No Instagram, odiar alguém continua sendo uma maneira de segui-lo

No Instagram, odiar alguém continua sendo uma maneira de segui-lo

Certas contas me prendem justamente por causa da irritação. A raiva também cria vínculo, e as plataformas entenderam isso muito antes de nós

O Brasil, Nordeste à parte, e viva ele, vem realizando o sonho americano de se tornar um país trash. Foram décadas desejando aquela utopia que chegava até nós embalada em cinema, publicidade e, mais tarde, Instagram. Miramos na Califórnia dos Beach Boys e nas garotas nova-iorquinas de Sex and the City e acertamos em cheio na Bible Belt, com crentes histéricos, moralismo, culto ao capital, patrulha da vida alheia e uma fé quase comovente na capacidade do consumo de demonstrar caráter.

Erramos o alvo, mas vida que segue: copiamos os Estados Unidos melhor do que um domingo de culto em Americana e acabamos superando a matriz.

Mas o trash, quando encontra convicção e nenhuma consciência de si, produz momentos extraordinários, e vários deles viraram meus hiperfocos nas redes sociais. Alguns me fazem mal de caso pensado, e volto a eles todos os dias com uma disciplina que jamais consegui aplicar à academia ou aos clássicos da literatura brasileira. São pessoas e formatos que me dão nos nervos, vozes que eu reconheceria numa micareta, caso frequentasse uma, e que por razões pouco edificantes continuo procurando.

O “arrume-se comigo” ocupa um lugar quentinho neste meu inferno particular. Não sei se alguém quer de fato se vestir com essa gente, mas a audiência merece uma explicação. O formato parece recuperar uma cena da adolescência, aquela em que ficávamos sentados na cama de uma amiga enquanto ela experimentava a terceira calça e perguntava se estava bom.

Crescemos, conquistamos alguma autonomia, mas a roupa continua carregando uma angústia miúda de exposição, porque é uma das primeiras escolhas do dia submetidas ao julgamento alheio. A câmera ampliou aquele quarto para milhares de desconhecidos, permitindo a quem grava sair de casa com a aprovação antecipada de uma plateia e oferecendo a quem assiste a familiaridade de uma intimidade à qual jamais seria convidado. É uma curiosa evolução da amizade: já não precisamos conhecer alguém para participar de suas indecisões, e ainda podemos abandoná-lo no meio da conversa sem precisar inventar uma desculpa.

Numa obsessão diluída em curiosidade mórbida, quero ver o sapato, a bolsa, o colar e o resultado, embora saiba de antemão que não vou gostar. Às vezes o desastre vem embalado em monograma, com o logo na fivela, na sandália, no lenço e na alça, e a roupa, mesmo custando um carro popular, não esconde o que tanto dinheiro pretendia disfarçar. Sei que esse olhar diz tanto de mim quanto delas, porque fui criado sob a mesma vigilância de classe que rege o Brasil e reconheço esses códigos por ter sido educado por eles.

Isso deveria bastar para que eu deslizasse o dedo e fosse procurar alguma ocupação de maior valor moral, mas não vou a lugar nenhum: assisto, julgo, implico, me implico e no dia seguinte estou de volta.

Tenho influenciadores de estimação cujos perfis me fascinam pela liberdade de serem o avesso do avesso do avesso de tudo aquilo que o mundo digital preza e tolera: são pessoas desprovidas de qualquer sinal de preocupação com a opinião alheia, provavelmente carnívoras, que talvez ainda bebam e frequentem bingos e botecos. São tão reais e donos de um brilho próprio capaz de cegar até os olhos mais clínicos.

Cris Kras Joas é uma delas e levou o “arrume-se comigo” para o playground de seu condomínio, onde já acumula milhares de publicações desfilando looks com a hashtag #over50, em inglês, para garantir a projeção internacional de seu perfil.

Não tenho provas, mas aposto que é gaúcha, porque ninguém se cobre de pele para dar uma volta no quarteirão sem carregar o minuano no sangue. As botas chegam ao ponto em que o fêmur encontra a bacia, e as combinações parecem saídas de um catálogo de inverno da Macy’s de 1987 encontrado numa sala de espera do dentista. Há qualquer coisa nela que me lembra uma vizinha que voltava do Paraguai com a mala cheia de Crest, Pringles, perfumes sem fixador algum e uma disposição missionária para distribuir as novidades do “Primeiro Mundo” entre os amigos menos viajados, mesmo que made in só Deus sabe. O Paraguai era a América possível, e aquelas excursões produziam uma forma particular de cosmopolitismo: quem trazia voltava com ares de cidadão do mundo, e quem recebia podia finalmente participar dele, nem que fosse na hora de escovar os dentes depois de entupir as artérias com batata frita.

Coleciono também as senhoras da etiqueta, vício que achei ter curado quando escrevi um ensaio sobre elas, sem sucesso nenhum. Todo dia aparece uma me explicando como chupar um sorvete sem perder a dignidade, como abaixar para pegar um objeto do chão com os joelhos colados e a coluna de duquesa, como segurar a taça pela haste. A aula chega com ar de serviço público, pronta para salvar o espectador de um vexame iminente num jantar que ninguém vai oferecer, ensinando a postura certa para um baile que não se vê desde o último do Império. Vejo até o fim, aprendo a técnica do sorvete e continuo comendo picolé na rua como sempre comi, agora com a consciência agravada de minha condição de selvagem.

