O legado disputado de Churchill

O legado disputado de Churchill

Livro do historiador britânico Max Hastings examina os acertos e erros do primeiro-ministro na Segunda Guerra Mundial

A memória de Winston Churchill (1874-1965) ainda é cultuada em seu país. Em março, acompanhando uma entrevista com Volodymyr Zelensky, o jornal inglês The Independent publicou um editorial para exaltar a resistência da Ucrânia à agressão russa — e buscou no primeiro-ministro que liderou o Reino Unido entre 1940 e 1945 a régua para medir as realizações do presidente ucraniano: “Zelensky inspira em seu próprio povo o mesmo indomável espírito de desafio que Churchill inflamou durante os desastres e percalços das fases iniciais da Segunda Guerra Mundial”.

O legado de Churchill também é disputado. Recentemente, Persistence, obra em vídeo da artista Helen Cammock exposta na National Portrait Gallery, em Londres, causou barulho por atribuir ao primeiro-ministro a responsabilidade pela fome na Índia em 1943. 

Membros da Câmara dos Lordes — entre eles, o historiador Andrew Roberts, biógrafo de Churchill — protestaram contra a exibição da obra em um museu público. Persistence deveria seguir em exposição até setembro, mas a autora decidiu removê-la da NPG no mês passado.

Para quem busca uma avaliação equilibrada do grande líder inglês, de suas realizações e erros, está nas livrarias A Guerra de Churchill – 1940-1945 (Intrínseca), de Max Hastings. Jornalista que cobriu as guerras do Vietnã e do Yom Kippur, Hastings, de 80 anos, é também historiador especializado em assuntos militares. .

“Churchill fez parte do minúsculo grupo de atores que se mostraram dignos do papel que o destino lhes confiou,” proclama Hastings na introdução. Esse elogio hiperbólico, no entanto, não dita o tom do livro, que faz um minucioso inventário dos equívocos de seu protagonista. 

Três exemplos: em 1940, ainda antes de se tornar primeiro-ministro, Churchill planejou um ataque à Noruega que foi um total fracasso (ele voltaria a propor uma campanha no país escandinavo dois anos depois, mas a ideia foi sensatamente derrubada pelo general Alan Brooke, chefe do Estado-Maior Imperial).

Mais para o fim do conflito, apostou boa parte de suas fichas na ocupação da Itália, com graves perdas em batalhas como Anzio — e insistiu nessa alternativa mesmo depois que a entrada dos aliados na França abriu perspectivas melhores para tomar a Alemanha. 

No campo diplomático, foi muitas vezes ingênuo em suas negociações com Stalin sobre o Leste Europeu no pós-guerra.

A glória de Churchill se concentra nos primeiros anos da guerra, quando sua brava ilha resistiu sozinha contra as forças de Hitler. Seu talento retórico brilhou no discurso proferido na Câmara dos Comuns logo depois que a Força Expedicionária Britânica foi retirada da praia francesa de Dunquerque – um recuo que ganhou contornos heroicos. 

Churchill prometeu combate sem tréguas aos alemães nas praias, pistas de pouso, campos e ruas: “Não nos renderemos jamais”. Em 2022, Zelensky habilmente inseriu ecos desse discurso histórico no pronunciamento que fez, via internet, ao parlamento britânico.

O primeiro-ministro representou um esteio moral durante a Batalha da Inglaterra, de julho a outubro de 1940, quando Londres sofreu pesados bombardeios alemães. Se a Força Aérea Real (RAF) despontou então como a mais eficiente linha de defesa da ilha, o exército decepcionou Churchill nos anos seguintes. 

Hastings observa que oficiais e soldados britânicos eram formados em uma cultura de inércia burocrática, enquanto o inimigo alemão se mostrava ferozmente aguerrido no campo de batalha. 

Submetido a racionamentos e apagões, o povo britânico ansiava por vitórias substantivas, que demorariam a vir. Depois da entrada da União Soviética na guerra, em 1942, a percepção pública era de que só os russos estavam lutando de verdade contra Hitler.

Hastings menciona só de passagem a fome que deixou 3 milhões de mortos na Índia. Atribui a negligência com que Churchill tratou essa catástrofe à “visão imperial” do primeiro-ministro. 

O historiador dedica um capítulo inteiro a uma política churchilliana que gerou resultados nefastos por toda a Europa: o emprego de agentes secretos para insuflar e armar movimentos de resistência ao invasor alemão. 

Essa iniciativa, demonstra Hastings, teve resultados militares virtualmente nulos — e cobrou um alto custo humano: os nazistas massacravam civis para responder aos eventuais ataques guerrilheiros.

Nos dois anos finais do conflito, Churchill perdera quase toda a influência sobre a estratégia dos exércitos, que ficou na mão dos americanos. Tornou-se um turista de guerra, assistindo ao desembarque do Dia D, em junho de 1944, a bordo de um navio na costa da Normandia. 

Em julho do ano seguinte, já com a Alemanha derrotada e a três semanas da capitulação japonesa, o grande homem saiu melancolicamente de cena: o Partido Conservador, ao qual era filiado, foi fragorosamente derrotado nas eleições parlamentares.

Recorte do período central da longa trajetória de Churchill, o livro de Hastings é mais rigoroso com seu personagem do que Churchill – Caminhando com o Destino, a alentada biografia escrita por Andrew Roberts. 

No saldo de acertos e equívocos, porém, a obra confirma a liderança firme e a clareza moral com que o primeiro-ministro britânico enfrentou Hitler. Será difícil encontrar pessoas dessa estatura entre os líderes atuais. 

O mais forte candidato a ser o Churchill do século XXI é mesmo Zelensky. Resta esperar que ele também alcance a vitória.