A Era de Aquário mal começou (segundo consta nos autos paraísos) e já disse a que veio. Parece que está no ar uma versão ainda mais dissociada do New Age, quando os hippies dominaram o mundo até os pais cortarem a mesada. Não que eles tenham sumido do mapa, estavam apenas disfarçados de yuppies e hipsters, infiltrados nas agências de publicidade e faculdades de design, esperando a moda da bata com bota voltar.
Com carta branca para alucinar de vez num mundo medicado e sem bula, nossos rebeldes sem causa reapareceram jurando estarem em equilíbrio perfeito. Sim, nada mudou, talvez a procedência do sândalo, que deve ser DOC de Mysore. O que antes chamávamos de guru, hoje atende por influenciador; uns trocaram de plataforma, alguns de roupa, mas nenhum de discurso. No Instagram, encontraram um ambiente, quer dizer, ecossistema (para usar o termo do momento), muito mais eficiente que igreja, retiro ou terreiro para espalhar as mensagens do astral.
Mas vamos à novidade. Meu algoritmo, sempre ciente que não sou dado a coisas do fast faith, trouxe para mim uma série de vídeos com mulheres lindíssimas se comunicando com seus seguidores em uma linguagem, para ser o mais direto possível, particular. Parece um refrão de Maria Gadú misturado a uma estrofe de João Bosco com arranjos de Carlinhos Brown entoados por Tetê Espíndola no Ginásio Clube de Rio das Ostras, mas não. Não é.
Movimentando as mãos e dizendo coisas como “chapatá, fachá, sharamana, catarrá”, elas não cantam exatamente, não rezam, tampouco parecem conversar com alguém que esteja presente. Trata-se de light language, ou linguagem de luz, e estamos diante de mais uma contribuição da turma “podes crer” para um mundo que já tem problemas suficientes. Segundo seus praticantes, aqueles sons não precisam significar nada no sentido vulgar em que português, inglês ou mandarim dizem alguma coisa.
Seriam códigos, transmissões capazes de agir sobre aquilo que eles chamam de energia. Existem sessões para limpar a linhagem feminina, liberar memórias celulares, encontrar a pessoa amada e desbloquear a abundância. A novidade está mais na embalagem do que no conteúdo; o fenômeno lembra bastante a glossolalia, o velho “falar em línguas”, conhecido há séculos em diferentes contextos religiosos, com raízes fundas nas tradições pentecostais. A diferença é que o Espírito Santo perdeu participação de mercado para o Universo, a possessão virou canalização, a graça tornou-se vibração, o milagre agora atende por manifestação e o dízimo ganhou checkout. Não acabamos com a superstição; só demos a ela direção de arte.
Por algum tempo, houve a esperança de que o advento dos clubbers tivesse resolvido a questão hippie. Saíram as túnicas indianas e as bolsas balinesas de palha, entraram as calças de vinil, o incenso foi substituído pelo Vicks VapoRub, alguém quebrou o LP de Grateful Dead e colocou techno num long set de três dias numa rave onde banheiro químico só servia para quem estava com muita química na veia.
Parecia razoável concluir que a humanidade havia evoluído pelo menos neste aspecto. Existe uma máxima, cuja autoria já vi atribuída a tanta gente que prefiro não colaborar com a desinformação, segundo a qual todo punk é um sujeito bonzinho tentando parecer mau e todo hippie é um sujeito mau tentando parecer bonzinho. É uma generalização monstruosa, portanto irresistível, sobretudo porque o punk queria destruir a sociedade e acabava morando com a mãe, enquanto o hippie queria salvar a humanidade e, não raro, começava infernizando a própria família.
O tempo tratou de confirmar outra regra: para cada hippie existe um rico por trás. Não é preciso ser milionário, sejamos justos, mas alguém precisa manter a infraestrutura enquanto ele rejeita o sistema. Pode ser o pai, a mãe, uma avó proprietária de três apartamentos, uma namorada empregada, um marido compreensivo ou algum antepassado que teve a pachorra de acumular capital antes que o descendente descobrisse que dinheiro é energia. Os anos 1970 deixaram isso bastante claro: é muito mais fácil abandonar a sociedade de consumo quando alguém continua pagando a conta da luz.
O hippie contemporâneo sofisticou bastante essa operação. Já não precisa morar numa comunidade, fazer o próprio kéfir nem dividir uma casa com 17 pessoas, cinco delas chamadas Lua. Pode viver em Ibiza, Tulum, Bali, Trancoso ou qualquer outro lugar onde haja kombucha e a revolução espiritual tenha o metro quadrado acima de cinco mil euros. Tampouco precisa declarar-se hippie, palavra que envelheceu mal e lembra sovaco com bicarbonato de sódio. Agora ele trabalha com consciência, frequência, cura ancestral, manifestação, expansão, códigos da alma e uma quantidade impressionante de atividades cuja descrição profissional não permite entender direito o que a pessoa faz durante o dia.
Por trás da alucinose existe algo que me interessa mais do que o “chapatá-fachá” propriamente dito. É uma espécie de transcendência pela fuga, uma espiritualidade sem chão que promete nos elevar ao dispensar o inconveniente de permanecer aqui embaixo. E toda retirada bem-sucedida, cedo ou tarde, olha para baixo.
