Resisti a ler o livro do momento: Yesteryear, de Caro Claire Burke. Tradwifes, conservadorismo, sonho americano e viagem no tempo não são temas que me atraem.
Baixei uma amostra no Kindle pronta para não gostar, mas a leitura me prendeu. Quando percebi, já tinha comprado e estava na metade do livro.
O romance é escrito como um page turner, apesar de os personagens serem rasos, quase caricatos. A autora escolheu o caminho mais fácil, mais palatável e de fácil consumo, mas compensou com observações inteligentes e divertidas sobre o novo normal da vida (digital) contemporânea.
A atriz Anne Hathaway comprou os direitos do livro e deve interpretar a personagem principal.
A trama acompanha Natalie, desde jovem uma personalidade difícil e obstinada, que é aprovada em Harvard e lá conhece Caleb, também estudante, em um encontro religioso. Os dois, cristãos fervorosos, rapidamente se casam, têm filhos um seguido do outro e vão morar em um rancho, em Idaho. Ela começa a dividir a vida familiar no Instagram e se transforma em uma influenciadora digital. O que era uma brincadeira improvisada vira um negócio profissionalizado, com milhões de seguidores e uma equipe de direção/filmagem.
Se na tela a personagem se esforça para criar a perfeita Online Natalie, fora da tela, a Offline Natalie vai ficando cada vez mais imperfeita. Ela falha repetidamente como esposa, mãe, filha e irmã e vai se dissociando da perfeição da Online Natalie, que virou sua obsessão. “Ser mãe, esposa e influenciadora,” reflete a personagem, “é como amamentar três bebês simultaneamente”. No caso, ela tem um bebê favorito.
A autora é afiada ao descrever a lógica da influência. “O objetivo de uma influenciadora não é ser amável, nem insuportável. O objetivo é ser as duas coisas ao mesmo tempo. Em outras palavras: viciante.”
Natalie diz que possui um “closet de sorrisos” para usar nas redes e manter a teatralidade da vida digital. Após um acontecimento inexplicável, ela acorda no mesmo rancho, na mesma casa, mas no século XIX. Entre o presente e o passado, Natalie não se encaixa em nenhum dos dois modelos femininos. A narrativa passa a alternar entre os dois até o final do livro.
Natalie percebe que seu público exige a perfeição como também a ilusão de imperfeição: a mulher que prepara uma refeição impecável enquanto derrama um pouco de farinha pelo caminho, a mãe de muitos filhos que sorri com uma exaustão preparada, tudo calculado para parecer levemente imperfeita.
A semelhança com a influenciadora Hannah Neeleman, do Ballerina Farm, causou um furor na internet. Curiosidade: Hannah é casada com Daniel Neeleman, o filho do fundador da Azul Linhas Aéreas, David Neeleman, e eles moraram por quatro anos no Brasil.
Em entrevistas, Hannah contou que as experiências no interior brasileiro despertaram um “amor profundo pela agricultura e pela comida,” o que os motivou a comprar uma fazenda e morar no campo na volta para os Estados Unidos.
Hannah deu a primeira entrevista depois da publicação do livro na semana passada para a New York Magazine, com o título: “Ballerina Farm está feliz com suas escolhas”. Ela afirma que não quis ler o livro e que não se importa que possa ter sido inspirado em sua vida (o que parece mesmo ser uma inspiração para a Burke).
Os inúmeros fóruns e debates sobre o livro criticam as tradwifes ( as esposas tradicionais que vivem para cuidar do marido, dos filhos e do lar) ou as defendem, afirmando que o livro ridiculariza quem opta por esse caminho.
O romance aborda — também superficialmente — as escolhas de outras mulheres, focadas em carreiras, ou as que optaram pelo divórcio. Por mais diferentes entre si, tradwives x executivas, casadas x divorciadas, existe uma dificuldade, até na ficção, de encontrar um modelo de realização feminina integral. Sempre falta de algum lado. Ao se irritar com a calma com que seu marido lida com os problemas e sua inércia para solucioná-los a personagem principal diz que ela “deveria ter nascido homem,” assim poderia liderar sua vida familiar.
Quando Natalie desperta na comunidade do século XIX, a pressão assume outra forma. Ela não tem escapatória: só lhe restam os afazeres domésticos sem qualquer tipo de conforto. O marido da personagem, na vida de 1850, é determinado e inflexível, sem espaço para que ela possa se manifestar. Religiosa, evoca a Deus constantemente e, nesse caso, pede perdão por ter desejado tanto um homem firme e decidido; não queria mais, preferia quando ela conseguia impor sua vontade.
Na ficção, como na vida real, a mulher recebe menos empatia e tolerância dos homens e das próprias mulheres. Natalie depois de viver as duas realidades — passado e presente — conclui “quanto menos uma mulher fala, melhor. Essa, admito, eu já sabia.”
Um dos méritos da autora, além de uma escrita fluida e cativante, é ter tido a coragem de criar uma personagem tão antipática quanto Natalie. “Às vezes, isso realmente me dava náuseas,” narra Natalie, “o quão perfeita minha vida era e o quão boa eu era em vivê-la.” É ler para crer.













