Lina Bo Bardi e os países do futuro

Lina Bo Bardi e os países do futuro

A maior retrospectiva de Lina Bo Bardi na China revela uma arquitetura que soube olhar para o futuro sem romper com o passado

XANGAI – Cheguei à China antes da abertura oficial da exposição, mas o que primeiro me tomou não foi um museu: foi o canto ensurdecedor das cigarras dividindo o ar com as ruas silenciosas, tomadas por carros elétricos. 

A China é um país de escala monumental, movido por uma velocidade difícil de acompanhar, e ainda assim a tecnologia divide espaço com parques exuberantes, grandes massas de vegetação e uma cidade surpreendentemente limpa.

O Power Station of Art, considerado um dos mais importantes museus de arte contemporânea do país e sede da Bienal de Xangai, recebe Lina Bo Bardi: Poetics of Survival, a maior exposição dedicada a uma artista mulher na história da instituição e a maior retrospectiva de Lina Bo Bardi já realizada na China continental. 

A mostra integra as comemorações do Ano Cultural Brasil-China e conta com curadoria de Renato Anelli, vice-presidente do Instituto Bardi, e expografia concebida especialmente pelo escritório chinês OPEN Architecture, fundado pelos arquitetos Li Hu e Huang Wenjing. Um verdadeiro diálogo entre os dois países.

Ao percorrer a exposição, não consegui deixar de pensar em um curioso paralelo entre Brasil e China na trajetória de Lina Bo Bardi. 

Quando Lina chegou ao Brasil, em 1946, ao lado de Pietro Maria Bardi, o país era visto pelo mundo como o "país do futuro." A expressão, eternizada por Stefan Zweig poucos anos antes, refletia um momento de enorme otimismo em relação ao Brasil, sobretudo no campo da arquitetura moderna. Anos depois, ela recordaria assim aquele instante:

"Quando cheguei, vi do navio o branco e o azul do Ministério da Educação e Saúde navegando sobre o mar, sob um céu azul límpido. Era o começo da tarde. Senti-me feliz. (...) Conheci Lúcio Costa, Niemeyer e muitos jovens pintores inteligentes, como Portinari e Di Cavalcanti. Era um mundo completamente diferente daquele a que eu estava acostumada."

Naquele momento, o Brasil vivia um período de protagonismo internacional. O Palácio Capanema consolidava-se como um dos marcos da arquitetura moderna. A exposição Brazil Builds, organizada pelo MoMA em 1943, apresentava ao mundo uma produção arquitetônica inovadora e profundamente brasileira, e no ano seguinte à chegada de Lina, Oscar Niemeyer seria convidado a integrar a equipe internacional responsável pelo projeto da sede das Nações Unidas, em Nova York, ao lado de Le Corbusier e outros grandes arquitetos de seu tempo. 

Hoje, oitenta anos depois da chegada de Lina ao Brasil, sua maior retrospectiva na China continental acontece em outro país também apontado como símbolo do futuro.

O paralelo entre Brasil e China, aliás, não é novo. Gilberto Freyre já aproximava os dois países ao definir o Brasil colonial como uma "China Tropical." Guardadas as enormes diferenças entre suas histórias, culturas e escalas, gosto de pensar que esse antigo diálogo ganha hoje um novo significado quando observado através da arquitetura e do design.

A China de hoje também vive um momento de enorme protagonismo internacional. Em 2025, conquistou seu segundo Prêmio Pritzker de Arquitetura com Liu Jiakun, reconhecido por uma arquitetura profundamente ligada à memória, ao cotidiano e ao contexto local, treze anos depois de Wang Shu ter sido laureado, em 2012, por seu trabalho de reutilização de materiais e valorização da tradição construtiva chinesa. O Brasil viveu movimento semelhante: Oscar Niemeyer recebeu o Pritzker em 1988, e Paulo Mendes da Rocha, em 2006. Conversando com arquitetos, pesquisadores e curadores locais, ouvi uma reflexão recorrente: a consciência de que o país construiu muito, e rápido demais.

Antes das grandes avenidas e dos arranha-céus, Pequim se organizava em seus hutongs, vielas estreitas onde a vida acontecia em torno dos pátios internos dos siheyuans, moradias de tijolos cinzentos voltadas para dentro, compartilhadas por diversas famílias. Em Xangai, uma lógica semelhante estruturava os lilongs, conjuntos de vielas onde diferentes casas se abriam para espaços comuns e uma intensa vida coletiva. 

Durante décadas, boa parte desse tecido urbano foi demolida para dar lugar à expansão das cidades. Mas, em algum momento, Pequim e Xangai compreenderam algo essencial: preservar também faz parte da ideia de progresso.

Diversos hutongs foram recuperados e adaptados a novos usos. O Mandarin Oriental, em Pequim, ocupa hoje um conjunto dessas antigas vielas, preservando seus pátios, suas proporções e sua materialidade. Em Xangai, bairros históricos como o Huangpu District e projetos de requalificação como o Panlong Tiandi mostram como antigas construções podem receber novos programas sem abrir mão de sua identidade.

Enquanto caminhava, era impossível não pensar no Sesc Pompeia, na Casa de Vidro e em tantos outros projetos de Lina Bo Bardi. Em contextos profundamente distintos, todos parecem partir da mesma compreensão: preservar não significa congelar o passado, mas permitir que ele continue produzindo novos significados no presente.

Foi esse paralelo, mais do que qualquer coincidência histórica, que me fez voltar à pergunta lançada por Renato Anelli na abertura da exposição: afinal, qual é o significado do legado de Lina Bo Bardi hoje?

Talvez a resposta esteja na extraordinária atualidade de seu pensamento. Lina compreendeu, muito antes de muitos de nós, que arquitetura, cultura e natureza não são campos separados, que ser moderno nunca significou abandonar a identidade local, e que reutilizar edifícios e espaços urbanos não é apego ao passado, mas uma forma de construir o futuro. Percebi que talvez seja esse o verdadeiro legado de Lina: a certeza de que um país se torna o futuro não quando rompe com sua própria história, mas quando aprende a lê-la com atenção.

Não porque sua arquitetura pertença ao passado. Mas porque ela continua nos ajudando a imaginar o futuro.

Recomendações de leitura 

China Tropical, de Gilberto Freyre

Neste livro, Gilberto Freyre aproxima Brasil e China a partir de suas formações culturais, das relações entre Oriente e Ocidente e da capacidade de ambos os países de absorver influências externas preservando identidades próprias. Uma leitura que amplia o olhar sobre os diálogos históricos e culturais entre os dois países.

O Homem que Amava a China, de Simon Winchester

A biografia de Joseph Needham, cientista britânico que dedicou sua vida ao estudo da civilização chinesa. Ao acompanhar sua trajetória, o livro oferece uma compreensão profunda da história, da ciência e da cultura chinesas, revelando um país muito mais complexo do que aquele normalmente associado apenas ao seu extraordinário desenvolvimento econômico.

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