Glória Menezes e a arte de se reinventar

Glória Menezes e a arte de se reinventar

Uma das maiores estrelas da teledramaturgia, a atriz renovou a imagem nas novelas sem nunca sucumbir aos rótulos

Na primeira novela diária brasileira, 2-5499 Ocupado, lançada em 1963 pela TV Excelsior, o galã Tarcísio Meira (1935-2021) interpretava um advogado que se apaixona pela voz da telefonista de um presídio sem saber que ela era uma detenta. A voz em questão era a da atriz Glória Menezes e, se Tarcísio já era o marido na vida real, o Brasil começou ali a se encantar por uma atriz e um rosto que se tornariam fundamentais na história da teledramaturgia. 

Glória Menezes morreu aos 91 anos nesta terça-feira (18), de causas naturais, no apartamento em que morava no Rio de Janeiro, por coincidência quando o país ainda chora a perda de Laura Cardoso (1927-2026), outra grande estrela. Estava aposentada desde 2020, e o seu último trabalho foi a novela Totalmente Demais, exibida pela Globo em 2015. Em sete décadas de carreira, Glória participou de mais de 30 novelas, 20 peças de teatro e oito filmes — produções que deixaram o seu talento definitivamente cravado na memória do público.

Em uma boa parte destes projetos, Glória contou com a parceria de Tarcísio Meira, seu companheiro desde 1961 e pai do seu caçula, o também ator Tarcísio Filho, de 62 anos. Glória, entretanto, nunca ficou atrelada ao marido, assim como não se deslumbrou com o estrelato televisivo, construindo uma trajetória diversificada também no teatro.

Glória nasceu Nilcedes Soares de Magalhães em Pelotas, no Rio Grande do Sul, mudou-se para São Paulo na infância e começou os estudos na Escola de Arte Dramática (EAD) na década de 1950. Casada com Arnaldo da Silva Brito, que era seu primo, teve dois filhos, João Paulo e Maria Amélia, e, ao contrário de muitas mulheres da época, não foi sufocada pelo marido. Pelo contrário, Glória sempre afirmou que Brito foi o grande incentivador de seus primeiros espetáculos, como As Feiticeiras de Salém, dirigido por Antunes Filho em 1960, quando conheceu Tarcísio e, em seguida, pediu o desquite. 

Mesmo que seu nome seja mais associado à televisão e ao teatro, a virada profissional de Glória se deu no cinema com o filme O Pagador de Promessas. O longa, dirigido por Anselmo Duarte, venceu a Palma de Ouro no Festival de Cannes em 1962 e popularizou a atriz como Rosa, a mulher do determinado Zé do Burro (papel de Leonardo Villar), que enfrenta a igreja católica para cumprir um juramento feito em um terreiro de candomblé.

Com o rosto divulgado internacionalmente, o talento forjado no palco e a simpatia popular por ser casada com o galã Tarcísio, Glória se tornou um investimento certeiro da indústria da telenovela que se estruturava na década de 1960. Depois de participações bem-sucedidas na TV Excelsior, o casal estreou na Rede Globo em 1967. Se os primeiros trabalhos na emissora, como Sangue e Areia (1967) e Rosa Rebelde (1969), ainda se inspiravam na estética mexicana, o lançamento de Irmãos Coragem, em 1970, consolidaria uma linguagem nacional que tinha Tarcísio e Glória como o casal-símbolo. 

Enquanto ele representava o destemido João Coragem, Glória explorava o seu talento como uma mulher de tripla personalidade, criando três personagens diferentes, a tímida Lara, a audaciosa Diana e a equilibrada Márcia.

Com Tarcísio, Glória foi presença constante no vídeo nos anos de 1970 em novelas como Cavalo de Aço (1973), O Semideus (1974) e Espelho Mágico. O seu grande sucesso naquela década, porém, foi Pai Herói (1979), de Janete Clair. A trama lhe rendeu uma de suas grandes personagens, a batalhadora Ana Preta, e abriu caminho para uma renovação na imagem televisiva que iria além de descolá-la de Tarcísio. 

Na década seguinte, a estrela ganharia projeção com papéis cômicos, como a Jordana de Jogo da Vida (1981) e a Roberta de Guerra dos Sexos (1983), escritas por Silvio de Abreu, além da simplória Rosemere de Brega & Chique (1987), de Cassiano Gabus Mendes, em que contracenava com a atriz Marília Pêra. Em busca de permanente reinvenção, por obra do mesmo Abreu, Glória interpretou uma das vilãs mais emblemáticas, a socialite falida Laurinha Figueroa da novela Rainha da Sucata, em 1990. 

Ao lado de Tarcísio, Glória protagonizou dois grandes sucessos teatrais. Em 1976, eles viveram um casal de amantes na comédia Tudo Bem no Ano que Vem, encenada por Flávio Rangel, e, em 1986, foi a vez de Um Dia Muito Especial, versão do filme do cineasta italiano Ettore Scola dirigida por José Possi Neto. 

No palco, Tarcísio era um radialista homossexual que trava um embate com uma vizinha solitária e conservadora, um contraste na trajetória de Glória em comparação a sua personagem anterior, a prostituta Neusa Sueli da peça Navalha na Carne (1981), de Plínio Marcos.     

Glória Menezes fez pouco cinema, mas é um raro caso de equilíbrio entre a televisão e o teatro. Na maturidade, continuou se dividindo entre os estúdios e os palcos. Finalizou a novela Torre de Babel (1998) e estreou a peça Jornada de um Poema, para a qual raspou a cabeça para interpretar uma professora impactada por um câncer. Chamada novamente pela Globo, gravou uma participação especial na pele de uma cafetina na novela Porto dos Milagres (2000) usando turbante.

Em 2006, Glória acumulou as gravações da novela Páginas da Vida com a temporada de Ricardo III, tragédia de Shakespeare dirigida por Jô Soares e, em 2007, estreou aquele que talvez seja o seu maior êxito nos palcos. Na peça Ensina-me a Viver, comandada por João Falcão, ela brilhou como a octogenária alto-astral envolvida com um adolescente deprimido (papel de Arlindo Lopes). Foram cinco anos em cartaz, período em que a atriz viveu o seu último grande personagem em novelas, a Irene, de A Favorita, escrita por João Emanuel Carneiro em 2009.

Como toda empresa, a Rede Globo em sua fase de consolidação, escolheu a dedo o seu elenco e moldou um perfil para boa parte de seus atores e atrizes que não decepcionam o telespectador. Ao casal Tarcísio Meira e Glória Menezes coube o título óbvio, e Glória, mais que seu marido, percebeu a importância de se desvincular do rótulo. 

As experiências desafiadoras no teatro alertaram os diretores da emissora que ela seria aprovada pelos fãs em qualquer tipo de papel. Graças a um empenho próprio, Glória ficará para sempre no imaginário popular não só como a mulher do Tarcísio, mas, principalmente, como uma das maiores atrizes brasileiras de todos os tempos. 

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