A minissérie esnobada pelo Emmy que merece toda a sua atenção

A minissérie esnobada pelo Emmy que merece toda a sua atenção

“Pela Metade”, de Richard Gadd, explora a relação conturbada entre dois irmãos, dividida entre terror e fascínio

Na semana passada aconteceu uma das mais importantes premiações da televisão internacional, o Primetime Emmy Awards. 

Muitas das séries e minisséries premiadas são grandes sucessos de público também no Brasil, como The Pitt — série médica ultrarrealista protagonizada por Noah Wyle; O Segredo de Widow’s Bay — um insólito misto de terror e comédia ambientado em uma ilha da Nova Inglaterra; Hacks — com a excelente Jean Smart; e DTF St. Louis — minissérie de humor ácido envolvendo três adultos que se envolvem em um triângulo amoroso.

Lamentavelmente, porém, o melhor programa que vi este ano foi praticamente esnobado.

Em 2024, Bebê Rena (Baby Reindeer), série da Netflix escrita e estrelada por um ator até então praticamente desconhecido do grande público, Richard Gadd, causou furor e faturou alguns dos principais prêmios da televisão daquele ano. Indicada a 11 Emmys, levou seis, entre eles os de melhor minissérie, melhor ator, melhor roteiro e melhor atriz coadjuvante.

Apenas dois anos depois, Gadd lançou outra minissérie, desta vez pela HBO Max: Half Man, ou Pela Metade no Brasil. São apenas seis episódios e, em minha opinião, é a melhor coisa que assisti na televisão este ano.

A série não teve nem de longe a repercussão de Bebê Rena. Talvez tenha pesado o fato de não contar com a mesma máquina de divulgação da Netflix. É uma pena, porque merecia atingir um público muito maior. No Emmy deste ano, recebeu uma única indicação — justamente para Richard Gadd, como ator coadjuvante.

E não se trata de uma série fácil, muito menos agradável de assistir.

Extremamente violenta, Pela Metade toca em temas complexos como homofobia, aceitação, abuso familiar, violência e leva a outro patamar aquilo que costumamos chamar de relacionamento tóxico — e, sobretudo, as consequências que uma relação assim pode produzir ao longo de uma vida.

No centro da história estão dois “irmãos” por circunstância: Niall e Ruben não têm parentesco sanguíneo, mas cresceram como parte da mesma família em razão da relação entre suas mães. São completamente antagônicos e, ao mesmo tempo, ligados de uma maneira quase simbiótica.

Niall é um garoto sensível, excelente aluno, com vocação para escritor, que sofre sistematicamente bullying dos colegas na escola em Glasgow. A situação muda quando Ruben, o “irmão” que cumpria pena por um episódio de violência, é libertado e passa a frequentar a mesma escola.

Ao mesmo tempo aterrorizado e fascinado por Ruben, Niall rapidamente percebe seu lugar naquele ambiente mudar. 

Ruben se transforma em seu escudo contra o bullying. É uma bomba-relógio, permanentemente à beira de explodir em violência, mas também carismático, sedutor e capaz de exercer sobre os outros — especialmente sobre Niall — um magnetismo difícil de explicar.

E Niall se torna literalmente obcecado por ele.

Em apenas seis episódios, a série alterna entre juventude e vida adulta, revelando aos poucos como aquela relação se construiu, se deformou e contaminou a vida dos dois ao longo dos anos. 

O recurso temporal funciona especialmente bem porque nossa percepção dos personagens também vai se modificando à medida que novas peças são acrescentadas à história.

Nem sempre é fácil assistir. Certamente não é uma série para todo mundo. Mas é, para mim, uma das produções mais impactantes dos últimos tempos.

E tem atuações excepcionais, com destaque para Jamie Bell, como Niall adulto; Stuart Campbell, como Ruben na juventude; Mitchell Robertson, como Niall jovem; e, principalmente, Richard Gadd, extraordinário como o Ruben adulto.

Seis episódios. E só uma indicação ao Emmy.

Pouco, muito pouco.

Siga o Page9 no Instagram — e assine a newsletter