As facetas do arrependimento

As facetas do arrependimento

O remorso é real. As facetas dentárias, que já foram símbolo de status, agora são revistas por insatisfeitos com sorrisos artificiais demais

Se tem uma turma que trabalhou non-stop na última década foi a de odontologia estética: a busca por facetas dentárias fez os consultórios lotarem. Ter dentes perfeitos moldou também os padrões de beleza ao longo de dez anos: de repente todo mundo tinha o mesmo sorriso.

A era dos dentes perfeitamente alinhados, volumosos e opacos, em tons de branco intenso teve seu auge entre o início dos anos 2000 até o fim da década de 2010. Mas a estética não envelheceu bem…

Hoje, pacientes em todo o mundo começam a enfrentar o desconforto e o arrependimento por sorrisos artificiais. Ao fator estético, soma-se a descoberta tardia de uma realidade clínica definitiva: uma vez desgastado o esmalte para a cimentação da primeira peça, não existe um caminho de volta aos dentes originais.

E mais, as lâminas de porcelana podem lascar, causar infiltrações, desconforto oclusal ou problemas gengivais. Mesmo quando perfeitamente executadas, apresentam uma vida útil média de 10 a 15 anos, momento em que uma substituição cara e trabalhosa se torna inevitável. 

Pacientes que buscam reabilitar procedimentos anteriores se frustram ainda mais pela falta de alinhamento prévio sobre as limitações biológicas e o comportamento do material na cavidade oral. É o caso da professora universitária Daniela De Toni que vivenciou a complexidade do tratamento de forma traumática ao tentar aperfeiçoar o sorriso. "Gastei horrores, esperava ficar com um resultado mais bonito, mas a estética não ficou boa. Para começar, as facetas foram coladas juntas e ficou difícil de passar o fio dental. Comia com medo de as facetas caírem, o que aconteceu um dia, no meio do trabalho. Foi horrível. Para não se repetir, o dentista lixou tanto meu incisivo que ele ficou superfino – agora não cai mais, espero. É um tal de lixar, provar as facetas feitas pelo protético várias vezes... Perdi tempo, gastei dinheiro e o resultado não ficou o que eu esperava," diz Daniela.

A experiência da professora evidencia como o desgaste excessivo e a alteração biomecânica afetam a qualidade de vida do paciente, exigindo adaptações funcionais rigorosas. "Tem uma aspereza que atrai a língua. Sinto insegurança porque já caiu uma vez, evito comer em locais públicos. Churrasco, granola e maçã, por exemplo, são proibidos. Precisei mudar meu comportamento. Preferia ter os meus dentes antigos, imperfeitos, não tão brancos, meio tortinhos. Em mim não ficou perfeito, achei que fiquei dentuça. Fiz em cinco dentes da frente, só de cima. Não dá para voltar atrás porque lixa o dente para colocar as facetas," diz.

A prioridade atual dos especialistas é esgotar alternativas conservadoras antes de aplicar qualquer broca sobre a estrutura rígida do dente. "As facetas não devem ser indicadas simplesmente porque o paciente deseja um sorriso mais bonito ou mais branco. A indicação precisa partir de um diagnóstico individualizado," diz a cirurgiã-dentista Diana Fernandes. 

"Elas podem ser uma excelente opção quando existe necessidade de modificar forma, proporção, pequenas alterações de posição, cor, fraturas, desgastes ou outras alterações que não podem ser resolvidas de maneira adequada apenas com clareamento, ortodontia ou restaurações mais conservadoras. Antes de pensar em facetas, sempre avalio se existe uma alternativa que preserve mais a estrutura dental. O melhor tratamento não é necessariamente o que transforma mais, mas aquele que resolve a queixa do paciente preservando o máximo possível do dente natural."

O cirurgião-dentista da Clínica Omint Odonto e Estética, Herberth Freitas Reis Cavalcante Mota, reforça que a evolução tecnológica permite intervenções cada vez mais brandas. "As principais indicações do tratamento com facetas são alterações de cor não solucionadas com o clareamento, correção de forma e proporção dos dentes e pequenas correções de alinhamento. Devido à evolução de estética e resistência dos materiais, o planejamento moderno prioriza facetas minimamente invasivas. Em muitos casos, realizamos apenas uma adequação do dente para cimentação," diz.

O movimento em direção à naturalidade redefiniu também os protocolos de planejamento. O uso do fluxo 100% digital, com escaneamento intraoral, design computadorizado e testes de mock-up (ensaio restaurador em resina sobre os dentes sem desgaste), passou a ser premissa para evitar decepções estéticas. "Dessa forma, o paciente consegue ver o resultado antes de iniciar qualquer preparo nos dentes," diz Herberth. "Com relação à cor, desestimulamos o uso de escalas muito brancas em favor de tons que respeitem o tom de pele e idade do paciente."

A personalização do sorriso exige uma leitura aprofundada da anatomia facial e da própria personalidade do indivíduo, prevenindo o aspecto artificial que incomoda pacientes como Daniela. "Hoje percebemos uma mudança muito clara na expectativa. O sorriso extremamente branco e totalmente padronizado vem dando espaço para uma estética mais natural, elegante e individualizada," diz Diana. 

"O planejamento começa muito antes da escolha da cor ou do material. Avaliamos o rosto, os lábios, a gengiva, o formato e a proporção dos dentes. Não existe um sorriso bonito universal. O objetivo é criar um sorriso que pareça pertencer àquela pessoa, e não um que denuncie que ela fez um procedimento estético."

Quando bate o arrependimento, seja pelo volume excessivo, falha de adaptação ou frustração estética, a conduta clínica exige cautela e clareza diagnóstica. 

A reversão biológica é impossível, mas a reabilitação funcional e estética é plenamente viável por meio da substituição das peças. "Nesses casos, a solução é a troca das facetas. A remoção pode ser feita de forma rápida e indolor com utilização de laser. Ressaltamos a importância de um bom planejamento, com uso de scanner intraoral e fotografias, pois assim o resultado é previsível e evitamos insatisfações," diz Herberth. 

A avaliação cuidadosa das razões da insatisfação é a chave para planejar o retratamento sem causar danos adicionais aos tecidos remanescentes. "Quando a queixa é relacionada a formato, volume, textura ou pequenos detalhes estéticos, dependendo do material e da situação clínica, podem existir possibilidades de ajustes, polimento ou caracterização. Em outros casos, a substituição das peças é a melhor alternativa. É fundamental esclarecer que existe possibilidade de reabilitar um caso que não ficou satisfatório, mas isso não significa que o procedimento original seja biologicamente reversível.” Se houve remoção de estrutura dental, aquele esmalte não volta.

 

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