Já considero voltar à terapia para investigar as negligências parentais que me deixaram sem saber se o guardanapo de papel vai no colo ou permanece sobre a mesa, embora reconheça que meus pais conseguiram me transmitir dois princípios fundamentais da civilização: não palitar os dentes em público e não perguntar a idade de uma donzela. É um repertório modesto para quem pretende circular em sociedade, mas até hoje ninguém me expulsou de um jantar por falta de modos, o que talvez diga mais sobre os lugares que frequento do que sobre a educação que recebi.

Demorei a admitir que certas contas me prendem justamente por causa da irritação. A raiva também cria vínculo, e as plataformas entenderam isso muito antes de nós. Falamos da economia da atenção supondo que ela depende de desejo, interesse, admiração ou curiosidade, quando o algoritmo não exige nada tão delicado: amor, inveja, tesão, fascínio, antipatia e indignação terminam convertidos na mesma moeda, mais alguns segundos assistindo. No Instagram, odiar alguém continua sendo uma maneira de segui-lo, e a verdadeira ruptura exige uma indiferença que ainda não alcançamos.

Encontro um conforto prático nessa irritação pequena. O mundo oferece problemas grandes, distantes e insolúveis, enquanto uma influenciadora combinando uma saia horrorosa com um colete incompreensível devolve por três minutos a felicidade de saber onde está o erro. Não tenho solução para a desigualdade social, o aquecimento global ou a decadência do Ocidente, mas posso afirmar com razoável segurança que aquele cinto não conversa com aquele mocassim, e às vezes é toda a ordem que um dia tem a oferecer.

O hate-watching acaba funcionando como higiene emocional: engolimos por vontade própria um pequeno sapo digital pelo prazer de desengoli-lo logo depois, e quando alguém anuncia que “muita gente me perguntou,” sem que jamais tenhamos cruzado com um integrante dessa multidão, o incômodo familiar já nem dói tanto.

O hiperfoco se instala sem aviso, no tédio ou na euforia, e não depende de folga no trabalho, carência afetiva ou tempo ocioso; costuma aparecer, aliás, quando tudo em volta vai às mil maravilhas, e de repente deixamos de acompanhar um perfil para frequentar uma casa com mitologia própria e personagens secundários. Foi assim que cheguei à advogada Andrea, que entrou para a lista por razões bem diferentes: fico de olho nela para descobrir até onde alguém consegue avançar na internet sem obedecer a nenhum dos códigos que passamos os últimos quinze anos aprendendo.

Andrea é punk de raiz mesmo sem saber, distante da camiseta dos Ramones comprada em loja de departamento, destino melancólico de quase toda revolução quando o varejo descobre que pode estampá-la. Não pede licença estética e parece ignorar que deveria pedi-la: come o que quer, veste o que acredita lhe cair bem, vende modelos de “mula manca” em pura viscose, manequim 46, faz curso de inglês e arranha o idioma a ponto de fazer sangrar nossos ouvidos. Em sua boutique Notre-Dame, na idílica cidade mineira de São Lourenço, vende de um tudo em lives caóticas e usa uma maquiagem tão carregada que faria Elke Maravilha desconfiar da própria vanguarda. Tem um quê de bruxa, da boa, que conhece o feitiço, deseja felicidade para todo mundo e depois vai comer um queijo, porque ninguém merece enfrentar a vida de estômago vazio. Sua liberdade tem qualquer coisa de anterior à obrigação contemporânea de transformar hábitos em declarações de princípios: não há manifesto por trás do brilho, nem uma jornada de autoconhecimento a justificar as aulas no C.C.A.A, e é justamente essa despreocupação que me prende numa época em que até a espontaneidade precisa ser planejada.

Paro por aqui antes que eu a transforme num “símbolo da resistência feminina 50+ na sociedade algorítmica contemporânea,” alguém da FGV organize um seminário e uma marca de cosméticos a chame para uma campanha sobre beleza real, estragando tudo. Andrea não precisa representar porra nenhuma, e quem procurar nela uma tese sobre etarismo ou ressignificação da maturidade vai encontrar uma mulher passando brilho, muito brilho à base de petróleo, se filmando na rua com a lente embaçada e o enquadramento torto, como num filme de Wes Anderson – mas é só ela mesma, com um quibe frito numa mão e a lente do celular engordurada pela outra.

Daqui de Lisboa, onde timidez é sinal de virtude, esses perfis viraram minha maneira de continuar ligado ao Brasil. Há nesse elenco uma familiaridade que nenhuma campanha turística conseguiria reproduzir, feita de manias, excessos, pequenas ambições e uma desenvoltura diante do ridículo que reconheço desde a infância, embora a tecnologia tenha ampliado consideravelmente a plateia. Sinto falta até do que me irrita, e confesso que é uma delícia.

É a minha gente, com uma cafonice e um despudor que filtro nenhum corrige. Enquanto isso, o algoritmo, incapaz de distinguir patriotismo de irritação, registra apenas mais uma visualização, e eu volto amanhã para descobrir se o monograma cresceu ou se a bruxa resolveu retocar o batom depois de traçar mais um naco de parmesão.

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