Aviso aos navegantes! Portugal saiu de moda: o país que até dias desses era sossego, sardinha e saudade, gentrificou, encareceu e, pecado mais grave ainda, ficou óbvio, sequestrado pelos tempos modernos antes mesmo de conseguir atualizar seu software – ou soft power, como preferir.
No maior kindergarten hipster da Europa (quase Magreb), saiu de cena o pastel de nata enquanto sai do forno mais uma rodada de carrot cake no café mais desmaiado da cidade, onde a bica escaldada em chávena morna esfria à medida que esquenta a fila para o flat white matcha to take away. A garrafeira do velho Silva ganhou chá de revelação e renasceu como wine bar pelas mãos de um sobrinho que voltou cheio de ideias depois de três meses estudando design na Uni Duni Tê de Milão.
Calma que tem mais imagens para você vislumbrar a nova Lisboa: a velha pastelaria do bairro recebeu uma demão de pigmento azul Majorelle nas paredes, onde uma oliveirinha humilhada dentro de um vaso de cerâmica, feito numa olaria ao lado do studio de hot yoga da mais nova francesa do pedaço (vegana e com lenço eslavo enrolado na cabeça), adoece entre duas cadeiras escandinavas. Elodie, ex-publicitária de Lyon, que ainda não fala português mesmo depois de dez anos em solo lusitano, faz os melhores croissants e reels do Príncipe Real: os preços da boulangerie, anunciados em Helvetica minúscula, aumentam conforme o número de seguidores. Cansou? Pois...
Lisboa, que no início do século 21 tinha potencial para se tornar-se uma nova Berlim, viu em poucos anos um raio gourmetizador cair sobre sua rotina. A capital alemã, pelo menos, oferecia rebeldia, anarquia, clubes clandestinos e artistas que de fato não tinham dinheiro; Lisboa recebeu kombucha, pilates reformer e profissionais de tecnologia que dizem estar “based in Lisbon” embora passem metade do ano entre San Francisco e Bali.
Portugal esperou a chegada do futuro desde que perdera o último comboio da Revolução Industrial: vieram as startups, os incentivos fiscais, os apartamentos “retrofitados”, os restaurantes onde o bacalhau aparece desconstruído porque, ao que tudo indica, 400 anos de expertise não foram suficientes, e chegaram também palavras novas para fenômenos bastante antigos. O pobre que muda de país continua imigrante, o rico vira expat – e trabalha no seu laptop no coffee shop e atende por nômade digital. É uma das pequenas obras-primas semânticas do capitalismo post-modern: a mesma fronteira, atravessada com a mesma mala, muda de nome conforme o CEP de origem – em miúdos, a atitude varia conforme a latitude. Os três carregam bagagem ao cruzá-la, mas a diferença entre necessidade e lifestyle, descobrimos, cabe numa legenda.
Portugal colaborou com entusiasmo na fantasia. Depois de gerações exportando seus filhos para França, Luxemburgo, Suíça, Brasil, Angola, Austrália, Reino Unido, Vênus, Estados Unidos e qualquer lugar onde houvesse trabalho, notou que receber gente pagando em moeda forte podia ser apresentado como política de desenvolvimento. O país abriu os braços, levantou as pernas, fez o buço, ofereceu vantagens fiscais e imóveis a preços ainda razoáveis e, por alguns anos, pareceu de verdade surpreso com o fato de tanta gente ter aceitado o convite. Quando se deu conta, metade do país estava perguntando se o pequeno-almoço incluía avocado toast.
Nisso mora uma ironia histórica irresistível. A Europa passou séculos descobrindo terra alheia, ocupando, convertendo, redesenhando fronteiras e levando para casa aquilo que coubesse no navio; agora experimenta uma versão imobiliária e bem mais confortável do mesmo processo. Os invasores chegam de Ryanair com mochilas North Face, exigindo não ouro, mas fibra ótica, sol 300 dias por ano e o dois quartos com “authentic Portuguese tiles”, numa colonização contemporânea que vem com cinco estrelas no Airbnb e recomendações de restaurantes “where locals actually go”.
