À meia-luz, o ambiente tem cheiro de pipoca com manteiga e um ruído que mistura embalagens sendo abertas, passos entre fileiras, comentários sussurrados. Até que escurece de vez. Silêncio. Pelas próximas horas, dezenas de desconhecidos vão rir, chorar, se assustar e prender a respiração juntos diante da mesma tela gigante. Em 2026, ir ao cinema voltou a ser programa.
Os números ajudam a dimensionar o fenômeno. Em apenas 19 dias, Homem Aranha: Um Novo Dia, ultrapassou US$ 2 bilhões em bilheteria mundial e tornou-se o segundo filme mais rápido da história a alcançar a marca. A Odisseia, de Christopher Nolan, chegou a quase US$ 1,3 bilhão em pouco mais de um mês. No Brasil, na virada de julho para agosto, mais de 1,4 milhão de espectadores passaram pelo Cinemark em quatro dias, período de maior faturamento de bilheteria da história da rede.
Depois de anos ouvindo que o streaming tornaria a sala escura obsoleta, o público parece ter redescoberto o prazer de sair de casa para assistir a uma história. Estreias voltaram a virar acontecimentos, e dividi-las com desconhecidos ganhou outro valor.
Uma das pistas dessa volta às cabines vem da geração que parecia menos destinada a isso. O designer de experiências Felipe Macedo Lemos, CEO da Alternativa F Eventos, investigou os hábitos da Geração Z diante de tantas opções de entretenimento em um estudo orientado por Mirella de Menezes Migliari. A hipótese era que os jovens estivessem se afastando das sessões. Não foi o que achou. No levantamento, 43% dos entrevistados disseram ir ao cinema cerca de uma vez por mês.
“Não encontramos uma geração que abandonou as salas em favor das novas telas. Encontramos uma geração que incorporou todas essas possibilidades ao mesmo tempo,” diz Felipe. “Talvez o jovem não precise mais do cinema para ver um filme. Mas ele continua querendo ir ao cinema para viver alguma coisa a partir daquele filme.”
Parte dessa experiência começa antes da sessão. Trailers, memes, figurinos e discussões nas redes criam expectativa e a sensação de participar de algo enquanto acontece. O celular deixou de ser um concorrente. TikTok, Instagram e outras plataformas ajudam a formar comunidades em torno das produções. Esperar a novidade chegar ao sofá de casa continua sendo possível. Mas a sensação de participar daquele momento tem prazo.
“O streaming é excelente em transformar conteúdo em disponibilidade. O cinema pode ser excelente em transformar conteúdo em acontecimento,” resume o designer.
Telas maiores, projeções em película e sistemas de som sofisticados reforçaram a lista de motivos para sair de casa. No estudo de Felipe, cerca de 75% dos entrevistados disseram estar dispostos a pagar mais por experiências cinematográficas mais completas e imersivas. Quando apresentados a formatos premium, como IMAX, 3D e 4DX, o percentual passou de 80%.
Christopher Nolan fez dessa diferença parte de A Odisseia. Rodado inteiramente com câmeras IMAX, o longa transformou a escala em espetáculo. A escolha deixou de ser apenas assistir à história de Odisseu e passou a ser onde assisti-la.
Para Lisandro Nogueira, ex-diretor da Cinemateca Brasileira e professor da Universidade Federal de Goiás, a diferença não está só na tecnologia. “Em casa você tem o celular na mão, a luz ligada, as pessoas conversando, ali é um momento único,” diz.
Acostumado a organizar mostras que reúnem até 10 mil espectadores em duas semanas, ele percebe um desejo renovado pelo encontro presencial. “As pessoas estão ávidas pelo encontro,” disse.
Lisandro evita, porém, transformar os sinais de 2026 em tendência definitiva. Considera cedo para saber se o fenômeno vai se consolidar. “Não sei se vamos ter aquele público massivo que tínhamos antes. Tem que esperar.”
Para quem tem hoje 20 ou 30 e poucos anos, os anos 2000 já são memória afetiva. O Diabo Veste Prada 2 é um dos exemplos mais evidentes de 2026. Vinte anos depois, Miranda Priestly e companhia voltaram à tela grande cercadas por uma expectativa construída pela lembrança e pelas redes.
A nostalgia, porém, não é o único caminho. Produções originais também transformaram estreias em grandes eventos.

Os números do Cinemark reforçam o peso dos mais jovens nesse cenário. Segundo a rede, pessoas de até 25 anos ocupam cerca de 70% dos assentos vendidos, e quase 80% delas mantiveram ou aumentaram a frequência.
A procura por formatos especiais também cresceu. A empresa registrou aumento na busca por Prime, XD e D-BOX e afirma que The Odyssey ainda registra sessões lotadas.
Para Felipe, os números apontam menos para uma volta ao passado do que para uma mudança naquilo que leva alguém a sair de casa. “Não vejo uma geração abandonando a sala escura. Vejo uma geração dizendo: ‘eu continuo querendo estar aqui, mas me dê uma boa razão para vir’.”
Essa redescoberta acontece num momento em que o setor resiste às previsões sobre seu desaparecimento. O Brasil encerrou o ano passado com o maior parque exibidor de sua história, segundo a Ancine. Para Lisandro, a história de outros canais de comunicação ajuda a relativizar a ideia de substituição. “Cada meio que surge vai ocupar um lugar, um nicho, um segmento. Com as salas de exibição é a mesma coisa.”
Fato é que hoje quase tudo pode ser visto de casa. Mas a expectativa de uma grande estreia, o encontro diante da tela e as reações compartilhadas no escuro não se reproduzem na cama ou no sofá. Assistir a um filme e ir ao cinema, afinal, nunca foram exatamente a mesma coisa.















