A nova Bossa Nova

A nova Bossa Nova

De Ipanema para o mundo, a Bossa Nova ganha novos intérpretes e conquista uma geração que não a viu nascer

Quando Anitta lançou The Girl from Rio, em 2022, houve quem torcesse o nariz. Principalmente os palpiteiros de ocasião, que acharam que ela havia se arriscado no mercado internacional com um gênero que diziam ser “ultrapassado”. Uma tolice sem tamanho. A Bossa Nova é o principal produto de exportação da música brasileira — só o thrash metal autóctone do Sepultura lhe faz frente — e de tempos em tempos passa por uma revisão à altura de seu valor.       Os anos de 2026 e 2027, por exemplo, são — e serão — testemunhas de diversos homenagens ao gênero musical, surgido no final da década de 1950. 

No início de janeiro, Luísa Sonza lançou Bossa Sempre Nova, trabalho no qual se fez acompanhar por Roberto Menescal e Toquinho e cujo repertório é composto por standards e por uma parceria de Luísa com Roberto Menescal, chamada Um Pouco de Mim. “É uma cantora talentosa e seu talento é legítimo. Tanto que convenceu os jornalistas presentes no Blue Note, em São Paulo, onde apresentamos o projeto,” disse o bossa-novista numa entrevista recente. O projeto será inserido no show da cantora no Rock in Rio, em 7 de setembro, quando ela receberá Roberto Menescal para um dueto ao vivo. 

Já Loulu Gilberto, filha de João Gilberto, um dos pais do gênero, e da jornalista Claudia Faissol, lançou seu trabalho de estreia em maio, no qual intercala clássicos da Bossa Nova e do samba-canção, gênero que era o campeão em popularidade antes do estouro de Chega de Saudade. “São os gêneros que eu gosto de escutar, é o estilo de música que toca no meu fone de ouvido,” comenta a cantora, que inclui ainda uma homenagem ao pai composta por Cézar Mendes, produtor do disco (ao lado de Mario Adnet), e Arnaldo Antunes.

Foto: Bob Wolfenson

Os novos tempos da bossa nova incluem ainda um concerto tributo, que já passou por Rio de Janeiro e São Paulo e agora segue para outras praças como Belo Horizonte e Salvador. A Orquestra Sinfônica Villa-Lobos, regida por Adriano Machado, traz convidados de peso como Roberto Menescal, Alaíde Costa, Danilo Caymmi e Loulu Gilberto. A curta temporada introduz o projeto Bossa Nova Hoje e Sempre, que reúne um talk show comandado pelo especialista Ruy Castro, um portal com textos sobre o gênero, uma discografia selecionada e uma exposição com fotos históricas.

“A Bossa Nova é um estado de espírito, um jeito de agir, acolher e aproximar. É muito sutil e delicada, mas ao mesmo tempo muito potente,” diz Luiz Calainho, sócio diretor do Musickeria, empresa que está gerindo o projeto. “O mundo precisa da bossa nova,” completa.

Foto: Bob Wolfenson

Criada na zona sul do Rio (mais especificamente no apartamento de Nara Leão, que recebia convidados como Roberto Menescal e Carlos Lyra, além de visitas ocasionais de João Gilberto e Tom Jobim), a Bossa Nova foi uma nova maneira de se fazer e cantar samba. O cool jazz, estilo que amansou o andamento frenético do gênero americano, influenciou as harmonias dos bossanovistas, que também contaram com os avanços técnicos dos estúdios, em especial os microfones. O novo gênero foi ainda o reflexo de um momento de pujança econômica, representado pelo povoamento do bairro de Copacabana.

A Bossa Nova se tornou produto de exportação a partir de 21 de novembro de 1962, quando um concerto no Carnegie Hall, em Nova York, juntou nomes como Tom Jobim, Sérgio Mendes, Luiz Bonfá, Roberto Menescal, Carlos Lyra e muitos outros. A partir desse evento, o gênero passou a ser procurado por todo e qualquer artista disposto a modernizar seu som. O saxofonista Stan Getz se uniu a João Gilberto, Frank Sinatra gravou ao lado de Tom Jobim. Sérgio Mendes, por seu turno, mudou-se para os Estados Unidos em definitivo e foi um dos maiores exportadores da batida da bossa nova para o mundo.

       A Bossa Nova nunca saiu de moda, apenas adaptou-se aos novos tempos. E de tempos em tempos, sempre há um nome da nova geração a redescobrir o estilo brasileiro. Seja jazzistas como o guitarrista e vocalista John Pizzarelli ou a pianista e cantora Diana Krall. Mais recentemente, as cantoras pop Billie Eilish e Olivia Dean se renderam à bossa nova, criando músicas nesse estilo.

Foto: Fernanda Assis

Um dos projetos de Téo Bial, cantor, compositor e violonista, para 2027, é um disco ao lado de Roberto Menescal. “Só parcerias novas e nossas, dez canções inspiradas pela bossa nova,” adianta. E quem que foi que disse que o gênero é ultrapassado mesmo?

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