O português assiste a tudo com uma mistura muito nacional de indignação e resignação, como quem sempre suspeitou que o destino acabaria fazendo alguma sacanagem. Passou décadas desejando que Lisboa fosse mais globalizada e, quando ela finalmente ficou, passou a só ouvir inglês na mesa ao lado e a não conseguir pagar o próprio aluguel. Queria turistas, mas não tantos; queria investimento estrangeiro, contanto que não comprasse a casa do vizinho; e uma capital internacional, desde que ninguém descobrisse a tasca da esquina.
Também seria cômodo demais transformar os nômades digitais em vikings de tote bag responsáveis por todos os males da Península. Governos criaram incentivos, proprietários descobriram o alojamento local, investidores fizeram contas, restaurantes viram que alguém pagaria 14 euros por ovos mexidos e os próprios europeus aderiram com entusiasmo à democratização do fim de semana fora do país.
O lisboeta que reclama dos franceses em Campo de Ourique pode perfeitamente estar, na sexta-feira seguinte, ocupando um apartamento turístico em Sevilha, enquanto um sevilhano reclama dele; Barcelona empurra turistas para Lisboa, que os empurra para Roma, que os empurra para Paris, enquanto todos publicam manifestos contra o turismo de massa antes de correr para o portão de embarque.
A transformação mais curiosa, no entanto, é estética antes de ser econômica. Viajar costumava significar encontrar diferenças; hoje, cada vez mais, é reencontrar as mesmas ofertas em outro endereço: o café de especialidade, a padaria de fermentação natural, a loja de cerâmica imperfeita e caríssima, o restaurante de mesas de madeira clara e pratos pequenos para compartilhar, o coworking cheio de gente trabalhando para empresas que não ficam naquele país – e nada pode fugir do manual de identidade visual criado por alguém que nunca precisou fazer uma faxina na vida.
Lisboa não perdeu a personalidade, seria melodramático demais decretar isso enquanto ainda houver uma senhora sacudindo um tapete pela janela sobre a cabeça de alguém, mas tornou-se palco de um fenômeno interessante: a tradução de uma cidade para uma versão de si mesma legível em qualquer lugar do mundo, feita de azulejo, elétrico, sardinha, miradouro, vinho verde, pastel de nata e tuc tucs trazidos de algum lugar da Ásia onde portugueses estiveram em algum momento entre o século 15 e o show de Amália Rodrigues no Canecão. Portugal levou tempo para descobrir o que fazer com a própria melancolia e por fim encontrou a resposta: alugá-la por temporada.
Os lusos que me lerem provavelmente vão reclamar, porque reclamar de tudo é esporte nacional praticado aqui com orgulho olímpico, mas nunca considerei estar na moda um elogio. Prefiro o vintage e todo o atraso civilizacional que a palavra carrega, ainda que isso soe bovarista, vigarista, otimista ou tropicalista, dependendo de quem julga. Tampouco quero fazer coro com o “vão para as vossas terras” que tanto se ouve por aqui, frase que os portugueses guardam na manga para as ocasiões certas. Portugal, por uma década, foi eldorado analógico e hub tecnológico, refúgio da turma party fatigue, terra prometida dos aposentados e playground dos trabalhadores remotos. Agora o nômade mais atento já fareja outros horizontes, porque até o paraíso fica desagradável quando a nuvem, neste caso o iCloud, fica pesada demais. Spoiler: atenção Atenas porque aí vão eles!
A parte boa de ter saído de moda é que muita gente que veio por esta razão também já foi embora – caçadores de tendência sedentos de hype entediam-se facilmente, seja de país, amigo ou amante. A terrinha, que já não é a prometida, dispõe de métodos próprios para separar visitantes de residentes: resistência, conformismo, burocracia, teimosia, pessimismo e uma ternura que só aparece depois de vencidas várias etapas eliminatórias, que pode durar uma eternidade.
Portugal exige intimidade, não intensidade, mais rotina que dopamina... É importante frequentar o mesmo café, suportar o mesmo empregado mal-humorado até que um dia ele diga “bom dia” com açúcar e quase com afeto, conhecer a vizinha durante anos e descobrir que ela sempre gostou de você, que aquela cara de poucos amigos tem mais a ver com mau humor que falta de amor, e aceitar que certas manias ou quase tudo continuarão exatamente como estão porque se melhorar, estraga.















