David Hockney, pintor britânico e um dos artistas mais influentes de sua geração, morreu aos 88 anos, em sua residência em Londres.
Uma figura emblemática e inconfundível, manteve por anos o cabelo loiro platinado, os óculos redondos e um cigarro entre os dedos. Mais tarde, o loiro cedeu espaço à boina e o cigarro, ao pincel ou giz. Avesso aos holofotes: recusou distinções oficiais e manteve uma relação crítica com o establishment.

Identificado com a Pop Art nos anos 1960, Hockney experimentou amplamente ao longo de mais de seis décadas de carreira. Explorou novas formas de representar a perspectiva, produziu paisagens com cores e pinceladas fortes, fez colagens fotográficas, vídeos, cenografias, desenhos no iPad e até experiências 3D.
Ficou conhecido por retratar a vida gay abertamente (e com muito afeto) em uma época em que a homossexualidade era criminalizada na Inglaterra. Para escapar da repressão em seu país, mudou-se para os Estados Unidos. Los Angeles se tornaria sua principal base por quase cinco décadas. Voltou para a Europa antes da pandemia, quando passou a viver grande parte do tempo na Normandia, onde pintou séries que seriam exibidas em sua maior retrospectiva em Paris.

“É o agora que é eterno.” Com essa frase, Hockney abriu o texto que assinou para sua mostra na Fundação Louis Vuitton, em Paris, há apenas nove meses.
Na época, já aos 88 anos, disse em entrevistas que pretendia continuar pintando até morrer. E assim foi.
Hockney foi também um importante pensador. Escreveu ou participou de mais de 20 livros. Os mais conhecidos são Secret Knowledge (2001), em que defendeu a tese de que mestres antigos utilizavam dispositivos ópticos para desenhar e pintar — tema ao qual voltou em obras posteriores —, e David Hockney by David Hockney (1976; edição ampliada em 2016), em que é entrevistado por Nikos Stangos.
Concedeu inúmeras entrevistas, escritas, faladas e filmadas. Sempre de forma direta, lúcida, com humor refinado inglês e uma charmosa timidez.
Tanto em suas pinturas quanto em suas falas, o afeto, a empatia e a simplicidade transpareciam como seus maiores valores.
Em 2018, alcançou um marco histórico ao tornar-se o artista vivo mais caro do mundo em leilão, quando Portrait of an Artist (Pool With Two Figures) foi vendido por mais de US$ 90 milhões. Para ele, isso nunca fez diferença. Sua alegria de vida, o bom convívio com os amigos, o interesse intelectual e o amor à arte sempre foram sua força propulsora. Era o que importava de verdade.

“Poucos artistas passaram mais de sessenta anos desenhando os mesmos temas e as mesmas pessoas. O que tento fazer é aproximar as pessoas de alguma coisa, porque a arte é uma forma de compartilhar. Ninguém se torna artista sem o desejo de compartilhar uma experiência, um pensamento”, escreveu na exposição de Paris.
Sem dúvida, deixou o mundo mais alegre, colorido, e atento à beleza singela do cotidiano.


















