O segredo do figurino maximalista de “Emily in Paris”

O segredo do figurino maximalista de “Emily in Paris”

Atração principal do Iguatemi Talks Fashion, Marylin Fitoussi fala sobre estilo e por que a perfeição na moda pode ser entediante

Maximalista e zero ligada a tendências, Marylin Fitoussi conseguiu criar um dos figurinos mais controversos e memoráveis do streaming.

Emily, que conquistou Paris com sua ousadia e simpatia, é fruto do trabalho da francesa, que assina as produções de Emily in Paris, série da Netflix que chega à sexta e última temporada em 24 de dezembro. 

Antes disso, Marylin vem ao Brasil para o Iguatemi Talks Fashion que chega à décima edição com painéis sobre as transformações, os desafios e o futuro da indústria. O evento acontece nos dias 20 e 21 de outubro. 

Antes de subir ao palco do evento, onde será entrevistada por Paula Merlo, editora-chefe do Page9, a francesa fala com exclusividade ao Page9. “Muita gente não entende a diferença entre figurinista e stylist,” diz. 

Seu currículo começa muito antes de Lily Collins vestir os looks de Emily. “Já trabalhava há 27 anos com figurino, mas em filmes de época e produções contemporâneas mais convencionais. Eu me interessava mais por roupas do que por moda,” diz.

Quando começou a série, há sete anos, Marylin conta que sabia pouco sobre o mundo da moda e não acompanhava grandes estilistas ou tendências. “Eu sequer tinha Instagram quando comecei. Depois da segunda temporada de Emily in Paris, passei a explorar a plataforma e foi assim que conheci vários designers.”

Sem orçamento, contatos ou acesso às grandes grifes, na primeira temporada Marylin recorreu às lojas vintage e aos brechós para construir a identidade dos personagens. “Foi justamente isso que deu à série um visual tão particular.” Seu processo ganhou até um livro: Emily in Paris: The Fashion Guide, publicado pela Assouline, que reúne referências, esboços e bastidores da criação dos figurinos.

Assim como a protagonista da série, Marylin também morou fora e, sem falar a língua local, encontrou na roupa uma forma de se comunicar. “Morei na Cidade do México e, de certa forma, eu também era uma Emily. Como não falava espanhol, mostrava aos locais que eu amava sua cultura e passei a vestir huipiles, aquelas túnicas bordadas. A camiseta com a Torre Eiffel que Emily usa veio dessa experiência pessoal.”

Surpresa com o tamanho do sucesso da série no Brasil, Marylin conta que ainda não trabalhou com estilistas brasileiros. “Já usei criadores peruanos, mexicanos e de outros lugares da América Latina, mas o Brasil ainda falta nessa lista.” A visita, espera ela, pode mudar isso. “Parte do sucesso da série é mostrar criadores e marcas do mundo inteiro, inclusive nomes que o público ainda não conhece. O Brasil está faltando. Talvez também possamos descobrir marcas brasileiras de acessórios.”

Quando a conversa sai de Emily in Paris e chega ao atual momento da moda, o tom muda. Dos robôs na passarela às exigências financeiras que atravessam o processo criativo nas maisons, Marylin se preocupa com o espaço que resta para a criatividade – e para uma imagem própria. “É um momento delicado. Antes, as casas tinham identidades fortes. Agora, muitas parecem perdidas: não sabem para quem estão criando, como vender ou em que se concentrar.”

Tendências também não estão entre suas prioridades. “Me interesso pela beleza atemporal e pela criatividade. Quero colocar a roupa no centro, em vez de fazer do desfile um espetáculo sobre quem está na primeira fila e quais influenciadores foram pagos para estar lá.”

Marylin toca, então, em uma pergunta que parece cada vez mais difícil de responder: até onde vai o estilo pessoal – ou será que estamos todos ficando iguais? “Quando comecei, as pessoas iam aos desfiles porque amavam as marcas. Hoje você vê alguém usando Balenciaga de manhã e Miu Miu à tarde. Que relação essa pessoa tem com as roupas?”

Talvez a resposta esteja em como construímos nosso repertório. Marylin não é contra as referências da internet – diz, inclusive, ser fã do Pinterest –, mas mantém os olhos atentos a quem passa à sua frente. “Quando começo um projeto, seja contemporâneo ou de época, tenho dois lugares em Paris onde gosto de sentar e observar a cidade: um em cada margem do Sena. Também ando de metrô para ver como as pessoas se vestem.”

Sua primeira fonte de inspiração e pesquisa, porém, continua sendo o cinema. Quando perguntamos sobre um filme favorito, ela não precisou pensar muito: “Amo o primeiro Blade Runner, de 1982. Há uma mistura de futuro com referências de outras épocas: uma personagem correndo com uma capa de chuva transparente, depois a Rachael com ombros marcados e penteado dos anos 1940.”

A inspiração também vem da disposição de continuar aprendendo. Marylin cita os jovens estilistas, sua equipe, os amigos e Sandy Powell, de quem adoraria ser assistente. “Para mim, ela é a melhor de todas: ousada, destemida, sempre encontra soluções.” No Brasil, espera acrescentar novos criadores à lista.

Depois de tantos anos observando roupas, pessoas e personagens, Marylin ainda procura o que pode surpreendê-la – mesmo que alguém deteste o resultado. “Detesto a perfeição. Não quero que o público fique entediado e diga apenas: ‘Que bonito.’ Quero que ainda haja algo para discutir, um choque de cores, um look sobre o qual alguém diga: ‘Não!’ Se tudo for apenas bonitinho, fica terrível.”

O Iguatemi Talks Fashion já está com ingressos à venda e a programação acontece em dois lugares simultâneos dentro do JK Iguatemi. O bate-papo entre Paula Merlo e Marylin Fitoussi acontece no dia 21 de outubro, a partir das 19h. Quer saber mais? Clique aqui.

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