O Vaticano para chamar de seu por 14 mil euros
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O Vaticano para chamar de seu por 14 mil euros

Abrir a porta da Capela Sistina, conversar com um italiano que encontrou ruínas no quintal de casa ou tomar chá com uma condessa: operadores independentes e hotéis sofisticados oferecem experiências que combinam luxo e memórias espirituais

Roma nunca foi apenas um destino. É uma experiência sensorial, histórica e, para muitos, espiritual. Mas, em um momento em que o turismo de luxo busca cada vez mais exclusividade e significado, a cidade eterna passa a ser redescoberta por um novo prisma: o da emoção e do acesso ao que não está à vista. Recentemente, foi concluída a manutenção extraordinária na Capela Sistina, que revelou as cores originais do afresco “O Juízo Final”, de Michelangelo. Ao mesmo tempo, a capital italiana vê a chegada e renovação de hotéis de alto padrão: a reabertura do La Minerva após ampla reforma; a inauguração do Nobu; o Brach, cinco estrelas com assinatura de Philippe Starck, previsto para 2027. Já em operação desde 2025 estão o Romeo, criação do escritório da arquiteta Zaha Hadid com restaurante de Alain Ducasse; e o Palazzo Talia, hotel butique decorado pelo cineasta Luca Guadagnino. Esses serviços de hospitalidade trazem um perfume de arquitetura contemporânea ao cenário tradicional da capital italiana. 

É nesse contexto que atua Fulvio De Bonis, historiador formado pela Sapienza Università e fundador da Imago Artis Travel, com escritório no bairro de Prati. O ponto de partida dos clientes continua clássico, com visitas aos Museus Vaticanos, Capela Sistina e Coliseu. Mas depois, abre-se um mundo desconhecido. As aventuras incluem escavações subterrâneas inacessíveis ao público; café com uma condessa romana em terraço com vista panorâmica da cidade; documentos históricos raros, como cartas do século XV pedindo perdão ao papa; e locais secretos, como torres medievais ou uma antiga vila descoberta por acaso sob a garagem de uma casa.

“Roma já foi chamada de segunda Jerusalém. Aqui você pode tocar o passado, literalmente”, disse De Bonis. Mesmo quem não é devoto acaba impactado. Catacumbas cristãs, cisternas, criptas e ruínas de vilas e mercados estão escondidos sob a superfície, e muitos prédios históricos e praças atuais foram construídos literalmente sobre estruturas antigas. A nova estação do Coliseu, recentemente inaugurada e que traz relíquias encontradas durante a obra, é um exemplo de como a cidade tem camadas. 

A exclusividade honra os espaços sacros. De Bonis, católico, explica que “respeitar um lugar é conhecê-lo. Se você entende onde está, naturalmente sabe como se comportar.” Limites éticos são prioridade, especialmente em visitas a papas: “Não se faz uma experiência com o pontífice. Tivemos pessoas que perderam filhos, fizemos o pedido e foi aprovado. Entramos em contato com a Santa Sé por e-mail.”

Tudo é desenhado sob medida, envolvendo dezenas de profissionais e atendimento contínuo, com respostas a clientes até de madrugada.  “Não oferecemos um tour. Vendemos um mundo particular,” diz. Esse modelo de roteiro personalizado começa a ser incorporado também pelas cadeias de hospitalidade. O Hotel Eden, da Dorchester Collection, estruturou experiências privadas que incluem acesso sem filas à Capela Sistina e aos Museus Vaticanos, visitas a áreas restritas como a escadaria de Bramante e a Capela Nicolina, além de passeios guiados pelos jardins. Os clientes podem conhecer a Gruta de Lourdes, a estátua de São Pedro e a Fonte da Águia, combinando arte, natureza e história em cerca de três horas.

O roteiro Savor Eternity, também do Hotel Eden, permite entrar nos museus após o fechamento e contemplar o acervo sem multidão. O Clavigero Experience, que dá a chance de ser o primeiro visitante do dia, abrir pessoalmente a porta da Capela Sistina e admirar a igreja do conclave em silêncio. Todas essas experiências duram cerca de três horas e custam de €900 a €14.000 para até oito pessoas, incluindo, em alguns casos, carro com motorista. Quando alguém faz uma visita privada à igreja, o valor pago integra iniciativas de arrecadação da Santa Sé. Em muitos casos, esses recursos são destinados à conservação do patrimônio e a ações beneficentes.

Para quem busca se aprofundar no circuito religioso, Saverio Soldo, CEO da agência Divine Horizon, reforça que há muitas igrejas belíssimas em toda a Itália, com tesouros escondidos e menos conhecidos. Católico fervoroso, ele lembra que as entradas em lugares sacros são gratuitas, mas o segredo está na curadoria, evitando horários de pico, com motorista uniformizado e guia poliglota. “Além das quatro basílicas papais, destacam-se San Luigi dei Francesi, com três obras de Caravaggio; San Pietro in Vincoli, próximo ao Coliseu; e Chiesa di Sant’Ignazio di Loyola, célebre pela cúpula que cria sofisticada ilusão de ótica,” revela. 

A joia do serviço é o Castel Gandolfo, que fica a alguns quilômetros de Roma, onde existe a residência papal de verão, uma fazenda sustentável e produção de vinhos. Participantes exploram o Cryptoporticus de Domiciano, passagem subterrânea de atmosfera surreal, percorrem jardins e terraços do palácio e encerram o dia com pôr do sol sobre o Lago Albano e o mar distante. O tour custa €10.500 para um grupo de até dez adultos. 

Unindo vivência de fé acumulada durante anos, o americano Mountain Butorac, influenciador católico por trás do instagram Catholic Traveler, conquistou credibilidade ao trazer narrativas inspiradoras, um ativo que nasce menos de hotéis cinco estrelas e mais de sua autoridade espiritual e cultural. Baseado em Roma e atuando há mais de duas décadas guiando peregrinos, Butorac tem uma trajetória inesperada: a inspiração para o Catholic Traveler surgiu depois de uma noite com Robert Smith, vocalista do The Cure, antes de transformar sua convicção religiosa em turismo de luxo. Seus itinerários pela Itália vão muito além do Vaticano, incorporando paradas em Assis, San Giovanni Rotondo, Santa Casa de Loreto, Siena, além de rotas espirituais por Florença, Pádua e locais de devoção como Lanciano, com experiências que combinam história, arte e fé de forma profundamente aspiracional.

O luxo italiano está na união entre exclusividade e sensorialidade. Não é apenas furar filas ou acessar áreas restritas, mas sentir a intensidade do que se vive. Essa combinação de emoção, história e simplicidade torna a Itália única, com uma sofisticação difícil de encontrar em qualquer outro lugar do mundo.

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