Eslovênia – Em Nova York, já me aconteceu algumas vezes de tentar pagar algo em espécie e eles não aceitarem. Agora já estou acostumada, mas no começo foi bem estranho. Como assim não pode pagar com dinheiro?
Semana passada estive na Eslovênia, e ouvi algumas vezes: zit iz cash only miz. Voltei para um ATM depois de muitos anos, torcendo para aquela impressora de bilhetes funcionar. Viajar para a Eslovênia é, de certa forma, voltar no tempo.
O país tem um lado bastante avançado e relevante na área de tecnologia e finanças, mas sua história segue presente. E que história! Depois de ser governada pelo Império Romano e Bizantino por quase mil anos, foi controlada pelos venezianos durante o Renascimento. Então foi tomada pelos austríacos até a Segunda Guerra Mundial, quando passou a fazer parte da Iugoslávia. Conquistou, finalmente, sua independência em 1991.
Coloque tudo isso no liquidificador, adicione uma posição geográfica bastante particular — é vizinha de muro da Itália, Áustria, Hungria e Croácia, porta de entrada dos Bálcãs, local de encontro entre a Europa e o Oriente — e mexe; dá uma bela mistura.

Em Liubliana, a capital, vi palacetes austríacos ao lado de construções soviéticas brutalistas. Nas montanhas, estradas sinuosas em meio a florestas e lagos turquesa que lembram as Dolomitas e os Alpes Suíços. As pessoas não são ultra simpáticas — é verdade que a nossa régua é bem alta — mas também não se levam tão a sério como os helvéticos; é tudo um pouco mais informal.
Da Itália, atravessam delícias como a pizza, além de técnicas para aperfeiçoar a produção do vinho, azeite e queijos. É menor, mais seguro e barato que a vizinhança. Tem turistas, mas ainda é possível encontrar cantos tranquilos.
Enquanto tudo nos EUA caminha para o digital e robotizado, parece que a Eslovênia resiste à ultra modernização, por escolha. Olha para o futuro, mas honra sua história.
A capital pode ser visitada em um dia; tem 270 mil habitantes (o país todo tem pouco mais de 2 milhões). Ficamos no AS Boutique Hotel; ótimo e bem localizado. Tem um terraço com vista para o castelo, além de 3 restaurantes: o mais despojado Pop’s, o tradicional Gostlina AS e o Jaz da chef Ana Roš (mais sobre ela adiante).
O passeio clássico envolve subir até o castelo para ter uma vista de toda a cidade — pode ser feito a pé ou de funicular — e cruzar as famosas pontes que atravessam o rio Ljubljanica, que separa o antigo centro da parte mais nova. O lado mais velho é bem pitoresco, mas o que mais gostei foi observar a arquitetura na margem moderna; tanto os da época socialista — principalmente a Praça da República — quanto os do período Art Nouveau, em especial o Cooperative Business Bank de 1921.

Terminamos o dia com um drink na beira do rio no descolado TaBar, e jantamos no Georgie Bistro, onde tivemos o primeiro contato com a culinária da região. O restaurante está no guia Michelin — eles chegaram na Eslovênia em 2020. A gastronomia do país tem se desenvolvido bastante nos últimos anos.

De Liubliana, dirigimos até Soča, passando pelo famoso Lake Bled. Não ficamos, já que nos pareceu bem turístico e fica cheio durante o verão, mas é bonito. Paramos para nos refrescar no Lago Jasna — o menor e mais gelado dos que visitamos — e de lá seguimos até o nosso destino, o Vale do Rio Soča, passando pelo passo Vršič. Esse trecho é conhecido por ser um dos mais bonitos do país; é realmente de tirar o fôlego.
Na fronteira com a Itália, o vale foi a área que mais me encantou. O rio é conhecido pelos seus tons de turquesa, e suas trutas. É deslumbrante! Fiquei até tonta com a quantidade de atividades que oferece: trilhas, ciclismo, rafting, kayak, paraquedismo, cachoeiras, cavalgadas… É o paraíso para quem gosta de natureza, esportes e aventura.

No dia seguinte, depois de tomar um café da manhã reforçado com produtos locais entregues no quarto, fizemos uma rápida caminhada até a nascente do rio Soča e seguimos até as cachoeiras de Zapotok. É um caminho plano e não muito exigente que beira o leito de um rio e leva duas horas. Quem quiser fazer uma trilha mais longa pode combinar com o percurso que vai até a cabana na montanha (o nome oficial é Zavetišče pod Špičkom).

Fizemos um piquenique na floresta ao final da caminhada, e de lá seguimos até Bovec, de onde saiu nosso passeio de kayak. Foram 2 horas navegando pelo rio, em uma das paisagens mais mágicas que já vi. Aliás, descobri no passeio que as Crônicas de Nárnia foram filmadas ali. Faz todo sentido.
Terminamos o dia com um jantar em um lugar bem simples, o Gostišče Hedvika, em que provei pela primeira vez a truta local; uma delícia! O melhor restaurante da cidade é o Bistro 9:45. Em um pequeno vilarejo um pouco mais adiante existe o Mangrt, que funciona com menu degustação em uma antiga fazenda. Ambos precisam ser reservados com uma certa antecedência na alta estação.
Nos despedimos de Soča com uma experiência inesquecível; almoçamos no Hiša Franko, o restaurante 3 estrelas Michelin da chef Ana Roš. A importância dela para a gastronomia do país é tamanha que tem até um episódio do Chef’s Table dedicado a ela.
Para chegar lá, é preciso dirigir alguns quilômetros a partir de Bovec, passando por um lindo corredor de árvores. O restaurante ocupa uma casa rosa, que está na família do ex-marido de Roš há 50 anos. Quem quiser, pode passar a noite; parece que o café da manhã também é incrível.
Foi uma refeição impecável; a forma como ela conseguiu trazer o vale e suas riquezas para a comida é única. Ah, e a chef da confeitaria é brasileira, de Santos!

Para ir de Soča até o Lago Bohinj, a nossa próxima parada, é possível passar pela Itália. Na fronteira está o lindíssimo Lago Predil e a montanha Mangart, a quarta mais alta da Eslovênia. No caminho também cruzamos o maravilhoso Parque Nacional Triglav; dirigir pelas estradas do país é um programa por si só!
O Lago Bohinj é enorme — tem 11 km de circunferência — e é um destino popular para o esqui no inverno. No verão, é o local perfeito para explorar o Triglav, seja a pé ou de bicicleta (fiquei impressionada com a quantidade de ciclistas que vi na Eslovênia!). Vale também dar a volta no lago; ele muda bastante ao redor, e tem lugares ótimos para nadar em águas transparentes ao longo de todo trajeto. Uma pequena trilha que sai dele — a “fairy trail” — é linda e divertida para crianças. Aliás, o que mais vi no lago foram famílias e grupos de jovens com cara de estudantes.

O hotel em que nos hospedamos, o Hotel Bohinj, é grandioso e pensado para famílias. Acabamos jantando nele mesmo, mas anotei o nome de outro — Majerca — que fica dentro de um hotel boutique.
Bohinj fica convenientemente localizado há 75 minutos do aeroporto, fazendo dele uma boa opção para começar ou terminar a viagem. Fui embora encantada, sentindo que vivi em um conto de fadas por alguns dias. Famílias aventureiras, casais que curtem estar na natureza, jovens exploradores, e viajantes solo, não deixem de ir!















