O diretor de teatro Antunes Filho (1929-2019), um dos mais exigentes do País, definia a atriz Laura Cardoso do jeito mais simples possível. “Laurinha é uma das nossas melhores intérpretes porque transformou experiência de vida em técnica,” disse o encenador em 2014, em entrevista a este repórter, sobre a artista que ele lançou nos palcos na peça Plantão 21, em 1959. “Ela nasceu pobre, ganhou algum dinheiro, amou, sofreu, foi feliz e triste, defendeu o que era dela, não é como esses jovens que têm uma vivência abstrata.”
A paulistana Laura Cardoso morreu na noite desta segunda (17), aos 98 anos, depois de uma mal-estar, em seu apartamento, no bairro paulistano de Perdizes. Ela nasceu Laurinda de Jesus Cardoso na Rua da Abolição, no Bixiga, em 13 de setembro de 1927, descendente de portugueses em meio à maioria italiana. Acrescentou ao nome de batismo o sobrenome Baleroni ao se casar em 1949 com o ator e roteirista Fernando Baleroni (1922-1980), pai de suas duas filhas, Fátima e Fernanda, e o amor não impediu que Laura fosse, como outras contemporâneas, pioneira em tantos territórios.
“Faço parte de uma geração de mulheres da pesada, que derrubou barreiras, mas sempre valorizei meu casamento e minha família,” declarou ela, em 2019.
A artista deixa a cena depois de oito décadas de carreira com um currículo formado por, pelo menos, cinquenta novelas, trinta filmes e quinze espetáculos de teatro, além de um histórico raro mesmo para a sua geração. Laura foi uma das poucas profissionais que acompanhou com igual destaque e produtividade a evolução dos meios de comunicação no Brasil — e, neste ponto, só pode ser comparada à Fernanda Montenegro.

Laura começou a carreira em 1942, aos 15 anos, como locutora e atriz na Rádio Cosmos, fez circo e peças infantis e, na década de 1950, saltou para a recém-inaugurada TV Tupi. Nos estúdios da emissora fundada pelo jornalista Assis Chateaubriand (1892-1968), participou do programa Tribunal do Coração, dos teleteatros TV de Vanguarda e Grande Teatro Tupi e, enfim, da primeira novela, Os Miseráveis, em 1958, o gênero que se tornou popular no País inteiro.
Experiente no rádio e na televisão, Laura só estreou no teatro aos 32 anos, em 1959, pelas mãos de Antunes Filho, que a conheceu nos bastidores da Tupi. A peça Plantão 21, do dramaturgo Sidney Kingsley (1906-1995), era ambientada em uma delegacia de polícia, uma experiência realista com trinta atores em cena.

A versatilidade conquistada no rádio e na televisão, que era ao vivo na época, garantiu à artista uma desenvoltura para que transitasse por diferentes gêneros no teatro. Brilhou ao mergulhar na linguagem circense de Vem Buscar-me que Ainda Sou Teu, peça dirigida por Gabriel Villela em 1990, reencontrou Antunes no drama Vereda da Salvação (1993), como a mãe de um líder messiânico, vivido por Luís Melo, e deitou e rolou na comédia Todo Mundo Sabe que Todo Mundo Sabe (1997), de Miguel Falabella, como a tia que entrega todos os segredos da família.
Comandada por Falabella, um dos seus diretores preferidos, protagonizou ainda Veneza (2003), comédia poética do argentino Jorge Accame, na pele da cafetina cega que sonhava em reencontrar o amor da juventude na Itália.

Mesmo que tenha feito cinema desde a década de 1960, os personagens marcantes só vieram na maturidade, como nos filmes Terra Estrangeira (1995), de Walter Salles e Daniela Thomas, Através da Janela (2000), de Tata Amaral, e Copacabana (2001), de Carla Camurati. Provavelmente foi uma consequência da intensa atividade na televisão, principalmente, depois de 1981, quando, com a morte do marido e as filhas crescidas, Laura aceitou pela primeira vez um convite da Globo para trabalhar fora de São Paulo.
Na emissora carioca, a atriz foi lançada na novela Brilhante, escrita por Gilberto Braga, e enfileirou personagens diversos, confirmando o ecletismo. Alcançou o auge no vídeo na década de 1990 em uma sucessão de desempenhos marcantes. Foi a mãe ambígua das gêmeas Ruth e Raquel (vividas por Glória Pires) em Mulheres de Areia (1993), a médium Guiomar de A Viagem (1994), a matriarca cigana de Explode Coração (1995) e a mau-caráter e divertida Tia Ruth de Salsa e Merengue (1996).

Apaixonada pelo trabalho, Laura não recusava mesmo aqueles papéis que se limitavam a dois ou três capítulos de uma novela ou aparições em programas humorísticos, como Sai de Baixo, A Grande Família e Os Normais. Entre 2016 e 2019, os seus derradeiros anos de atividade, emplacou duas novelas em sequência, Sol Nascente e O Outro Lado do Paraíso, além de uma participação especial em A Dona do Pedaço, seu último papel na teledramaturgia.
Laura acreditava que, mesmo sem ser a protagonista, poderia se destacar e, às vezes, ser a melhor — o que conseguia muitas vezes. A atriz foi uma profissional de um tempo em que se aprendia o ofício às custas de muito trabalho e se demorava a ganhar algum dinheiro — o que obrigava o artista a desenvolver uma vocação em nome do sustento.

Além do inegável talento, Laura teve a inteligência de perceber que possuía a favor um diferencial que poderia abalar muitas de suas colegas. Era uma atriz com um rosto comum, nem bonita e nem feia, capaz de interpretar mulheres sofridas e humildes, ricas e sofisticadas, dramáticas ou cômicas, boazinhas ou perversas.
Nesta sabedoria, Laura não largou a sua base, a família, e, mesmo na rotina de gravações no Rio de Janeiro, que enfrentou por mais de quatro décadas, jamais se fixou na cidade. Ela vivia desde 1979 em um apartamento em Perdizes e não dispensava a independência.
Com o tempo, as duas filhas, Fátima e Fernanda, passaram a morar no mesmo prédio em andares diferentes e, até 2015 ou 2016, Laura apenas aceitava a carona de uma delas para ir ao aeroporto e pegava sozinha a ponte aérea para trabalhar no Rio.
“Sei que meu público se espanta ao perceber que dou conta de tantas atividades,” disse, na mesma entrevista de 2019, a este repórter. “É sinal de que continuo pioneira e posso ser exemplo para pessoas da minha idade,” completou.
Laura Cardoso foi pioneira até o fim porque, como definiu tão bem Antunes Filho, a arte dramática para ela nunca foi pesada. Como atriz, sabia que bastava representar com simplicidade muito daquilo que tinha vivido e o público compraria as lágrimas ou os risos de suas personagens.














