Foi em 1900, quando o empresário californiano Adolph B. Spreckels casou com Alma de Bretteville, 24 anos mais jovem do que o magnata do açúcar, que dizem ter nascido o termo sugar baby. Alma costumava chamá-lo de sugar daddy, pela diferença de idade e por sua riqueza atrelada à commodity. Logo, ela era a sugar baby de Adolph.
Daquela época para cá, o termo “evoluiu” e ser uma (ou um) sugar baby passou se transformou em estilo de vida. Com relações baseadas na troca de bens financeiros por companhia e afeto - pense em romance meets finance - a diferença entre ser uma sugar baby e uma garota de programa está na dinâmica do vínculo.
Ser uma sugar baby envolve um arranjo de médio a longo prazo e fazer sexo não é obrigatório. Como explica didaticamente o site Sugar Book, criado em 2016 pelo malasio Darren Chan com foco em universitárias que procuram um patrono, a sugar baby é “uma adulta que prefere conexões construídas a partir de transparência, confiança e flexibilidade, e que está a procura de um mentor, uma companhia, alguém com maturidade emocional e que possa provê-la de benefícios para manter um tipo de lifestyle.”
Não há implicações legais em ser uma sugar baby ou daddy. “O mundo sugar explicita algo que o amor romântico prefere manter escondido. Toda relação envolve trocas e assimetrias,” diz a psicanalista Fernanda Samico, Doutora em psicanálise pela UERJ. “É normal, em uma relação mega tradicional, um ganhar mais do que o outro, um ser mais bonito ou viajado do que o outro, ou mais emocionalmente estável e por aí vai”. Mas talvez a maior mensagem deste mundo é que, nos relacionamentos, quem constrói as regras são aqueles que estão no relacionamento. Em um mundo no qual hipocrisia parece ser uma prática comum, as babies e seus daddies ganham pontos simplesmente pela transparência. Para ela, há uma certa hipocrisia em torno do dinheiro e relações amorosas. “O dinheiro está presente o tempo todo: no modo como um casal organiza a vida, nas possibilidades de lazer, no projeto de ter filhos, na divisão das despesas e até nas expectativas que cada um constrói sobre o outro. Quando alguém diz ‘eu te ofereço dinheiro e você me dá companhia, desejo, beleza, atenção’, a negociação fica clara. E nós tendemos a preferir acreditar que o amor é um território completamente desinteressado”.
Honestidade foi a palavra-chave na criação do Seeking, a Meca do sugar dating, lançado em 2006 por Brandon Wade, engenheiro formado no MIT. Nascido e criado em Singapura, teve uma infância e adolescência muito focadas nos estudos. Quando tirou a cara dos livros para namorar, encontrou um ecossistema hostil para a sua personalidade. Todas suas conquistas não faziam a menor diferença naquele ambiente desenhado para arrebatar alguém através de fotos de perfil genéricas. Criou então a plataforma para que homens de sucesso, como ele, pudessem conhecer mulheres ambiciosas. E conheceu. Casou-se com Dana Rosewall, hoje sua co-CEO.
Por aqui, o maior ecossistema de sugar dating é o MeuPatrocínio, criado por Jennifer Lobo, americana filha de brasileiros, em 2015. No site, 72,3% das babies filtram homens por faixa de renda; 62,9% priorizam a localização e 27,6% consideram estado civil, profissão ou estilo de vida. Os daddies, que em sua maioria são empresários, executivos e advogados, buscam primeiro pela faixa etária, seguido por localização e, em terceiro lugar, pelo perfil físico ou estilo. A renda média mensal deles é de R$84.500.
O cara a cara acontece em dates marcados pelo aplicativo ou em uma festa anual promovida pelo app. Na edição mais recente, em Balneário Camboriú, um baile de máscaras venezianas à beira-mar no melhor estilo De Olhos Bem Fechados tinham muito mais mulheres do que homens. Os pouquíssimos empresários e CEOs na faixa dos 40 anos dividiam espaço no salão com estudantes, influenciadoras e empreendedoras de 20 e tantos anos.
A vida de sugar baby já foi mais agitada. E fácil. Como sexo não é uma prerrogativa na relação sugar, muitos daddies têm recorrido à IA para lidar com a carência. “Essa é uma discussão interessante porque a inteligência artificial pode ocupar alguns espaços da companhia. O que mudou foi o cenário dos relacionamentos como um todo. As pessoas estão mais exigentes, têm mais opções, mais informação e menos paciência para relações que não fazem sentido para elas,” diz Jennifer, que ainda assim acredita que o interesse por relacionamentos sugar segue em alta.
Entre diferentes motivações e expectativas de encontrar alguém para se relacionar, há um denominador comum entre as babies: elas estão exaustas. “Sempre houve desafios em ser uma baby. O que mudou foi a minha maturidade, em ter um olhar mais seletivo em relação ao que eu quero dos daddies, em como eu percebo que mereço ser tratada," diz a sugar baby Graciane.
“Existe um cansaço importante em relação à experiência amorosa contemporânea, e não só à respeito da dificuldade de encontrar alguém, mas do trabalho que muitas mulheres sentem que precisam realizar dentro das relações,” diz a psicanalista Fernanda Samico. Como administrar a vida afetiva, sustentar emocionalmente o vínculo, negociar expectativas e, muitas vezes, dar conta das desigualdades econômicas. Afinal de contas, nem a promessa de uma relação sob medida parece escapar do desgaste de procurar alguém que valha o investimento.















