
Sou um Disney adult. O que há de mal nisso?
Somos estereotipados nas redes sociais como imaturos, sem controle emocional e gastadores compulsivos. Mas o que realmente leva um adulto, como eu, ser obcecado pela Disney?
Quem está imune às decepções da vida? Estaria mentindo se, na virada de 2021 para 2022, dissesse que não senti uma grande decepção após uma demissão. A minha própria demissão, que me fez pensar sobre o meu desempenho profissional e o que poderia ter levado àquilo. Mas maior mesmo foi o impacto positivo da notícia: no dia seguinte, assim que a ficha começou a cair, decidi realizar um sonho de infância — conhecer os parques da Disney. Sozinho, com meus próprios pensamentos: o que me ajudaria a lidar com tudo que estava passando e, ainda, me divertir sem pensar no amanhã (ou no ontem, com o recente diagnóstico de depressão e ansiedade após um burnout meses antes, justamente naquela mesma empresa). Naquela viagem ainda não tinha consciência, mas eu — um jornalista adulto, que vivia praticamente em função do trabalho e começava a pegar gosto pelo golfe — estava ganhando meu bilhete só de ida para o mundo dos Disney Adults.
Ali, na minha primeira vez na Disney, vivi momentos de muita felicidade e entendi que a decepção é algo, de fato, inerente ao ser humano. Isso porque criamos expectativas. Não existe decepção maior ou menor: cada um vive a sua à sua própria maneira. Em uma das filas intermináveis para uma das atrações, conheci uma senhora americana com tatuagens de Mickey, colares com pingentes da Disney e uma história: ela era a responsável legal por sua irmã mais nova, internada em uma clínica para pessoas com transtornos psiquiátricos, passou por uma separação recente depois de anos de traição e violência doméstica, e havia se recuperado de um câncer bastante agressivo. E, grata à vida, mantinha a tradição de visitar a Disney uma vez ao ano para se sentir presente, viva. Eu tinha perdido o emprego, ela, em suas próprias palavras, tinha ganhado a vida de volta.
Lembro de sair daquela conversa com outros olhos, observando as famílias, os idosos, a felicidade que existia ali. Depois daquela viagem, também voltei para a Disney em quase todos os anos seguintes, e, em quase todas as vezes, sozinho e a contragosto por parte dos meus pais e de alguns amigos que não entendiam a repetição. Mas todas elas foram viagens planejadas com muita alegria e me fizeram sentir parte de uma comunidade com interesses e paixões em comum, nas quais fiz novos amigos bebendo ao redor do mundo no EPCOT ou exibindo minha pelúcia da personagem Ansiedade, de Divertidamente 2, como se fosse uma grande medalha de vencedor. E foi na última vez, em setembro de 2025, que ouvi o termo Disney Adult: uma definição que era o assunto do momento por conta dos vídeos virais de adultos se divertindo e cometendo “loucuras” nos parques da Disney (muitas vezes, inclusive, sendo ridicularizados por isso) e pelo livro Disney Adults: Exploring (and Falling in Love With) a Magical Subculture, escrito por AJ Wolfe e lançado no mês anterior, em agosto.

No livro, ela escreve sobre um grupo de adultos que são absolutamente apaixonados pela Disney, seja pelos parques, filmes ou livros, e que passaram a ser alvo de críticas a partir de 2020 em artigos e posts no Tumblr e no BuzzFeed. Mas eles existem desde o início dos “tempos Disney”: o próprio Walt Disney disse que “estaria morto se focasse apenas nas crianças, já que os adultos nada mais são que crianças crescidas.” O fato é que, para muitos, os Disney Adults são considerados crianças crescidas que não tiveram infância. Estereotipados nas redes sociais como imaturos, sem controle emocional, gastadores compulsivos e que não empregam energia (nem dinheiro) no que realmente deveriam, como ter sua casa própria ou constituir uma família — as “coisas de adultos”.
É inegável que a Disney é um ecossistema feito para encantar. Os filmes, os parques com a perspectiva forçada, as músicas que colam feito chiclete, os aromas estrategicamente posicionados. Tudo é pensado para prender os cinco sentidos (os seis, se você considerar a imaginação). E sim, existem as filas intermináveis, o junk food, as crianças correndo de um lado para o outro e muito, muito dinheiro em jogo. Mas para os Disney Adults, esse mundo representa de alguma forma uma saída temporária para as tristezas do mundo real. Para onde você vai quando seu mundo parece que vai desmoronar? Os Disney Adults vão para Disney, literalmente e figurativamente: um porto seguro de nostalgia.

