Legado supersônico

Legado supersônico

O concorde completa 50 anos como ícone de luxo, glamour e inovação, com recordes difíceis de serem batidos – ao menos até então

Quem costuma pegar a ponte aérea São Paulo-Rio, por exemplo, pode até achar a viagem de 60 minutos rápida ― e de fato ela é. Mas rápido mesmo era o que o Concorde fazia: o pássaro branco voava de Paris ou Londres rumo a Nova York em pouco mais de três horas, algo inimaginável para os dias de hoje.

Isso tudo há cinco décadas, quando o Concorde foi criado para oferecer luxo, praticidade e o melhor da hospitalidade no primeiro avião de voo comercial a navegar na estratosfera em velocidade supersônica, voando mais rápido que a rotação da Terra e duas vezes a velocidade do som.

Essa maravilha da tecnologia estreou comercialmente em 1976, com 50 mil voos realizados e mais de 2,5 milhões de passageiros transportados. Foram 27 anos de operação, realizados pela Air France e pela British Airways, com um total de cinco rotas que conectavam a Europa à América do Norte e à América do Sul. Até hoje, nenhum outro avião conseguiu atingir o que o Concorde prometeu entregar ― e entregou. Relembre essa odisseia supersônica.

Preparar para a decolagem

O plano deu certo, e o primeiro voo-teste aconteceu em 2 de março de 1969, sete anos depois do início do projeto e quatro meses antes de o homem pisar na Lua. Já o primeiro voo comercial só veio em 21 de janeiro de 1976 ― e não foi um, mas dois voos sincronizados: um da British Airways, de Londres para o Bahrein, e o outro da Air France, de Paris rumo ao Rio de Janeiro com escala em Dakar. Mas as rotas que de fato consagraram o Concorde foram as que conectavam Londres ou Paris a Nova York, operadas pelas duas companhias.

Por fora e por dentro, o Concorde realmente era pura inovação. Apesar de pequeno em espaço interno, todo o avião trabalhava no sistema primeira classe. Podiam voar em média cem pessoas divididas em duas fileiras com duas poltronas cada; o corpo era mais fino que o de outras aeronaves e havia a icônica asa em delta e o nariz articulado, que baixava no pouso e na decolagem para melhor visibilidade. No cockpit, mais de 200 medidores, 200 indicadores e uma centena de botões para garantir a estabilidade e a performance da máquina, que demorava cerca de 30 segundos para decolar com quatro turbinas movidas a 25 mil litros de querosene de aviação queimados por hora de voo.

Altitude de cruzeiro

Ao atingir a estratosfera, tudo era paz, tranquilidade e estabilidade: nos 18 km acima do nível do mar, os passageiros podiam ver a curvatura da terra (apesar da visão um pouco restrita das janelas do tamanho de um passaporte) e não sentiam absolutamente nada, nenhum tremor ou turbulência. Uma passagem no Concorde custava em média 20% a mais que as passagens executivas ou de primeira classe de outras companhias, chegando a US$ 66 mil (nos dias atuais) para ida e volta entre a Europa e os Estados Unidos.

O serviço, junto à velocidade, compensava: era comum ver políticos, empresários, representantes de Estado e artistas, muitas vezes jogando cartas pela frequência dos encontros nos ares. Pense em nomes como Lady Di, Elton John, Paul McCartney e Phil Collins ― o último, inclusive, conseguiu fazer o show do Live Aid de 1985 e um segundo show em Nova York no mesmo dia, graças à velocidade do Concorde.

Antes mesmo do embarque, os passageiros eram recebidos em lounges dedicados, sem fila, sem dor de cabeça. Os casacos eram recolhidos antes de entrar na aeronave e as bagagens despachadas em voos anteriores para evitar o sobrepeso. Entre os nomes brasileiros que já embarcaram em um destes estão Antonia Mayrink Veiga, que voou entre os 12 e 15 anos de Paris ao Rio, e Chiquinho Scarpa, que voou quatro vezes entre Paris e NY. Ele lembra que o voo era “um pouco desconfortável, apertado, mas tranquilo para o tempo da viagem. Lá em cima não tinha diferença, na verdade não dava para sentir quando ele quebrava a barreira do som, por exemplo,” diz.

A bordo, esse seleto grupo acompanhava o medidor de Mach em uma tela, que indicava justamente quando o avião rompia a barreira do som, enquanto eram servidos caviar, lagosta e foie gras, acompanhados de uma taça de Dom Pérignon ou Bollinger. Os menus mudavam semanalmente e eram assinados por grandes chefs, como Alain Ducasse. Na história do Concorde, já embarcaram louças Royal Doulton, favorita da monarquia britânica, projetos de interiores de Raymond Loewy e Pierre Gautier-Delaye, uniformes de Jean Patou e Nina Ricci e menus com croquis de Christian Lacroix.

Afivelem os cintos, vamos pousar

A verdade é que, apesar de tudo isso, o Concorde nunca “decolou” de fato. Em tempos de viagens à Lua e colonização de Marte, a realidade de voar na estratosfera não parece ser tão distante perto destes projetos ambiciosos. Mas investir na aviação civil supersônica não parece interessar às grandes companhias pelo mesmo motivo do que fez o Concorde se aposentar, em 2003: os grandes custos de operação e, consequentemente, das passagens.

Além disso, também há a mudança do mundo em que vivemos. Com a internet e reuniões online, não é tão necessário voar na mesma frequência em que o Concorde voava nos seus tempos áureos dos anos 1980 e 1990. Sem falar nas questões socioambientais e técnicas: para um voo supersônico, seria necessário uma ampla revisão da malha aérea, hoje bastante sobrecarregada, além dos problemas sonoros causados pelo avião e na queima excessiva de combustível, nada amigável para o meio ambiente.

Em julho de 2000, veio a desconfiança gerada com o acidente na França, quando um Concorde caiu logo depois da decolagem sobre um hotel devido a uma peça de titânio deixada na pista por outro avião, que rasgou os pneus do supersônico, rompeu o tanque de combustível e matou 113 pessoas. Se ele volta no futuro? Muitos acreditam que não; outros apostam não na aviação supersônica, mas na hipersônica, quem sabe daqui a 50 anos. O Concorde, um grande notável que marcou a aviação e o mundo, agora é peça de museu, literalmente.

Ao infinito e além

  • Mais de 1 milhão de garrafas de champanhe foram servidas a bordo de Concordes;

  • A passagem de um Concorde chegava a custar o dobro do valor da primeira classe em aviões comuns;

  • Por conta do fuso entre a Europa e os EUA, era comum que os passageiros almoçassem duas vezes no mesmo dia, quase como se voltassem no tempo;

  • A rota Paris-Rio durou apenas seis anos, por conta dos altos custos;

  • 2.170 km/h era a velocidade máxima da aeronave e 18.300 m a altitude;

  • Todo Concorde deveria ser branco para ajudar a regular a temperatura;

  • A viagem mais rápida foi em fevereiro de 1996, de NY para Londres: 2h, 52 minutos e 59 segundos;

  • Em 1999, durante o eclipse solar total, um Concorde Air France perseguiu a sombra e os passageiros ficaram dentro do eclipse por cinco minuto.

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