Sheila Hicks: a autobiografia do fio

Sheila Hicks: a autobiografia do fio

Duas exposições simultâneas em São Paulo revelam dimensões complementares da obra da artista

Ao longo de mais de seis décadas, a artista norte-americana Sheila Hicks libertou o fio da estrutura do tear e fez dele o que bem entendeu. 

Duas exposições simultâneas em São Paulo apresentam seu trabalho em toda sua complexidade. 

No Instituto Tomie Ohtake, O que que é isso?, com curadoria de Ana Roman, Luis Pérez-Oramas e Paulo Miyada, se encontra um panorama histórico da produção de Hicks, reunindo cerca de 30 obras realizadas ao longo de mais de seis décadas. 

Na galeria Nara Roesler, Autobiografia de um fio, sob curadoria de Pérez-Oramas, são mostrados 20 trabalhos recentes e inéditos, produzidos desde 2017. É a primeira exposição individual da artista em uma galeria brasileira.

Em conversa com o Page 9, Luis Pérez-Oramas, diretor artístico da Nara Roesler e responsável por apresentar o trabalho de Hicks pela primeira vez no Brasil, na 30ª Bienal de São Paulo, em 2012, contou que a artista criou sua obra nos “entrelugares”: entre arte e design, o ancestral e o contemporâneo, a pequena escala do gesto e a dimensão monumental da arquitetura.

Nascida em 1934, em Hastings, no estado norte-americano de Nebraska, e radicada em Paris desde 1964, Sheila Hicks começou sua formação como pintora na Universidade Yale, onde estudou com Josef Albers, um dos principais nomes da Bauhaus. Também foi aluna do historiador George Kubler, especialista em arte e arquitetura pré-colombianas, influência decisiva para seu interesse pelas tradições têxteis da América Latina.

Em 1957, Hicks iniciou uma longa viagem pela região, passando por Venezuela, Colômbia, Peru e Chile, onde conviveu com artistas e artesãos, estudou técnicas ancestrais e investigou outras formas de compreender a relação entre matéria, memória e cultura. No ano seguinte, chegou ao Brasil. Para Pérez-Oramas, a América Latina está inscrita no “DNA original” de sua obra.

Em Yale, Hicks já trabalhava com retalhos, sementes, fósforos, galhos, pedaços de madeira e nós. O título da retrospectiva do Tomie Ohtake recupera a pergunta que Albers fazia ao se aproximar de sua mesa: “o que é isso que você está fazendo?”. A pergunta se justificava uma vez que sua obra não se enquadrava nas categorias conhecidas.

Não era exatamente pintura, escultura, tapeçaria, design ou artesanato — misturava tradição e experimentação, sofisticação e cultura vernacular. 

Tradicionalmente, o tecido nasce do cruzamento ordenado entre fios horizontais e verticais. Hicks parte daí, mas permite que o fio seja “insubordinado”,  deixando de ser apenas uma linha integrada e passa a cair livremente, acumular-se, formar colunas, cordas e grandes massas de cor.

Essa liberdade aproxima sua produção da sensibilidade que a crítica norte-americana Lucy Lippard definiu, nos anos 1960, como “Abstração Excêntrica”, em que se valorizava materiais flexíveis, formas orgânicas, imperfeições, acidentes e certa “confusão” visual, como lembrou Oramas. 

Para Hicks, a beleza não é simplesmente um valor abstrato atribuído ao objeto; é a própria matéria que ela usa para trabalhar.

Ela desmonta a antiga hierarquia entre a chamada grande arte e o craft. Quando Hicks começou sua carreira, trabalhos têxteis eram classificados como decoração, design ou produção artesanal — categorias historicamente associadas ao trabalho doméstico e feminino e, por isso, inferiorizadas ou desvalorizadas.

Hicks assumiu com gosto essa posição periférica e conseguiu comprovar que as categorias utilizadas para separar arte, design e craft eram menos distantes do que pareciam.

A relação com a arquitetura foi central no seu processo. Ao longo da carreira, Hicks colaborou com nomes como Luis Barragán, Félix Candela e Kevin Roche. Essa dimensão aparece na exposição do Instituto Tomie Ohtake. Sem seguir uma cronologia rígida, pequenas tecelagens convivem com cortinas e instalações monumentais.

Na Nara Roesler, a montagem parte do mínimo em direção ao máximo. Os pequenos trabalhos, que a artista chama de minimes, funcionam como laboratórios experimentais. São obras pequenas e concentradas, nas quais Hicks testa combinações de cor, materiais e estruturas. 

As exposições no Instituto Tomie Ohtake e na Nara Roesler permitem acompanhar os dois movimentos contraditórios de sua produção. Um conduz o fio à monumentalidade, fazendo-o disputar o espaço com a arquitetura. O outro retorna à escala da mão, do nó, do pequeno gesto e do objeto guardado. 

Hicks parece nunca ter se interessado em responder a pergunta de Albers: afinal, “o que que é isso?”. Sua importância está justamente em manter a pergunta aberta.

Autobiografia de um fio Galeria Nara Roesler São Paulo - Avenida Europa, 655Em cartaz até 24 de outubro de 2026

 

O que que é isso?Instituto Tomie Ohtake - Av. Faria Lima, 201 Em cartaz até 25 de outubro de 2026

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