O êxtase gay de Edmund White

O êxtase gay de Edmund White

Em Os Amores da Minha Vida, o escritor americano lembra sua exuberante vida sexual e sua luta pela auto-aceitação

Edmund White certa vez afirmou que, ao longo de sua vida, havia feito sexo com três mil homens. 

“Por que tão poucos?,” perguntou um amigo provocador. Em Os Amores da Minha Vida, publicado pela Companhia das Letras (compre aqui), seu último livro, White, uma das maiores vozes literárias do mundo gay americano, lembra uma fração dessas milhares de experiências.

O título pode levar o leitor ingênuo a pensar que encontrará aqui um escritor ancião desfiando reminiscências edulcoradas dos homens por quem se apaixonou no passado. 

O subtítulo é mais preciso: Memórias Sexuais. É disso que se trata: sexo, em quase todas as formas imagináveis – entre homens, bem entendido (embora em um episódio o memorialista colabore com uma mulher na felação de um belo rapaz).

“Homens gays raramente têm sido francos a respeito de sua vida sexual, e menos ainda agora, que estão se casando e tendo filhos,” observa o autor, na introdução de Os Amores da Minha Vida. Em sua extensa obra, White rompeu essa timidez. 

Um índice de sua franqueza está na serenidade com que ele revela, no livro derradeiro, um fato que poucos homens — gays ou héteros – têm coragem de admitir: seu pênis era “minúsculo”.   

White morreu no ano passado, aos 85 anos, em Nova York. Prolífico, publicou romances, ensaios, livros de memórias e biografias de três escritores franceses gays: Arthur Rimbaud, Marcel Proust e Jean Genet. 

O escritor nasceu e cresceu em Cincinnati, Ohio, no conservador Meio Oeste americano, durante os também conservadores anos 1950. 

Em Nova York, viveu a efervescência libertária dos anos 1960 e acompanhou a cultura gay que eclodiu depois dos protestos de Stonewall, em 1969. Testemunhou também as mortes e o retrocesso causados pela Aids, nos anos 1980 (White era HIV positivo).

Esses marcos de época aparecem de forma imprecisa ao longo do livro. 

“Não posso avançar em uma linha inteiramente cronológica, já que o desejo não obedece a nenhuma linha do tempo,” escreve o autor. 

Em geral, os capítulos de Os Amores de Minha Vida são ou temáticos – um deles trata só de michês, cujos serviços White começou a contratar já na adolescência – ou dedicados a um amante em particular.

O livro é, pela maior parte, uma sucessão de aventuras eróticas. Insaciável, o autor preferia o sexo passivo ao ativo, e era avesso ao fisting. De resto, estava disposto a fazer tudo com todos, de S&M a golden shower. 

A prosa suntuosa de White demora-se em apreciações estéticas do corpo masculino, mas não recua diante das realidades corporais do sexo, com todas suas secreções e excreções. 

Em seu vocabulário, predominam os termos empregados no quarto ou na sauna, não nos manuais de educação sexual. A palavra “pênis” aparece 23 vezes no livro; “pau”, 57 (ou 58, se contarmos uma ocorrência do aumentativo “pauzão”).

Há um capítulo sobre relações furtivas com homens heterossexuais e outro devotado só aos lugares mais frequentes – ou mais estranhos – em que o autor já transou. 

White avalia as principais saunas gays de Nova York e recorda com nostalgia os tempos em que buscava parceiros em banheiros de metrô (era preciso estar atento a policiais infiltrados, reconhecíveis por um item constante da indumentária: sapatos pretos).

Cobrindo décadas da vida gay americana – e também da Europa: cosmopolita, White passou longas temporadas em Paris e Roma –, o livro traz notas divertidas sobre mudanças na moda e no comportamento. 

Com ironia, White lembra que, por muito tempo, os gays tinham cachorros, não filhos. Conta também da repulsa que sentiu na primeira vez em que viu uma pessoa de bigode em um bar gay. Semanas depois, ele mesmo havia aderido à moda – por boas razões: “Eu faria qualquer coisa, teria qualquer visual, que me levasse a transar.”

A tônica de Os Amores da Minha Vida é o êxtase da experiência gay. 

Mesmo quando recorda dois episódios em que foi estuprado, o protagonista não demonstra ter sofrido qualquer trauma. 

Navega com fluidez entre seus milhares de parceiros, alguns duradouros, outros companheiros anônimos em orgias nos armazéns abandonados ao longo do rio Hudson.

A repressão à homossexualidade atravessa o livro como uma corrente subterrânea, que só ocasionalmente sobe à superfície. 

White, porém, carregou por anos a marca que seu tempo imprimiu sobre os gays: ao mesmo tempo em que buscava sexo sempre que possível, ele tinha sérias dificuldades de auto-aceitação. Tentou até a chamada “terapia de conversão”.

O capítulo mais político do livro é sobre a revolta de Stonewall, que, em 1969, sacudiu Greenwich Village, bairro boêmio de Nova York. O estopim foi uma batida especialmente violenta ao bar gay que deu nome à revolta. 

White admite que o Stonewall – “anti-higiênico, opressor, fortemente vigiado por campanhas da máfia” – não merecia defesa. Mas a causa maior dos direitos gays, sim.  

Em diferentes momentos ao longo do livro, White fala de seu pai rígido e opressor e de sua mãe alcoólatra e indiferente. São temas de que ele tratou em uma obra anterior, My Life, e em romances de inspiração autobiográfica. 

Parece um tanto estranho que o autor tenha resolvido voltar a seus dramas familiares no penúltimo capítulo de Os Amores da Minha Vida, que leva o título dramático de “Os horrores da adolescência”. 

Depois de tantas páginas falando efusivamente de sexo, ele retornou à sua família disfuncional para buscar a raiz da “sensação de catástrofe” que acompanhava seus “atos sexuais”. 

Daí também parece ter nascido sua literatura: “Eu escrevia para manter a cabeça fora d'água. Estava me afogando na minha própria estranheza, na minha exclusão da raça humana, na minha natureza hermafrodita”.

Edmund White foi co-autor de um livro intitulado The Joy of Gay Sex (A Alegria do Sexo Gay). O preço da alegria foi alto para sua geração. Por isso foi tão necessário defender um boteco sujo em Greenwich Village.

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