto?
Ele é tão fora do radar, na verdade. Começa por aí. Eu tenho muitos contos, digamos, tradicionais. Além de romances com universos inteiros. Então, foi uma escolha optar pelas ficções súbitas. Outro dia eu descobri que já tinha um pediatra escrito, mas era uma versão de vampiro.
Quando o escreveu?
Há muitos anos, mas ainda quero publicar. O pediatra vampiro que fazia exame de sangue nas crianças e tomava um shot.
Você lembra quando começou a escrever?
AdF: Logo depois da alfabetização, com exercícios de redação. Estudei em escola pública e não sou filha de leitores, na minha minha casa nunca teve biblioteca e meus bisavós nunca viram nem papiro. Só que eu enlouquecia escrevendo, adorava, fazia várias versões de uma mesma redação para entregar. A professora logo notou e pediu para eu me levantar na sala e ler. Uma criança só precisa de algo que não seja muito – e de um adulto que reconheça aquilo. Com o tempo, entendi que a escrita seria algo muito meu. Eu escreveria hoje se fosse manicure, piloto de avião, advogada, vereadora ou fizesse bolo de pote.

Como é a sua rotina?
Olha, eu gosto tanto dela que às vezes estabeleço uma sem pensar a história, só para ver que tipo de dia a dia daria o livro X ou Y. Isso vem também da experiência com mediação de oficinas, porque eu me lembro de testar exercícios e de ter resultados inacreditáveis. Tem pessoas que escrevem exatamente a mesma coisa, independente se sob chuva de canivete ou de algodão. Já outras reagem sensivelmente às condições de temperatura e pressão.
O meu processo varia. O livro que eu estou escrevendo me pediu muita pesquisa. É uma protagonista mulher com uma história de amor obsessivo. Para não me perder do processo criativo, gravava o que pensava sobre o livro durante as minhas caminhadas diárias.
A Pediatra talvez seja o seu livro mais pop. Por que ele tomou essa dimensão?
AdF: O que rolou em 2021 foi o maior reconhecimento das mulheres escritoras e de um repertório feminino. A Pediatra foi lançado na pandemia, quando os clubes de leitura ganharam capilaridade. Para não enlouquecerem, as pessoas se reuniam para falar de livros em chamadas de Zoom. O livro chegou num momento favorável. De resto, não dá para saber. É tudo uma grande aposta.
Boa sorte na Flip! Divirta-se na estreia.
Vou abrir um espacate quando entrar.