Quem diz que “vibra alto” constrói, sem querer ou desejando muito, uma escada invisível: lá embaixo ficam os que ainda comem carne vermelha, tomam remédio controlado, se irritam no trânsito e nunca foram a um ashram em Rishikesh. Os praticantes preferem não dar nome a isso, mas o nome existe, e é simples: arrogância espiritual. É a convicção de que o próprio sofrimento foi processado numa frequência superior à da dor alheia, e de que quem ainda não entendeu isso apenas não fez o trabalho interior necessário. A ideia é confortável porque transforma qualquer discordância em prova de que o outro ainda não alcançou aquele estágio, e soa como as antigas doutrinas da graça que essa gente jurou ter abandonado.
Até para falar uma língua que existe é preciso estudar. É necessário aprender vocabulário, gramática, sintaxe, descobrir que os verbos irregulares foram inventados por alguém que odiava estrangeiros, errar, insistir, ler, ouvir e passar pela humilhação de perceber que depois de seis meses de francês ainda não se entende o padeiro. A linguagem de luz resolveu isso de maneira espetacular: criou um idioma no qual ninguém pode corrigir você. Sem gramática, dicionário ou falante nativo para estragar a experiência, qualquer erro pode ser promovido, sem esforço nenhum, a mensagem do Universo.
É uma solução sob medida para uma época que desenvolveu certa alergia ao aprendizado quando ele envolve repetição, disciplina e a possibilidade desagradável de descobrir que não nascemos talentosos. Não é preciso estudar sânscrito para acessar uma tradição milenar, conhecer a história de uma religião, ler Jung, Freud, Blavatsky ou mesmo aquele livrinho de introdução ao budismo que está há oito anos na mesa de cabeceira. Basta fechar os olhos, levantar as mãos diante da câmera e receber o download. Caso a cognição esteja falhando, sempre podemos recorrer ao campo da prática. Não se trata de mandar ninguém procurar emprego, longe disso, mas fazer a própria cama pela manhã já é um progresso e tanto para quem anda sem nenhum grounding. Varrer uma casa é excelente, botar uma máquina de roupa para lavar também, lavar prato nem se fala... Poucas experiências são capazes de nos devolver ao presente e nos regular com tanta eficiência quanto deixar a casa um brinco; uma faxina oferece uma vantagem extraordinária: ao contrário do ritual do cacau, no final dá para saber se alguma coisa foi limpa de verdade.
É a realidade que torna a vida concreta tão pouco atraente. Resistir é isso: o chão continua sujo se ninguém pegar a vassoura, o relacionamento continua péssimo se ninguém mudar de comportamento, a conta bancária permanece indiferente ao nosso estado energético e a roupa não é centrifugada pela força do pensamento. Nesse território, ao contrário, todo fracasso pode ser incorporado à própria explicação – se a cura não aconteceu, é porque havia uma camada mais profunda. A alma gêmea, é claro, também tem explicação: ela existe, só ainda não apareceu porque o momento não estava certo. É um sistema perfeito porque jamais pode estar errado; quem está errado é sempre você.
Por trás dessa profusão de portais, regressões, memória ancestral e cura xamânica existe um vazio do tamanho de toda e qualquer angústia. Perdemos, nas últimas décadas, boa parte das estruturas que durante séculos ofereciam respostas prontas para perguntas impossíveis, e ninguém ficou nem um pouco confortável com o resultado. O que estamos vivendo, sem cerimônia nem diagnóstico oficial, é uma crise espiritual em formação, que não tem igreja para presidi-la nem clero para geri-la, mas carrega os mesmos sintomas de urgência que a palavra crise sempre impôs.
A religião perdeu autoridade para muita gente, a família deixou de ser missão ou destino e o trabalho já não garante identidade. O casamento não assegura mais permanência, e a ciência, essa estraga-prazeres, explica às mil maravilhas como as coisas funcionam sem oferecer resposta nenhuma para o fato de estarmos aqui. Abriu-se, assim, um mercado extraordinário para quem consegue transformar agonia em narrativa.
Nisso a New Age é genial: não existe sofrimento que não caiba dentro dela. A solidão vira desconexão e a ansiedade, um bloqueio energético. Até o fracasso amoroso ganha ares de karma herdado, como se relacionamentos ruins seguidos fossem menos sobre as escolhas de quem os fez e mais sobre uma herança a ser processada em alguma constelação familiar. Falta de dinheiro, então, passa a ser uma relação mal resolvida com abundância, o que é, convenhamos, uma forma bem mais elegante de nunca abrir a planilha. Para cada sofrimento existe uma explicação vaga para não poder ser desmentida e bem pessoal para parecer uma revelação. É uma espécie de psicanálise sem Édipo, religião sem pecado e capitalismo sem culpa, com a vantagem adicional de que, se não funcionar, o Universo jamais terá responsabilidade. Claro, você ainda não estava pronto.
Se gostou deste texto, escreva PIRACANGA nos comentários e eu envio uma mensagem telúrica de Baby do Brasil ou um CD com os salmos na voz de Cid Moreira. Use seu livre arbítrio.