Muitas vezes, pelo que passamos na infância, nossa mente acaba bloqueando algumas lembranças. E essa magia Disney ajuda a passar por experiências e momentos difíceis ou assustadores, resgatando memórias de momentos que ajudaram a nos definir e nos moldar e que, vez ou outra, podem até parecer que não existem. Um dos episódios do podcast vibes em análise, sobre o comportamento de regressão e nostalgia, diz que esse tipo de mecanismo silencioso e automático é uma defesa para alguma ameaça ou para evitar conflitos. Um retorno aos modos infantis de pensar e agir em um lugar protegido, longe do sofrimento e que vem à tona diante de uma situação de estresse, medo ou frustração. Para mim, estar nos parques da Disney, ouvir uma música da Disney ou ver um filme da Disney é como me reconectar a uma infância da qual necessariamente não me lembro, um lugar seguro e um escape do mundo adulto. Mas de forma alguma um escape inconsciente ou descontrolado que interfere na vida adulta (neste caso, o assunto aqui poderia ser a síndrome de Peter Pan, do psicólogo americano Dan Kiley). Um Disney Adult, mesmo que longe da Disney, costuma viver e respirar este universo. É sobre ler e ver os documentários da Disney e suas atrações nas horas vagas, ou ficar por horas no XBox construindo mundos de fantasia e parques de diversão imaginários no Planet Coaster. Donald W. Winnicott, psicanalista referência no campo da infância, dizia que a criatividade dá sentido à vida. E Freud falava que o brincar, o sonho e o trabalho têm muito em comum: o brincar e o sonho modificam a realidade. O trabalho, também (lembra da decepção do início deste texto?).
André Alves, psicanalista e cofundador do instituto floatvibes, disse que “este movimento faz pensar no cruzamento de duas macroforças. A dos fandoms, grupos de pessoas com interesses em comum, quase como uma mentalidade de culto; e a própria nostalgia e regressão. Existe um espírito infantilizador pairando no ar, como se muitos sujeitos retornassem a um passado satisfatório, mesmo que o sujeito não tenha vivido essa realidade. Uma infância tardia que ainda pode ser vivida e um retorno às fases anteriores do nosso desenvolvimento, especialmente em situações de estresse e conflito. E é neste sentido que os Disney Adults parecem ser o antídoto perfeito: a aposta em um mundo muito mais mágico e lúdico e que reintegra nossa capacidade do brincar. Tem algo mais sedutor que os magical moments da Disney?”
Como AJ Wolfe diz em seu livro, ser um Disney Adult é como ser viciado em uma droga. Uma droga que não é barata, mas que você não vê a hora de repetir. Estar na Disney significa ver o tempo passar mais devagar em um lugar seguro e repleto de pessoas iguais a você, onde o respeito e a felicidade parecem ser eternos. E se pararmos para pensar: você se lembra da última vez em que de fato se sentiu feliz? E o que dizer, então, da onda dos livros de colorir, do colecionismo, do boom das comidas em miniatura, dos casais que falam de forma infantilizada, como bebês? E quando você chega em casa depois de um dia difícil, procurando o abraço de quem você ama? Não seriam formas desse retorno a um lugar seguro, da sensação de ser amado e cuidado, de lembrar das coisas boas da infância? Até que ponto, afinal, precisamos ser fortes e inabaláveis? Ser um Disney Adult não é sobre fraqueza: é sobre não ter medo de encarar suas vulnerabilidades e expressar sua essência, sua leveza e sua criatividade em um reencontro consigo mesmo. E ser um Disney Adult é uma aventura deliciosa!


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