
Será que as pessoas só gostam de mim pela minha posição no trabalho?
Quando o valor vai muito além do que o mercado sabe precificar — e da armadura comumente criada para sobreviver a ele
Ao formular a pergunta, você revela uma inquietação que a antecede: quem sou eu para além do trabalho? Ter interesse não é uma falha de caráter, é a base das trocas humanas. Nos aproximamos das pessoas pelo que elas oferecem, seja inteligência, humor, segurança ou, no seu caso, poder. O problema está na sua identificação com o que você entrega. Para sobreviver ao jogo corporativo, você construiu uma armadura de autoridade tão bem ajustada que passou a habitá-la como pele. Se você se apresenta ao mundo apenas como uma posição, o mundo responderá à função. Enquanto a suspeita recai sobre a autenticidade dos outros, a sua própria fica intocada. Porque a pergunta que realmente dói não é se gostam de você pelo cargo, é o que há em você para ser gostado fora dele. Essa é a questão que o sucesso adia e que, eventualmente, cobra com juros. Na tragédia de Shakespeare, Rei Lear abdicou do trono mantendo apenas o título. Descobriu então que o amor das filhas era um contrato vinculado à coroa e, sem o poder de fato, restou um homem sob a tempestade. O risco que você intui é este: o de descobrir que, fora do escritório, é um estrangeiro para os outros — e para si mesmo. Amar é desordenado. Exige uma exposição que o cargo protege. É mais seguro ser estimado pela posição, e isso mantém as pessoas a uma distância onde elas não enxergam suas rachaduras. Ativos são valorizados, cobiçados e protegidos. Mas ativos não são amados. O afeto obedece a uma economia que cargo nenhum governa. Se você busca um afeto que sobreviva à sua demissão, terá que se atrever a ser alguém que o mercado não sabe precificar.


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