
O que é “ser uma boa mãe”
Quem souber, me conta?
Hoje, seis anos depois de dar à luz, um exame de imagem do meu cérebro poderia afirmar, com 91,67% de precisão, que sou mãe. Me deparei com essa informação lendo Matrescência, best-seller e leitura obrigatória para mães de filhos de qualquer idade, da jornalista científica inglesa Lucy Jones. O dado é da pesquisa “Do Pregnancy-Induced Brain Changes Reverse? The Brain of a Mother Six Years after Parturition”, publicado no PubMed/NIH, 2021.
Seis anos é justamente a idade da Dora, minha filha mais nova. Laura, a mais velha, tem 8. Mesmo que não tivesse lido o livro, eu não hesitaria em afirmar categoricamente que sou outra, física, química e biologicamente, desde que elas nasceram. Meu cérebro é outro, meu corpo também. Meus medos são novos (e mudam de fase com elas), minha coragem, idem. Minha autoimagem, minha sensibilidade e, claro, minhas prioridades. Não vou me alongar: existe uma nova pessoa, que ainda estou conhecendo, mas sei que tem, no centro de tudo, dois corações que já viveram em mim e hoje saem por aí saltitantes, descobrindo o mundo.
Em Matrescência, Lucy explica, através do cruzamento de inúmeras pesquisas científicas, todas as mudanças que acontecem dentro do corpo das mulheres depois de darmos à luz — hoje, já se sabe, elas são infinitamente maiores do que “apenas” a explosão de hormônios pelas quais passamos na gestação e no puerpério. (Parêntese importante: há no livro trechos dedicados a mudanças em pais, avós e cuidadores, mas me atenho aqui à maternidade biológica, pela minha experiência pessoal).
Está tudo ali, comprovado e explicado pela ciência: o poder avassalador da ocitocina no meu corpo e nos corpos delas, a conexão visceral que criei com minhas filhas, a antena que não me desliga das duas nem quando estamos a milhares de quilômetros de distância. O amor, a paixão, a raiva, a energia, a exaustão.
O que a ciência ainda não encontrou meios de saber, com precisão numérica, é se sou uma boa mãe.
“Queria um texto sobre o que é ser uma boa mãe hoje.” A encomenda para esta pensata chegou via zap da Paula Merlo, editora-chefe deste Page9. “Você, com sua sagacidade, vivência e bom humor é a pessoa certa para escrever.” Vivência (da maternidade) e bom humor são parte de mim, fato. Pelo “sagacidade” eu só agradeço. Mas e o “boa mãe”? Eu não deveria estar neste grupo para receber essa mensagem? Será que sou uma “mãe suficientemente boa” — já citando logo Winnicott pra entrar no tema com respaldo — para escrever este texto?
Passei o último mês debruçada em memórias, fotos, videozinhos em looping (haja loopings... Lucy explica toda a química envolvida neste prazer, vale dizer). Voltei a clássicos que li nos últimos oito anos — do próprio Winnicott, que me aliviou de uns tiquinhos de culpa, à bíblia da mãe de primeira viagem, O que esperar quando você está esperando. Do (ridículo, mas eu juro que foi útil) A Encantadora de Bebês ao hit Crianças Francesas Não Fazem Manha. Folheei novamente o recente, fundamental e aflitivo A Geração Ansiosa, de Jonathan Haidt. Ouvi o Ezra Klein entrevistar a educadora e autora Rebecca Winthrop, em seu podcast para o NYT. Entrei ativamente nos meus perfis preferidos de mães, pediatras e psicanalistas que falam sobre o tema nas redes (não são poucos).
Me enchi, como costumo fazer no trabalho e na vida, de dados e quotes e informações e comprovações para garantir que, sim, estava pronta para escrever o que é, afinal, ser uma boa mãe hoje. O ano, lembrando, é 2026, a inteligência artificial sendo pulverizada como um grande fumacê ao redor da terra (os mosquitos somos nós?), as redes sociais fritando os cérebros de toda uma nova geração (e um tanto da nossa também). Taxas de feminicídio crescendo vertiginosamente no Brasil, Trump brincando de soldadinho de chumbo pelo mundo, a machosfera envergonhando a humanidade. Mães, pais e cuidadores perdidos entre matricular os filhos numa escola bilíngue, onde aprenderão a se tornar líderes globais e tecnológicos, ou na Waldorf de São Francisco Xavier, onde produzirão cestas com a palha local para que também sejam líderes, mas com “soft skills” campestres que valerão ouro no futuro.
Um dos dados que mais me surpreendeu no livro de Haidt é o de que as crianças estão se machucando menos. Parece uma informação positiva, mas é o contrário disso. As crianças estão se machucando menos porque têm brincado menos. Ficado mais dentro de casa, nas telas. Porque os parquinhos são excessivamente protegidos, os brinquedos sequer desafiam os pequenos. Estamos superprotegendo tanto nossos filhos que eles estão parando de correr riscos. Riscos bobos, que, na infância, nada mais são do que test drives de riscos reais da vida adulta. Apavorados com tudo o que listei acima, não estamos sequer aguentando lidar com a possibilidade de os joelhos voltarem ralados da rua. Aliás, que rua?
Sempre ouvi que ser uma boa mãe era criar os filhos para que eles possam voar um dia por conta própria. Mas onde eu guardo o frio na barriga de soltá-las “por conta própria” no cenário descrito acima? O quanto, hoje, ser boa mãe é soltar e o quanto é proteger? Jesus Amado, quanto dá para proteger soltando, em 2026 (and counting...)?
Ainda trabalhando no texto, ouço, vindo do hall do nosso apartamento, o ruído crescente das meninas chegando da escola. Uma conversinha em tons agudos que vai crescendo, crescendo, até o “dlin dloooon” tocar 230 vezes e eu interromper tudo e correr para abrir a porta, pronta para dar a bronca de todo dia: “já falei que vocês vão estragar a campainha!.” Mas a porta é aberta pelo pai antes que eu chegue lá: elas correm feito foguetes até mim, me abraçam cada uma de um lado, eu caio no sofá, rolamos no chão e morremos de rir. “Mamãe, você vai jantar com a gente hoje?”, perguntam, depois de alguns dias seguidos de eventos de trabalho que me tiraram de casa. “Sim.” “Eeeeeeeeeee!!!!!” Me abraçam de novo. A ocitocina me inunda de bem-estar, a serotonina me acalma. Entram em campo a dopamina, a prolactina e as endorfinas. Meu cortisol vai baixando, baixando, baixando. Quero ficar aqui, no tapete de casa, rolando com elas, pra sempre.
(Pauli, respondendo à sua pergunta: acho que ser boa mãe é deixar os filhos serem quem eles são. Com band-aids sempre à mão para os ralados, claro.)


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