Fora do País, são poucos os que conhecem a nossa moda - mesmo que o Brasil tenha a quinta maior indústria têxtil do planeta. Somos também o principal exportador de algodão. Reparar a falta de valorização do patrimônio cultural da moda brasileira, tem sido a missão do Conselho Brasileiro de Moda desde sua criação, em junho deste ano.
Para isso, a sua presidente, Olivia Merquior, que é também diretora criativa e fundadora do Brazil Immersive Fashion Week, busca articular nomes de peso da indústria para que o Ministério da Cultura reconheça o Conselho como política de Estado. A falta de diálogo com esta pasta cria um problema estrutural. Se a moda só é indústria, e não cultura, ela é perecível.
“Assim, ela nunca será patrimônio, lembrança e história, pois não merece ser preservada. Dificilmente teremos uma moda valorizada como patrimônio nacional, com uma visão internacional de criatividade e negócios, se a gente não contar o que fazemos aqui,” diz a presidente do Conselho em entrevista ao Page9.
Da perspectiva governamental, a área já possui ampla representação e endosso do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços graças à interlocução com a Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (Apex) e com a Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit), entre outros fatores. Com o Conselho, a ideia é preencher a lacuna na pasta da Cultura.
A correlação com o Ministério é uma prática antiga de países que conseguiram elevar seus sistemas de moda ao reconhecimento internacional – e, inclusive, os elencaram como soft power e lucraram com isso, como é o caso da França.
Apesar de o algoritmo entregar que o Brazil Core é a grande pauta das redes e do mercado global, a presidente do Conselho explica que quase nenhum gringo entende a moda brasileira para além das Havaianas. “Além disso, nós somos conhecidos por commodities e pela gambiarra, não pela qualidade do produto – que nós temos e queremos mostrar,” diz Olivia Merquior.
O Conselho nasce com o propósito de fazer a interlocução entre diferentes áreas do mercado?
Na verdade, ele surge para construir uma estrutura parecida com a de países que organizaram os seus sistemas de moda para além do fazer roupa. Isso não quer dizer que existe uma lógica perfeita. O Brasil tem os seus próprios problemas. Porém, compreendemos que outros sistemas conseguiram trabalhar de maneira articulada, desde a educação até a indústria passando pelo patrimônio. Esta última é a função principal do Conselho.
Qual é a dor específica a ser sanada?
O que sempre me angustiou foi a falta de incentivo para catapultar e sustentar talentos a longo prazo. No Brasil sempre existiu um alvoroço, uma ansiedade em ter um novo talento. É o desejo de colocar nas páginas das revistas e de tornar hype. Só que, depois de um tempo, a pessoa some. É aí que entra a falta de política de Estado.
A ficha caiu para mim quando me aproximei do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, através da Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (Apex). Com este movimento, e considerando o estudo que fiz sobre sistemas de moda no mundo, entendi por qual motivo o País rateia tanto. A moda não é cultura aqui, ela não tem interlocução com o Ministério da Cultura (MinC).
E a Lei Rouanet?
Existe a possibilidade de você ser contemplado caso faça artesanato ou um festival. Na verdade, é necessário maquiar a prática (de moda) para entrar no Ministério da Cultura. Essa falta de diálogo cria um problema estrutural. Se moda só é indústria, ela é perecível. Assim, ela nunca será patrimônio, lembrança e história, pois não merece ser preservada. Dificilmente teremos uma moda valorizada como patrimônio nacional, com uma visão internacional de criatividade e negócios, se a gente não contar o que fazemos aqui.
Fizemos muito bem isso com o futebol. Somos o país do esporte e isso não aconteceu naturalmente, foi uma construção de Getúlio Vargas na década de 1950. Claro, não coloco tudo na conta dele, já havia uma infinidade de talentos no País e uma grande aderência a este esporte. Porém, se Getúlio não tivesse começado a construir estádios, fazer discursos dentro desses espaços e investir nos clubes, a gente não teria se tornado o “país do futebol.”
Como será a interlocução com o Ministério da Cultura?
O Conselho hoje tem cinco passos. Precisamos agora de 300 assinaturas de pessoas com grande expressão, como empresários e ex-ministros, que mostrem para o Governo que a existência do Conselho deve ser endossada como política de Estado. Um dos signatários é Ana de Hollanda, ex-ministra desta pasta e criadora da Secretaria da Economia Criativa do MinC. Assim, a ideia é discutir as necessidades do setor com o Ministério da Cultura, junto com a Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit) e a Apex que já estão no Ministério do Desenvolvimento.
Qual é o passo seguinte?
Um site, que será lançado em janeiro, para organizar o que definimos como moda. Ainda é muito difícil mostrar, e as pessoas visualizarem, o que é este sistema para além do fazer roupa. Principalmente uma moda de excelência. Para isso, nós temos uma linha de corte: Não é qualquer pessoa que faz roupa que será incluída. Quando falamos de cultura, é preciso ter mais valores. Entendemos a moda como construção de capital simbólico feita por imagem, texto e artesanias.
Além disso, nunca tivemos uma representação coletiva do setor. Quem responde pelos maquiadores, stylists, comunicadores e estilistas no País? Então, começamos a construir neste site um diretório dos criadores de excelência da moda nacional. A primeira pergunta que todo mundo faz é: Quem vai definir o crivo de excelência? Serão os nossos comitês de imprensa, de difusão e de patrimônio.
Com o reconhecimento do Ministério e a conclusão do diretório, qual será a próxima medida?
