Desde pequena, outubro sempre foi o mês mais esperado por ser meu aniversário. Muito festeira, fazia questão de comemorar todos os dias. Há um ano, outubro passou a ser celebrado por marcar também o meu renascimento: aos 35 anos, meu longo e pesado tratamento contra um câncer de mama HER2 positivo, estágio IV, havia chegado ao fim. Um tumor de quase 6 centímetros tinha partido de vez.
Em maio de 2024, senti pela primeira vez que havia algo diferente no meu corpo. Na época, uma ginecologista disse que poderia ser um inchaço relacionado à anemia, não pediu exames e me disse que em vinte dias me sentiria melhor.
Passados aqueles vinte dias, minha mãe, com seu infalível instinto materno, me levou a um mastologista. Em junho, aos 33 anos, recebi o diagnóstico: câncer de mama.
Desde aquele momento, decidi que tinha duas opções: ou me curava ou me curava. Não era ingenuidade, muito menos falta de noção da gravidade do que estava enfrentando. Foi a forma que encontrei de seguir em frente, sem deixar a peteca cair e sem permitir que a doença tomasse conta de tudo o que eu era. A frase que me levantou, ouvi dos médicos: “Você não tem câncer, você está com câncer.” A doença fazia parte da minha história, mas não era a minha identidade.
Foram 20 sessões de quimioterapia,15 radioterapias e duas cirurgias.

Minha mãe esteve comigo em cada etapa, em cada exame, em cada sessão, em cada cirurgia. Não soltou a minha mão nem por um segundo. E, junto dela, tive uma torcida enorme, que fez toda a diferença. Algumas pessoas se aproximaram, amizades se fortaleceram e outras relações me surpreenderam. Também houve decepções, claro. Mas aprendi a olhar melhor para as pessoas, a entender o lugar que cada uma ocupa na minha vida e a dar mais valor a quem esteve presente de verdade.
Pouco depois do diagnóstico, ganhei um santinho de Santo Expedito, o santo das causas urgentes, e passei a carregá-lo comigo. Coincidência ou não, minha última quimioterapia foi no dia 28 de outubro, dia de São Judas Tadeu, padroeiro das causas impossíveis. Impossível, a minha cura não era, mas o diagnóstico era grave e o tratamento, urgente. Gosto de pensar que os dois estiveram comigo nessa caminhada.
É engraçado como a gente passa tanto tempo fazendo planos e achando que tem tudo sob controle, até a vida resolver mudar o roteiro. Depois de tudo o que passei, tenho tentado sair mais do automático, topar experiências novas, me aventurar e aproveitar melhor as pessoas e os lugares que fazem parte da minha vida. Também aprendi a prestar mais atenção aos sinais do meu corpo e a não deixar para depois o que merece cuidado agora.

Tudo o que vivi me fez enxergar o câncer de mama de outra forma e entender, na pele, o quanto o tempo faz diferença. É muito difícil aceitar que uma mulher precise esperar até 200 dias para começar o tratamento. É muito assustador saber que o câncer de mama vem crescendo de maneira preocupante entre mulheres com menos de 35 anos – dados de 2022 da Sociedade Brasileira de Mastologia mostram que a incidência da doença nessa faixa etária subiu 5%, quando em anos anteriores representava 2% dos diagnósticos.
Se a minha experiência me ensinou tanto, poder usar um pouco do que aprendi para ajudar outras mulheres a terem acesso ao tratamento de que precisam é algo que toca meu coração e dá um sentido ainda maior a essa caminhada.
Ainda tenho muitos planos, lugares para conhecer e aniversários para comemorar. Continuo sendo a mesma festeira de sempre, mas hoje tenho ainda mais motivos para celebrar. Outubro continua sendo o meu mês, só que agora com um significado muito maior.
Haja pique. Haja saúde. E haja vida!















