O vazio que Dolly Parton deixa pelo tanto que fez em vida

O vazio que Dolly Parton deixa pelo tanto que fez em vida

Dolly Parton transformou o exagero em elegância, a pobreza em narrativa, a fragilidade em canção e a própria vida numa obra

A partida de Dolly Parton, aos 80 anos, deixa uma ausência que talvez seja sentida de maneira especialmente profunda por minha geração, aquela que atravessou a adolescência entre as décadas de 1970 e 1980. Dolly fazia parte de um imaginário coletivo muito antes de sabermos exatamente a dimensão da artista que existia por trás daquela figura quase inacreditável. 

Sua imagem histriônica, os cabelos loiros monumentais, os seios fartos, as roupas cobertas de brilhos, as unhas enormes e aquele sorriso permanente faziam a delícia da minha turma. Dolly parecia uma personagem saída de um desenho animado americano e talvez essa tenha sido uma de suas maiores genialidades: transformar a si própria numa criação pop sem jamais permitir que a personagem escondesse a compositora extraordinária que havia por trás dela.

Dolly Rebecca Parton nasceu em 19 de janeiro de 1946, no Tennessee, numa família pobre e numerosa, era uma entre doze irmãos. Saiu das montanhas dos Apalaches para construir uma das trajetórias mais impressionantes da cultura popular americana. O que poderia ter se limitado a uma carreira dentro da música country transformou-se numa obra capaz de atravessar gêneros, classes sociais, gerações e fronteiras.

E, antes de tudo, Dolly era uma compositora. Em 1974, gravou I Will Always Love You, uma despedida em forma de canção quando decidiu encerrar profissionalmente sua parceria com Porter Wagoner e seguir sozinha. Era uma canção country belíssima, econômica e emocional. Dezoito anos depois, em 1992, o mundo inteiro voltaria a descobri-la na interpretação arrebatadora de Whitney Houston para o filme O Guarda-Costas

A gravação tornou-se um fenômeno planetário, mas por trás daquele acontecimento pop continuava existindo a menina do Tennessee que havia colocado no papel uma das mais definitivas declarações de amor e partido da música popular. Dolly escreveu cerca de três mil canções ao longo da vida e vendeu mais de 100 milhões de discos com letras que transformavam experiências aparentemente particulares, pobreza, desejo, ciúme, abandono, trabalho, fé e sobrevivência, em sentimentos universais.

Em 1980, chegou ao cinema em 9 to 5, ao lado de Jane Fonda e Lily Tomlin. Era difícil separar a personagem Doralee Rhodes da própria Dolly: engraçada, sensual, inteligente e constantemente subestimada pelos homens ao redor. O filme transformou-se num clássico sobre mulheres enfrentando o machismo no ambiente de trabalho, enquanto a música-tema, composta e interpretada por Dolly, virou um de seus maiores sucessos.Havia algo profundamente moderno naquela mulher que aparentemente brincava com todos os estereótipos associados à feminilidade.

Dolly não tentava parecer menos feminina para ser respeitada. Fazia exatamente o contrário: aumentava tudo — mais cabelo, mais maquiagem, mais decote, mais brilho. Mais Dolly.

Quando posou para a Playboy, em 1978, vestida com o famoso figurino de coelhinha, tornou-se a primeira cantora country a aparecer na capa da revista. Mas não houve nudez. Dolly pregou uma peça no imaginário masculino. 

Dolly sabia rir de si mesma antes que alguém tentasse rir dela. Nunca pareceu constrangida pelo artificialismo de sua aparência. Ao contrário, fez dele uma linguagem. Enquanto tantas celebridades passam a vida tentando convencer o público de sua autenticidade, Dolly assumiu alegremente uma suposta imagem caricatural e, paradoxalmente, tornou-se uma das figuras mais autênticas da cultura americana.

Mas seria injusto lembrá-la apenas pelo entretenimento. Sua Imagination Library, criada em 1995, passou a distribuir gratuitamente livros para crianças, alcançando milhões delas em diversos países. Também destinou recursos a vítimas de incêndios no Tennessee e, durante a pandemia, doou US$1 milhão para pesquisas que contribuíram para o desenvolvimento da vacina da Moderna contra a Covid-19.

Dolly podia ser amada pelo público conservador do country americano e, ao mesmo tempo, transformar-se em ícone da comunidade LGBTQ+. Podia falar de fé sem transformar sua religiosidade numa arma contra os outros. Podia ser símbolo sexual e referência feminista. Podia frequentar o universo kitsch e ser reverenciada como uma das grandes compositoras americanas. Era uma dessas figuras que pareciam pertencer a todo mundo sem deixar de pertencer inteiramente a si mesmas.

Recebeu Grammys, entrou para o Rock and Roll Hall of Fame, conquistou Hollywood, Broadway, televisão e sucessivas gerações de ouvintes. Hoje percebo que aquela mulher que divertia minha turma era muito maior do que conseguíamos compreender naquela época. 

Dolly Parton transformou o exagero em elegância, o kitsch em linguagem, a pobreza em narrativa, a fragilidade em canção e a própria vida numa obra. E agora que ela parte, uma de suas canções mais famosas adquire inevitavelmente outro significado. Desta vez somos nós que ficamos.

Dolly, we will always love you.

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