Assim como Caetano, protagonista do romance Amanhã Eu Morri Sozinho (compre aqui), o seu criador Lucas Barros cresceu em Garanhuns, Pernambuco. Da mesma forma que o personagem teve uma infância riscada pelo bullying, Lucas também teve. Os paralelos se dão ainda pelo medo ansiogênico da morte e por contornos da sexualidade. Já as diferenças transpassam as linhas de qualquer página.
A autorreferência e a incursão na ficção estruturam o livro de estreia de Lucas que, com 24 anos, já era uma referência como influenciador digital literário. Quando começou a escrever a obra, não contou para ninguém. Afinal, tinha feito carreira falando dos livros alheios e, na nova posição, quis se blindar ao máximo das expectativas online.
Amanhã Eu Morri Sozinho nasceu de reflexões sobre o fim da vida. O personagem Caetano entende que a família é diferente das outras pois a falta de um pai, que caiu no mundo para nunca mais voltar, criou uma ausência que o acompanha incessantemente. Este vazio é preenchido somente pela oquidão da morte: o protagonista fica obcecado por assuntos de falta – seja de um pai ou da vida.

É aí que ele cria uma teoria. Se a morte chega inesperada e gosta de surpreender, então, quem não a tira do pensamento não pode ser pego. “Sempre tive dificuldade de entender a morte pois é algo que acontece com todo mundo e que ninguém sabe explicar,” diz Lucas Barros em entrevista ao Page9.
A mistura de realidade e fantasia dá forma à uma vivência distinta nas páginas do livro, com capacidade de se conectar a tantas histórias jovens e queer. Porém, não é preciso ter 24 anos e ser LGBTQIAPN+ para se sensibilizar com a trama. Quem nunca se sentiu sozinho, ou ao menos um frio na barriga, ao pensar em algum vazio?
Por vezes, na literatura, é feita uma escolha entre escrever sobre mundos distantes ou absorver os cenários nos quais se está inserido. No livro, você sugou Garanhuns e Recife. Como foi feita essa escolha?
Foi inevitável e sinto que isso vai se repetir. Mesmo que eu nem sempre mencione esses lugares, em todos os próximos livros eles talvez sejam o território subjetivo. Apesar de achar interessante o exercício de criar do zero, acredito que, inconscientemente, o território que nos criou se sobreponha. É onde estão as primeiras descobertas e traumas. Poderia ter escrito sobre São Paulo, mas não conheço as suas nuances. Um som, ou sotaque, deixa o texto mais tátil.
E por mais que o ambiente seja familiar, há também uma série de elementos ficcionais na obra, correto?
A história não surgiu de uma motivação por algo que vivenciei, mas existem semelhanças entre a vida do Caetano e a minha, principalmente na primeira parte. No geral, é difícil ter esse afastamento para qualquer escritor, ainda mais quando se escreve em primeira pessoa e se tem certas dores comuns. Buscamos nas próprias vivências a matéria-prima para escrever. Eu me via muito nele mas em vários momentos me percebia totalmente distante.
Te irrita a suposição de que o livro seja totalmente uma autoficção?
Eu já esperava, é natural a especulação sobre o que é ficcional e o que é real. Embora as pessoas saibam que nosso trabalho é inventar, e que o livro se trata de uma ficção, elas procuram semelhanças. Uma das perguntas que mais me fizeram foi: “O teu pai é presente?” – sendo que ele estava no lançamento do livro. Ao mesmo tempo, isso me deixa satisfeito. Se as pessoas leram e sentiram tamanha realidade, significa que fiz um bom trabalho.
Como foi a sensação de lançar o seu primeiro livro?
Eu fiz em Recife na semana anterior e estava curioso para saber como seria em São Paulo. Existe uma diferença cultural muito grande. Além disso, em Recife eu tenho muitos amigos e familiares, então, mesmo que ninguém tivesse ido, eles não deixariam faltar gente – porque foram em caravana.
Que diferença cultural é essa?
A gente é muito mais caloroso, afetuoso e aberto em Pernambuco. Eu ia falar no Nordeste, mas vou falar de lá que é de onde eu sou. O livro entra em questões que falam muito sobre o território de Pernambuco e eu tinha receio de não conseguir gerar identificação, mas foi interessante. Acredito que despertou curiosidade pelo desnível cultural e geográfico.
Falemos de um tema universal: a morte. Ela acompanha o protagonista a todo instante e direciona seus fluxos mentais e ações. Por que escolheu refletir sobre o assunto?