Já temos um diálogo com a Fédération de la Haute Couture et de la Mode. A organização francesa nos disse que, se passarmos por esses estágios, nos apoiará a fazer o grande lançamento do que é a moda brasileira na Semana de Moda de Paris. A ideia é estruturar uma “casa do Brasil” dentro do calendário oficial, entre outras ações. Assim, teremos uma política de Estado organizada se apresentando para outro Estado.
Convidaremos diversos articuladores internacionais para finalmente entenderem o que fazemos. A gente acha que eles têm total ideia, por conta desse Brazil Core, mas eles não conhecem nada de moda brasileira para além das Havaianas. Contudo, para isso acontecer, precisamos chegar em dezembro deste ano com as 300 grandes assinaturas. Já estamos quase lá.
Quantas vocês têm no momento?
130! Me lembro que (a jornalista) Maria Prata me disse, na primeira reunião, que conseguiríamos facilmente todas. Só que não – e acho bom que seja assim. É importante que façamos as sabatinas. Já passamos por quase todos os grandes veículos jornalísticos, empresas e varejistas. Esta é uma articulação complexa. Em alguns locais, precisamos nos apresentar para três boards diretores para explicar o que fazemos. Além disso, conversamos com instituições como a Pinacoteca, que já é uma signatária, e o MASP, porque estamos falando sobre patrimônio cultural. Não é fácil conseguir as assinaturas, mas até agora não perdemos nenhuma sabatina.
Como o aporte governamental pode impactar o setor?
Há dois meses eu estava com Kaat Debo, diretora do Museu de Moda da Antuérpia, para tentar fazer uma interlocução entre esse nosso complexo Brazil Core com a exposição que eles abriram Os Seis da Antuérpia (em referência ao movimento dos anos 1980 formado pelos 6 estilistas belgas Ann Demeulemeester, Walter Van Beirendonck, Marina Yee, Dirk Bikkembergs, Dries Van Noten e Dirk Van Saene). O objetivo era entender se a gente poderia viver uma espécie de renascença parecida com o que ocorreu por lá.
Kaat Debo me disse como o estado federal belga colocou um volume obsceno de dinheiro, na década de 1980, para tentar reativar a indústria têxtil que passava por uma crise. Não conseguiram, mas a ação resvalou no talento de pessoas que foram incentivadas e se tornaram ícones da moda não só nacionais, mas no ecossistema global. Ela disse que não existiria Dries Van Noten ou Martin Margiela, como os conhecemos mundialmente, se não tivesse tido o investimento do Governo.
Ao mesmo tempo em que há falta de visão internacional sobre o mercado daqui, temos o Brazil Core. Você o percebe como uma validação ou reconhecimento?
Eu vou te devolver a pergunta com outra. Reconhecido por quem? Porque o que eu vejo é muito burburinho por um suposto reconhecimento e fico, no fim das contas, querendo entender a fonte.
Para além do alvoroço do Brazil Core nas redes sociais.
Exato! Porque este é o trabalho do algoritmo, te entregar geolocalizadamente o que você quer ouvir. Eu viajo o tempo inteiro: agora vou para uma semana de moda na Coreia, depois para a de Moscou, e não tem Brazil Core nesses lugares. Pode até ter um evento das Havaianas, mas do lado tem outros maiores de varejistas indianas, inglesas e americanas. Então, qual é a fonte para falar que o Brazil Core realmente fez com que o capital simbólico do País tenha trocado de escopo?
Quando eu trouxe a (estilista e podcaster inglesa) Bella Freud para o Brasil, em maio do ano passado, nós estávamos jantando em São Paulo e me lembro que o cinema nacional, principalmente por conta do Oscar, era um grande assunto. Nós, brasileiros, tínhamos certeza que o mundo inteiro sabia o que era o cinema brasileiro. Bella, amiga de diversas estrelas de Hollywood e que inclusive tem o costume de ir ao Oscar, me perguntou quem era Fernanda Torres. Então, assim: quando falamos de bolha, raramente achamos que nós próprios estamos em uma.
Destacaria alguma característica positiva do mercado nacional?
Temos um carinho muito grande do mundo. As pessoas acham, desde a carta de Américo Vespúcio, que nós (no caso, os indígenas) somos gente boa. Essa ideia de que aqui a natureza é exuberante e as pessoas são sensuais e bonitas se manteve. Há uma empatia sobre o Brasil, um pensamento idílico de que aqui existe possibilidade de liberdade. Até por isso a tagline do Conselho é “Liberdade Criativa do Brasil para o Mundo.”
Quando você vai para outros países se depara com formas de controle bem-estabelecidas por instituições. Aqui a coisa é mais escassa, até pela falta de organização. Só que a ausência de estrutura cria, também, uma possibilidade de liberdade. Tem que saber lidar com ela, porque junto vem o caos. A rua está suja, a cidade é violenta mas, mesmo assim, as pessoas estão felizes. Isto é algo muito nosso e que encanta o mundo.
Esta seria a cara mais conhecida da moda nacional?
A moda brasileira não precisa ser só a da Farm, ter estampa e bananas. Ela pode ser diferente, com mais elementos. Como exemplo destaco a relação asiática da Pace, de Felipe Matayoshi, que só por ser brasileira tem um certo espírito de liberdade para o mercado internacional. Este é o ponto principal.
O problema é que, historicamente, todo mundo quer namorar um brasileiro ou vir passar férias aqui. Porém, já passou a hora de apertar a mão do mundo para fazer o pedido de casamento, porque ele não vai chegar sem articulação. O mundo quer viver a gambiarra como uma experiência exótica, mas ninguém quer casar com quem trabalha com ela. Nós somos conhecidos por commodities e pela gambiarra, não pela qualidade do produto – que nós temos e queremos mostrar.














