A única foto de infância que eu tenho foi tirada aos 5 anos, usando um par de óculos de plástico com lentes coloridas. Tudo por causa daquele que, já naquela época, havia se tornado meu ídolo: Elton John. Suas músicas chegaram aos meus ouvidos como tantas outras canções no Brasil da década de 1970, através das trilhas internacionais das novelas com Skyline Pigeon e Goodbye Yellow Brick Road entre as minhas preferidas.
Com a proximidade de mais uma edição do Rock in Rio, é impossível não pensar nesse artista que não apenas atravessou a história da música, mas foi fundamental para mudar a maneira como o mundo se comporta, se veste, ama e, principalmente, aceita as diferenças.
Nascido numa Inglaterra conservadora, ele encontrou no piano um território de liberdade muito cedo. Elton compreendeu como poucos que uma grande melodia podia ser sofisticada sem deixar de ser popular. Misturou rock, gospel, soul, blues, country, música clássica e a tradição dos grandes compositores pop britânicos e americanos numa obra imediatamente reconhecível.
Mas Elton John não revolucionou apenas os nossos ouvidos. Muito antes de a palavra “look” fazer parte do vocabulário cotidiano da música pop, Elton entendeu que subir ao palco era também construir uma imagem. Vieram os óculos gigantescos, as plataformas, as lantejoulas, as plumas, os macacões, os chapéus, as fantasias, as cores impossíveis. Havia humor, provocação e uma deliciosa falta de pudor em ser extravagante.
Hoje, parece natural vermos artistas brincando com gênero, maquiagem, roupas e personagens. Mas é preciso lembrar o que significava fazer isso nas décadas de 1970 e 1980. Elton ajudou a abrir uma fresta enorme numa cultura que ainda exigia dos homens, especialmente dos astros do rock, uma masculinidade estreita e previsível. Ele mostrou que um homem poderia sentar-se diante de um piano usando plumas, paetês e óculos cobertos de brilhantes e continuar sendo um dos maiores rockstars do planeta. Isso também era política.
Sua própria vida afetiva foi vivida diante de um mundo que ainda aprendia, muitas vezes de maneira cruel, a lidar com a diversidade sexual. Elton atravessou contradições, medos, dependências, excessos e períodos profundamente difíceis até assumir publicamente sua homossexualidade e transformar a própria experiência numa poderosa ferramenta de visibilidade.
E então veio a AIDS.
Para quem não viveu aqueles anos talvez seja difícil dimensionar o tamanho do terror e, sobretudo, do preconceito. A epidemia de HIV foi acompanhada por uma epidemia igualmente devastadora de desinformação, abandono e estigma. Homens gays eram tratados como culpados pela própria doença. Pessoas morriam enquanto boa parte da sociedade preferia julgá-las.

Elton John decidiu colocar seu nome, sua fortuna e sua influência nessa batalha. A criação da Elton John AIDS Foundation, em 1992, transformou sua militância numa ação permanente. Ao longo das décadas, a fundação financiou programas de prevenção, tratamento, educação e combate ao preconceito em diferentes partes do mundo. Mais do que levantar dinheiro, Elton usou uma das coisas mais valiosas que uma celebridade possui: visibilidade.
Falou quando muita gente preferia o silêncio.
Abraçou quando muita gente tinha medo de tocar.
E ajudou a devolver humanidade a pessoas que durante anos foram reduzidas a estatísticas ou tratadas como ameaça.
Sua amizade com Freddie Mercury, sua proximidade com tantas figuras que viveram aqueles anos devastadores e o impacto da epidemia sobre sua geração também atravessaram sua trajetória pessoal. Em vez de esquecer aquele período quando a medicina começou a avançar, Elton permaneceu ligado à causa.
Talvez seja justamente isso que torna sua história tão extraordinária.
Elton John poderia simplesmente ter sido um dos artistas mais bem-sucedidos de todos os tempos, e isso já seria suficiente. Poderia ter vivido protegido por seus milhões de discos vendidos, seus Grammys, Oscars, Brit Awards, palácios, turnês gigantescas e canções que passaram de geração para geração.
Mas escolheu transformar parte de seu privilégio em ação.
Também se tornou uma referência para gerações LGBTQIAPN+ que vieram depois dele. Não porque sua trajetória tenha sido perfeita, nenhuma é, mas justamente porque ela foi pública, contraditória e humana. Houve excessos, dependência química, relações conturbadas, quedas espetaculares e recomeços.
E houve sobrevivência. A canção I’m Still Standing virou quase uma definição de Elton John. Ele continuou de pé depois das drogas, depois do alcoolismo, depois dos preconceitos, depois das transformações brutais da indústria fonográfica, depois do vinil, do CD, da MTV, do download, do streaming, do TikTok. Viu nascer e desaparecer movimentos musicais inteiros e continuou sendo ouvido.
Mais bonito ainda é perceber sua curiosidade pelas novas gerações. Elton nunca escolheu virar estátua. Sempre procurou artistas jovens, ouviu novas músicas, fez parcerias improváveis e emprestou sua chancela a quem estava começando. Em vez de reclamar que “a música de hoje não presta”, permanece curioso.
Talvez seja essa uma das maiores lições de sua trajetória: envelhecer não significa deixar de participar do presente. Existem artistas que fazem sucesso. Existem artistas que fazem história. E existem alguns raríssimos casos que ajudam a mudar a sociedade enquanto fazem música. Elton John é um deles.