Esta é provavelmente a parte mais autobiográfica. A relação com a morte foi o meu incômodo inicial, a primeira coceira que me deu vontade de escrever. Sempre tive dificuldade de entendê-la pois é algo que acontece com todo mundo e que ninguém sabe explicar. A partir de certo momento comecei a pensar nela de maneira muito assídua, era o meu primeiro pensamento ao acordar e o último antes de dormir. Me gerou adoecimento e ansiedade e eu percebi que tinha mais medo dela do que o Caetano tinha. A partir do meu receio, criei a teoria do personagem: se a morte está por perto, ela não acontece. A morte precisa sempre surpreender.
Você se lembra da primeira vez que teve consciência dela?
Não claramente, mas tenho duas lembranças específicas. Uma envolve minha avó materna, que morreu quando eu era muito jovem. Só tenho dela poucas imagens estáticas, nada de movimentos ou voz. Quando ela se foi, fiquei muito triste. Como eu era criança, os seus traços foram desaparecendo, mas a morte continuou presente mesmo depois.
A outra lembrança é de quando eu era um pouco mais velho. Minha tia tinha o costume de matar galinha e eu queria entender como aquele animal que estava no quintal era o mesmo que eu comia. Um dia, eu a vi degolá-la na minha frente. Quatro horas depois, estava na panela e eu simplesmente não entendia como era possível.
Por meio da combinação de ficção e autorreferência, o livro dá um testemunho de uma vivência geracional e queer que pode se relacionar com as de muitas pessoas. Qual é a importância dessa espécie de testemunho?
Acho incrível, cresci sem acesso a esse tipo de mídia e percebo que fez falta na minha formação. Fico feliz por poder contribuir de alguma maneira. Chegou a hora de investigar mais vivências, já temos muitas referências sobre o processo de se assumir, de se relacionar com alguém que não é assumido e a homofobia. É interessante encontrar caminhos nos quais a sexualidade não seja o grande problema.
Não quis colocar uma cena de Caetano se assumindo para a mãe. Os momentos em que ele sofre agressão por homofobia são mínimos se comparados a outros motivos. Há mais complexidades envolvendo pessoas LGBTQIAPN+ e relacionamentos queer do que a aceitação da sexualidade.
Como foi o início da sua relação com a literatura?
Vi alguns colegas de escola lendo e comecei a pedir livros emprestados. Tinha uma dimensão de refúgio para mim, pois eu sofria muito bullying quando criança. Preferia ficar isolado e os livros me ajudaram a me proteger do mundo exterior. Lembro que o primeiro que comprei foi em uma bienal em Garanhuns. Eu queria muito ter um só meu, pois lia apenas os dos outros. Convenci minha mãe a comprar um e acabei, sem querer, escolhendo o segundo volume de uma trilogia. Não entendi direito, mas li até o fim.
E de que forma você pulou para a escrita?
Antes de começar a ler eu já gostava de criar e desenhar. A escrita começa na cabeça e eu já esboçava. Na escola também havia muito incentivo à prática, com concursos de redação. Eu ficava animado e participava de todos. Com o tempo, o gosto continuou e eu escrevia coisas para mim, mas não estruturava para ser publicado.
Antes de ser reconhecido como escritor, você alcançou notoriedade como influenciador digital. Como é alternar esses papéis?
Deu frio na barriga. Eu construí minha carreira falando dos livros dos outros e, agora, me coloquei no lugar oposto. Quando comecei a escrever, não contei para ninguém. Escrevia em silêncio para não sofrer pressão. Há uma facilidade de identificação e troca com o influenciador, pois ele está diariamente presente, mas sinto que um livro acessa lugares aos quais não se chega com um post. É extremamente mais íntimo.
A notoriedade ajudou ou atrapalhou a divulgação do livro?
Ajudou mas trouxe pressão. É como se já existisse uma energia em torno das possibilidades. Do ponto de vista do marketing, com certeza contribuiu. Como eu não era uma pessoa anônima, o conhecimento do livro chegou mais facilmente às pessoas. Ao mesmo tempo, elas já esperavam algo – para o bem ou para o mal. Evitei pensar nisso, tinha medo de escrever para um leitor específico e me podar.
É importante escrever para você mesmo?
Talvez seja importante escrever sem pensar em quem vai ler, para não deixar de fazer algo porque alguém conhecido, como sua mãe ou seu pai, vai ler. Porém, eu escrevi com o objetivo de que o livro fosse publicado – e que bom que deu certo.
















