No aeroporto de Lisboa, há um portão de embarque onde a nossa maneira “desviante” da língua volta a ser falada a todo vapor. É o do voo para São Paulo, e todo frequentador reconhece a paisagem: sacolas do free shop penduradas em cada braço, uma criança correndo entre as cadeiras, um senhor em videochamada com a parentada inteira do interiorrrrr e uma senhora tentando convencer o funcionário de que seis garrafas de azeite cabem na mala de bordo. A chamada para o embarque ainda nem soou e o grupo já trocou receitas, telefones e conselhos sobre criptomoeda.
Chegar até ali exige fé. O Humberto Delgado é um aeroporto encravado no meio da cidade, com jatos raspando os telhados do Areeiro e um terminal que recebe dezenas de milhões de viajantes por ano num espaço pensado para outra época. A fila do controle de passaportes dobra a esquina do corredor, a da segurança serpenteia diante das lojas de pastel de nata, e o novo aeroporto, prometido há décadas, segue na prancheta.
Tudo respeita a velha arte luso-brasileira de enfiar peru no pires, a mesma que inspira a senhora do azeite: se apertar, cabe, e se não couber, aperta-se mais um pouco. Os portugueses têm até um ditado para isso, meter o Rossio na Rua da Betesga, e o aeroporto da capital prova que a ambição continua viva.
Do outro lado do balcão, os comissários da TAP observam a cena com uma serenidade que só o uniforme consegue sustentar. O lenço está no lugar, o coque não tem um fio solto e o sorriso obedece ao manual, mas quem já fez essa rota algumas vezes aprende a ler o que vai por trás. Eles prefeririam ver os passageiros dobrados no compartimento de cima, junto com a manta e o travesseiro, de preferência pelo avesso e bem amassados.
A fama que nos precede tem dois capítulos.
Somos reclamões, dizem, e a acusação ganha graça quando vem de um país onde a queixa é praticada com disciplina de atleta olímpico. Somos barulhentos, e aqui não cabe defesa nem vontade de apresentá-la. O volume brasileiro carrega África, Líbano, Itália, Espanha e aldeia indígena, de modo que a conversa a bordo vira coral. Exigir sossego a esse grupo equivale a pedir a uma escola de samba que desfile em fila indiana.
Justiça seja feita, o pessoal de bordo também tem os seus motivos. O brasileiro aplaude o pouso, levanta da poltrona antes de o avião parar e abre o bagageiro ainda na pista, disputando a valise com a gravidade. Trata quem serve o jantar pelo nome do crachá logo na primeira hora de voo e, lá pela sexta, já sabe se ele é casado, onde passa as férias e qual é o signo. Para um português, que leva anos até chamar o vizinho pelo primeiro nome, essa intimidade instantânea soa a invasão de domicílio a 11 mil metros de altitude.
Todo santo dia, o português faz o mesmo voo mental: decola da crise política, sobrevoa a crise imobiliária e aterrissa de emergência na crise da TAP. Para ele, a companhia faz o papel daquela tia excêntrica que bebe demais no Natal. Todo mundo sabe que ela dá trabalho e custa caro, mas ai de quem criticar, porque é da família.
Fundada em 1945, a TAP guarda no imaginário local o champanhe servido em taça e, se possível, o cigarro aceso entre as nuvens, enquanto o serviço de bordo real oscila entre o frango com gosto de pasta e a carne com sabor a forno sujo. Vale tudo em nome da lusofonia, conceito nebuloso que justifica tanto a burocracia quanto a bagagem extraviada, e o avião vira o último cordão umbilical do império.
O curioso é que o patrício não gosta de voar para o Brasil. Acha o trajeto comprido, os companheiros de assento exagerados e São Paulo sem charme nenhum. Mesmo assim, é o Brasil que enche os aviões, e a TAP lidera com folga as ligações entre a Europa e o país. A relação lembra um beijo dado de testa franzida: Portugal precisa do Brasil na cabine, mas preferia que ele falasse menos durante a travessia. O Brasil, apaixonado incurável, segue mandando flores, euros e estudantes de medicina para Coimbra, convencido de que um dia será amado de volta.
Em meados de outubro, o governo anunciou que a Lufthansa venceu a privatização e pode alcançar 49,9% da TAP, numa operação de 1,2 mil milhões de euros, ou bilhão, para quem lê no Brasil. O novo sócio prometeu transformar Lisboa no grande hub do Atlântico Sul, e as contas divulgadas mostram que a fatia alemã do mercado latino-americano deve saltar de 9% para 20%. A Air France-KLM, que ofereceu menos, ficou a ver navios, em bom português de cá. Traduzindo para qualquer sotaque, os alemães pagaram uma fortuna pelos brasileiros. O passageiro espaçoso, que a TAP tolerava entre suspiros, virou o ativo mais valioso da transação. E pensar que espanhóis, ingleses e franceses passaram séculos sob vigilância para a bandeira acabar nas mãos de quem nem constava na lista de suspeitos.
Na Alemanha, onde planilhas se leem sem sentimentalismo, perceberam o que Lisboa se recusava a admitir. Somos muitos e, desculpa lá, carregamos nas costas a empresa que adoraria nos ver pelos ares, no sentido menos romântico da expressão. Daqui em diante, o plano de negócios exige mais de nós, e não custa imaginar voos extras para Recife e Fortaleza e, por consequência, uma orquestra ainda maior na classe econômica. A tripulação, que sonhava com a cabine em silêncio, terá de receber a algazarra com outra convicção, porque ela agora figura no balanço.
Que a Lufthansa cuide das contas e deixe os afetos com quem sabe. Antes um coice em português, que sempre vem seguido de sopro, do que um sermão em alemão, que vem seguido de outro. Entre TAP e beijos, nós e os tugas sempre soubemos morder e assoprar na mesma viagem.















