Mestre Zu — como era chamado por muitos amigos, colegas e, principalmente, discípulos — foi, ele mesmo, quase que uma escola de jornalismo.
Em mais de sete décadas de carreira, Zuenir comandou redações, deu aulas em faculdades, abriu espaço para novos talentos e contribuiu com reportagens — muitas delas premiadas — que iluminaram temas e pessoas.
Zuenir morreu nessa terça-feira, aos 95 anos, em decorrência de uma pneumonia. O velório do jornalista será amanhã, aberto ao público, na sede da Academia Brasileira de Letras (ABL), no Centro do Rio de Janeiro, nesta quarta-feira. O enterro ocorrerá no Cemitério São João Batista, em Botafogo.
Filho de um pintor de parede e de uma dona de casa, Zuenir Carlos Ventura nasceu no dia 1º de junho de 1931, em Além Paraíba, Minas Gerais. Aos 11 anos, mudou-se com a família para Nova Friburgo, na região serrana do estado do Rio, e aos 20 anos chegou ao Rio de Janeiro para cursar a faculdade de Letras Neolatinas na Universidade do Brasil (atual Universidade Federal do Rio de Janeiro, a UFRJ).
No jornalismo, ele estrearia como arquivista da Tribuna da Imprensa, mas permaneceria pouco tempo na função. Logo chamaria a atenção de Carlos Lacerda, diretor do jornal, que buscava alguém na redação para escrever um artigo sobre o filósofo franco-argelino Albert Camus, que tinha morrido em um acidente de carro. Zuenir, que conhecia o personagem e dominava o assunto, se ofereceu para a tarefa. Foi aprovado.
A partir de então, Zuenir — depois de uma temporada na França como bolsista no Centro de Formação de Jornalistas, de Paris — não pararia mais. Passou pelo Correio da Manhã, foi diretor de redação da revista Fatos & Fotos, chefe de reportagem da revista O Cruzeiro, editor-chefe da sucursal carioca da revista Visão e, em 1967, foi um dos criadores do jornal alternativo O Sol.

Sem nunca abandonar o mundo jornalístico, Zuenir foi ainda professor da Escola de Comunicação da UFRJ e da Escola Superior de Desenho Industrial. E, como passou grande parte da vida dentro de uma redação, nada mais natural que fosse nesse ambiente que Zuenir Ventura conheceria sua mulher, a também jornalista Mary, com quem casou e teve dois filhos.
Mesmo com os cargos de chefia, Zuenir sentia que sua essência estava na reportagem. E, entre tantos temas que ele soube abordar e relatar, alguns se destacaram.
Em 1989, quando era repórter especial do Jornal do Brasil, Zuenir aceitou passar uma temporada no Norte do Brasil para produzir uma série de reportagens sobre o assassinato do seringueiro e líder ambientalista acreano Chico Mendes (1944-1988). O trabalho foi reconhecido com os prêmios Esso e Vladimir Herzog e daria origem a um novo livro, Chico Mendes – Crime e Castigo, lançado em 2003.
Outra reportagem de fôlego e de imensa repercussão foi a que revelou o Rio de Janeiro dividido de maneira social, política e econômica. O material resultou no livro Cidade Partida, publicado em 1994.
Mas seria em uma volta ao passado que Zuenir Ventura deixaria seu legado mais importante. Como testemunha ocular da história, Zuenir viveu os agitados anos da segunda metade da década de 60. Sua visão sobre aqueles episódios seria condensada em 1968 – O Ano que não Terminou. Lançado em 1988, 20 anos depois dos acontecimentos centrais, o livro seria um best-seller imediato.

1968 – O Ano que não Terminou não era apenas um relato pessoal — Zuenir ficou na cadeia durante três meses, dividindo a cela com o psicanalista Hélio Pellegrino — mas também uma extensa descrição de como o Brasil viveu a fase mais violenta da ditadura militar iniciada em 1964 e agravada a partir de dezembro de 1968, logo após a decretação do AI-5.
Em uma carreira que incluiu passagens por algumas das redações mais importantes do Brasil (Jornal do Brasil, O Cruzeiro, Tribuna da Imprensa, IstoÉ, Veja...), Zuenir fez sua última mudança em 1999, quando começou a escrever para O Globo. “Não é a primeira vez que mudo de emprego, deve ser a décima, mas espero que seja a última. Agora, no que depender de mim, só saio desta para melhor. Não mudo mais nem de assunto,” escreveu ele no texto de estreia.
No novo emprego, Zuenir era responsável por uma coluna bissemanal. Assim, com mais tempo e tranquilidade, ele não apenas podia avaliar os temas cotidianos como também poderia se dedicar a um balanço de sua vida jornalística. Foi daí que surgiu Minhas Histórias dos Outros.

Exercício memorialístico, o livro recupera alguns personagens com quem ele conviveu ao longo da carreira, como Fernando Gabeira, Ziraldo, Nelson Rodrigues, Betinho e Carlos Drummond de Andrade.
Livro de jornalismo em que o jornalista deixava de lado a imparcialidade para atuar na maioria dos casos como testemunha e em alguns como agente principal, a obra se estrutura, entre idas e vindas, com a memória de Zuenir pedindo ajuda à memória dos outros.
Zuenir, então com 74 anos, já estava com todas as credenciais para reconstituir situações fundamentais da vida brasileira, como nos três capítulos que dedicou a Glauber Rocha, em que falava desde a morte da irmã do cineasta (que caiu num poço de elevador e que o autor de Terra em Transe garantia não ter sido um acidente) até a agonia dos dias finais em Portugal, com Glauber sendo consumido pela doença que iria matá-lo em agosto de 1981.
Em 2008, Zuenir revisitaria seu tema preferido com o livro 1968: O que Fizemos de Nós, comparando os acontecimentos de cinco décadas antes com o comportamento dos jovens do início do século 21. No mesmo ano, o jornalista receberia da ONU um prêmio especial por ser um dos cinco jornalistas que mais haviam contribuído para a defesa dos direitos humanos no país em 30 anos.
Outra consagração viria em 2014, quando Zuenir foi eleito para a Academia Brasileira de Letras (ABL), ocupando a cadeira deixada pelo dramaturgo paraibano Ariano Suassuna.
Se na primeira coluna em sua última etapa profissional Zuenir falava temer a mudança — “Dá sempre um friozinho no estômago, mexe com nossas inseguranças e mobiliza nossas velhas incertezas” — em Minhas Histórias dos Outros, ele pesava perdas (poucas) e ganhos (muitos) e concluía exaltando o fato de viver cercado de amigos: “Fiz poucos desafetos, considerando a quantidade e a qualidade dos afetos que colecionei.”















