A pintora sueca Hilma af Klint (1862-1944) era desconhecida até poucos anos atrás.
Quando sua obra começou a aparecer em exposições e na mídia, o interesse sobre sua vida e carreira foi tamanho que se ponderou reescrever a história da arte para incluí-la dada relevância de sua contribuição.
O Grand Palais, em Paris, em parceria com o Pompidou, apresenta a mostra Hilma af Klint: Paintings for the Temple, em cartaz até 30 de agosto, com as obras produzidas entre 1906-1915.
Af Klint não foi uma artista convencional, não buscou o reconhecimento em vida, pelo contrário, e não se encaixava em nenhum movimento da sua época — o que talvez justifique porque seus trabalhos tenham sido ignorados por tanto tempo. Além de ser uma artista mulher no começo do século XX.
Em 2018, o museu Guggenheim de Nova York organizou uma retrospectiva da então desconhecida artista que impulsionou seu reconhecimento — que a partir daí chegou rápida e intensamente (vale notar que a mesma exposição passou antes pela Pinacoteca de São Paulo).
Para surpresa dos pesquisadores, os descendentes da artista tinham preservado mais de mil pinturas e milhares de páginas de anotações. Para uma artista que passou despercebida durante sua vida e décadas após sua morte, parecia improvável que tudo que produziu tenha sido preservado por mais de um século.
Ela anteviu que o mundo precisaria de tempo para a compreender. Em seu testamento, deixou a instrução expressa que sua obra permanecesse fora de circulação por, pelo menos, vinte anos após sua morte.
Os 20 anos não foram suficientes para que o mundo se abrisse para sua obra: demoraria quatro vezes mais. Durante os oito anos entre a exposição do Guggenheim e a do Grand Palais foram publicados artigos, estudos, livros e documentários sobre a vida e a produção de Af Klint. Quem visitar a exposição da artista se beneficiará de todo repertório gerado nos últimos anos.

Estão expostas em Paris quase 200 obras, incluindo as dez telas monumentais, que retratam as quatro fases da vida: Infância, juventude, maturidade e velhice, bem como pinturas e desenhos repletos de espirais, símbolos e formas abstratas. Segundo af Klint, as imagens foram transmitidas por entidades espirituais e seu objetivo era que fossem para um templo, construído em formato de espiral (o que o Guggenheim de Nova York mais se aproxima), para que as pessoas subissem como fossem para o céu.
Formada pela Academia Real de Belas-Artes de Estocolmo, af Klint levou uma dupla vida artística: uma produção figurativa de retratos e paisagens, que correspondiam às expectativas de seu tempo — e ela vendia para se manter financeiramente — e, em estúdio, uma obra radical, inspirada na teosofia e nas forças ocultas.
Desde jovem se interessava por práticas espirituais. Em 1896, fundou com quatro amigas um grupo “Das Cinco” — dedicado à realização de sessões mediúnicas. Uma parceira importante na sua vida e na carreira de af Klint, foi a artista Anna Cassel. Atualmente, se discute o papel de Cassel nas obras que estão no Grand Palais, especulando-se uma possível co-autoria; um tema controverso.
Como af Klint, o grupo acreditava estar acessando uma dimensão superior de conhecimento. Uma vez em contato com as forças espirituais, elas traduziriam em seus desenhos a estrutura do universo.
“As imagens foram pintadas diretamente através de mim, por um longo período, com grande força. Eu não tinha ideia do que as pinturas deveriam representar; ainda assim, trabalhei de forma rápida e segura, sem mudar uma única pincelada." Escreveu af Klint em um dos seus cadernos.
Em 1908, af Klint recebeu em seu estúdio Rudolf Steiner, austríaco fundador da antroposofia, e seu mestre. Ela narra que o encontro tão esperado terminou em uma grande frustração. Embora ele tenha dito que suas pinturas eram fascinantes, ele não as reconheceu como arte. Ela ficou baqueada, parou por um tempo de pintar, mas retomou conforme sua convicção.
Muito se discute seu lugar na história da arte e se ela foi a verdadeira pioneira da abstração, já que sua produção é anterior a de Kandinsky e Mondrian. A disputa por quem “chegou primeiro” na corrida para a abstração é tola e ela se furtaria a participar. Ela foi uma artista fiel às suas crenças, buscando de forma incessante sua verdade.
O seu valor está justamente aí.
af Klint acreditava que arte, conhecimento e espiritualidade se completam e estão em constante cooperação, mas é preciso sincronizar mente, corpo e espírito para enxergar o invisível. Isso que ela buscou fazer em vida e deixar nas telas o registro do espiritual como seu legado.















