Antes de mais nada, um breve teste de múltipla escolha:
Pergunta 1: Você acaba de ser promovido no trabalho. Qual das bebidas abaixo será a escolhida para celebrar essa conquista?
A) Uísque
B) Espumante
C) Cachaça
D) Cerveja
E) Vinho
Pergunta 2: Você perdeu o emprego, sua mulher fugiu com o vizinho ou o seu time de coração acaba de ser rebaixado de divisão. Qual bebida você vai escolher para afogar as mágoas?
A) Espumante
B) Cachaça
C) Vinho
D) Uísque
E) Cerveja
Sem muito esforço, posso garantir que, na pergunta 1, poucas pessoas responderam à alternativa “C”, de cachaça. Já na pergunta 2, posso apostar que a maioria foi na alternativa “B” — que, no caso, também era cachaça.
Décadas de um reforço negativo de filmes, novelas e seriados, que sempre conectaram o consumo da cachaça como consequência de eventos ruins - desemprego, abandono, violência, degradação -, ainda induzem muitos consumidores a repudiar um produto tão rico e versátil.
Mas, como diria Herbert Vianna: “A vida não é filme e você não entendeu.”
Aqui, o Page9 mostra o quanto o destilado pode ser uma escolha elegante, equilibrada e inteligente.
Para isso, viajamos a Belo Horizonte, onde o restaurante Trintaeum, referência ao código de área de BH para ligações de longa distância, da chef Ana Gabi Costa, elevou a experiência da cachaça a um patamar parecido com o dos vinhos e de outros destilados premium.
Acreditem, não é pouca coisa.

O restaurante já está entre os mais premiados do País. Além disso, a própria chef já foi condecorada como Chef Mulher do Ano no Prêmio Cumbucca de Gastronomia 2025.
Ou seja, estamos falando de um restaurante de alta gastronomia, de padrão internacional e focado na cozinha mineira. “A gente tem um trabalho com os vinhos mineiros — a carta de vinhos da casa é toda dedicada aos vinhos de Minas —, mas também estamos trilhando um caminho de enaltecer a cachaça, tanto na nossa gastronomia como em nosso serviço,” disse Ana Gabi.
Na cozinha, a cachaça está presente em temperos, molhos, marinadas e finalizações — além de estrelar alguns dos carros-chefes da casa, como o “Porco sem Mágoas” (que vem acompanhado de molho de cachaça e limão, angu de canjica com queijo, milho e taioba) e o pudim com ameixa e cachaça.
O Trintaeum conta com sommelières de cachaça, capitaneadas e treinadas pela também sommelière Pollyanna Ávila. Por lá, o cliente é apresentado a um menu exclusivo com 28 cachaças (número que deve crescer para 50 até o início do ano que vem), classificadas por região, produtor, percepção, estilo, teor alcoólico e, claro, madeiras.

“A ideia é que o cliente perceba a riqueza, as sutilezas e os sabores de um destilado que pode ser envelhecido em mais de 30 madeiras diferentes,” disse Polly. “O cliente chega e percebe que a cachaça recebe o mesmo tratamento do vinho, com um profissional especializado que vai à mesa para servir, explicar os produtos e sugerir harmonizações.”
A carta é desenhada para guiar o cliente por uma experiência que pode começar por uma cachaça branca (que passa por inox ou madeiras neutras), seguir por madeiras brasileiras (como amburana, bálsamo, jatobá, entre outras), madeiras estrangeiras (como o carvalho americano e o francês) e terminar nos blends.
As cachaças são servidas em uma elegante taça de alambique — levemente resfriadas, entre 19ºC e 20ºC. “O cliente percebe que a cachaça não precisa ser agressiva ou arder. O que ele vai sentir é um quentinho no coração,” brinca Polly.
A coquetelaria do restaurante também é toda baseada em cachaças e destilados mineiros. Se a opção for por um drink, não deixe de experimentar o Rabo de Galo servido na taça coupe. Outra ótima opção é o Lagoinha, um coquetel autoral com Cachaça Princesa do Vale (amburana), fermentado de caju e aquafaba.

Por falar em drinks, Ana e Polly (acompanhadas pelo chefe de bar Cássio Batista) também são responsáveis pelo bar Coreto. Lá, a carta de drinques é toda pensada para trazer a cachaça para o mercado de luxo, como no caso do coquetel “A Lenda” (com cachaça Havana, garrafada de boldo e rapadura) ou ainda o “Me Diga Por Que” (com Cachaça Guaraciaba Extra Premium, infusão de hidromel com urucum, licor de araticum Flor das Gerais e cordial de umbu). Além disso, todos os clássicos passam por uma releitura na qual a base alcoólica é trocada por cachaça e os outros insumos são substituídos por produtos mineiros.
Como se vê, a cachaça é chique. É possível aproveitar o melhor desse destilado brasileiro sem os velhos e cansados estigmas.















