Xangai tem uma das tradições de ópera mais antigas do planeta — e agora também uma das casas mais ambiciosas do mundo.
A Shanghai Grand Opera House, inaugurada neste sábado no bairro de Houtan, área revitalizada às margens do rio Huangpu, não é apenas uma homenagem ao Kunqu e ao Jingju — estilos chineses seculares —, mas uma maneira de a cidade entrar no seleto grupo de Oslo, Copenhagen e Sydney, cujas casas de ópera viraram cartões-postais e destinos por si só.
O projeto é assinado pelo escritório norueguês Snøhetta, o mesmo da Ópera de Oslo, onde é possível caminhar pelo telhado. A ideia se repete em Xangai, em escala chinesa.
Inspirado no movimento da dança, o telhado em espiral se desdobra numa escada que faz as vezes de varetas de um leque e leva até um rooftop aberto ao público com vista para o rio e para a cidade.
Um efeito plissado que parece flutuar no céu.

O leque não foi escolhido por acaso. Na China, ele existe há mais de dois mil anos: primeiro rígido, de penas, bambu ou seda, depois dobrável, trazido do Japão por volta do século 11 e adotado pelos intelectuais da dinastia Ming como suporte para caligrafia e pintura. Na ópera Kunqu, abri-lo, girá-lo ou esconder o rosto atrás dele faz parte dos movimentos que os atores precisam dominar.
A ópera chinesa pode não ser tão popular do lado de cá do planeta, mas tem uma tradição própria bem mais antiga que a europeia, com mais de 300 estilos. O Kunqu, com cerca de 600 anos, é considerado a “mãe” de todos e foi reconhecido pela Unesco como patrimônio imaterial em 2001.
Os números impressionam: o projeto da Opera House de Xangai tem uma área construída de aproximadamente 150 mil metros quadrados em um terreno de 53 mil metros quadrados e levou seis anos para ser construído.

Por dentro, três salas revestidas de carvalho e madeira escura com acústica impecável: o Harmony Hall, com 2 mil lugares e palco de 3.500 metros quadrados; o Soar Theatre, de 1.200 lugares e planta em U, pensado também para a ópera de Pequim e o kunqu; e o Open Stage, de mil lugares, com uma parede de vidro de 13 metros que permite a entrada de luz natural. O Grand Atelier, espaço voltado para atividades educacionais, completa o projeto.

O concerto inaugural da casa, Shanghai Grand Opera House and Friends com repertório de clássicos da ópera chinesa e internacional, reúne os maestros Yu Long, Zhang Guoyong e Xu Zhong, além da Shanghai Symphony Orchestra e da orquestra da Shanghai Opera House, criada em 1956.

A temporada de estreia segue o tema Born to Sing e vai até 20 de fevereiro de 2027. A abertura coincide com a 25ª edição do China Shanghai International Arts Festival, e a temporada terá 47 produções e 82 apresentações, além de mais de 100 programas de educação artística, entre ópera, concertos, dança e ópera tradicional chinesa.
Na sequência, três óperas em estreia asiática, com Xangai como única parada na China: Tosca, do Teatro La Fenice, já nos dias 22 e 24; Aida, do Mariinsky, sob a batuta de Valery Gergiev; e O Cavaleiro da Rosa, da Staatsoper Unter den Linden, regida por Christian Thielemann. Há ainda o ciclo completo das sinfonias de Shostakovich, um concerto de réveillon e o Lago dos Cisnes do American Ballet Theatre no encerramento do festival.
O público respondeu antes mesmo da bilheteria: mais de 16 mil reservas foram antes de os ingressos entrarem à venda. Para quem não conseguir lugar, uma boa notícia: o rooftop tem entrada livre, 24 horas por dia.















