Chez José Avillez por 12 mil euros

Chez José Avillez por 12 mil euros

Hospedagem de luxo no Alentejo transforma a vida privada do chef mais pop de Portugal em uma experiência cinco estrelas

Entre os muitos tentáculos de um dos chefs mais influentes de Portugal, nenhum parece tão revelador quanto a Casa Nossa, um projeto de hospitalidade cinco estrelas em uma área rural do Alentejo.

Ao lado de uma cozinha de excelência ancorada na tradição portuguesa com um serviço discreto e elegante, seu principal encantamento é a inesperada sensação de participar de uma extensão da vida privada de José Avillez. 

Foi ele, cujo desejo da infância era ser carpinteiro e arquiteto, que desenhou o projeto da casa, rascunhado em visitas ao terreno, onde acampava no verão e no inverno para compreender o comportamento do sol durante as estações. 

A altura deste alpendre, diz apontando, foi calculada para o sol no inverno entrar por baixo pela manhã e aquecer a casa, mas no verão, quando sobe um bocadinho, não entra, por isso não aquece a casa. “Tudo isso foi pensado nos mínimos detalhes,” diz Avillez. 

Também esteve atento a cada minúcia da decoração — os livros de arte e de cozinha da biblioteca, as peças de artesanato português espalhadas pelos cômodos, a enorme coleção de louças Vista Alegre que selecionou pessoalmente. São esses elementos que ajudam a compor um retrato raro do homem por trás do cozinheiro e fazem da Casa Nossa um espaço em consonância com sua biografia.

O próprio Avillez cresceu em uma casa no campo com horta e galinhas, a dez minutos do mar. “Antigamente, era uma quinta autossuficiente, com pomar, criação de vacas, ovelhas e cabras,” relembra o chef, cujo pai lhe ensinou a arte da caça. Era uma área de caça de galinhola, uma ave migratória apreciada na gastronomia, que virava assados, patês e escabeches. 

Essa hospedagem, aliás, nasce de um desejo nada pretensioso de Avillez e sua mulher, Sofia Ulrich, de ter uma casa de campo para desfrutar com a família. “Uma das lições mais duras da minha vida foi a morte do meu pai, mas hoje eu que sou pai e tenho muito orgulho dos meus filhos,” diz o chef, que vislumbra a possibilidade de, no futuro, largar tudo para cuidar de uma horta.

O impacto diante de um terreno maior e mais caro do que podiam pagar — uma antiga fazenda no Alentejo próxima de Monsaraz, uma vila medieval cercada por muralhas e apontada como uma das mais belas de Portugal —, fez com que a ideia embrionária rodopiasse. Desaguou, então, nesse plano arrojado de abrir a própria casa para receber hóspedes. “Ideias são como sementes. Quando se semeiam, começa-se a regar conforme vamos sonhando,” diz Avillez. 

Afeita à fotografia e à literatura, Ulrich experimenta uma explicação verbal da Casa Nossa, um projeto capaz de acordar todos os nossos sentidos. “Fazemos uma hospedagem para os outros como se fosse a nossa própria casa.” De certa forma, ainda é. A família também usufrui do espaço, com piscina, sauna, banho turco, esportes náuticos, sala de cinema e espetáculos, bar — e avante.

Essa percepção ajuda a compreender a lógica do projeto. Em vez de reproduzir o modelo convencional da hotelaria de luxo, a Casa Nossa procura oferecer aos hóspedes a sensação de ocupar uma casa habitada e calorosa. A propriedade é sempre alugada integralmente, garantindo privacidade aos visitantes. São 65 hectares de paisagem alentejana, 1.500 metros quadrados de áreas construídas, 11 suítes e uma equipe dedicada à hospitalidade. 

As refeições, servidas em regime de pensão completa, fazem parte dessa vivência familiar, na qual a comida é um dos alicerces. Avillez, no entanto, não tenta reproduzir a alta gastronomia que o tornou célebre no Belcanto, seu duas-estrelas Michelin em Lisboa. Faz o movimento oposto: olha para trás, para a sua história e para as raízes da cozinha alentejana. 

Sob a supervisão do chef brasileiro Vicente Luiz Neto, que trabalha ao lado de Avillez há quase duas décadas, a cozinha navega por preparações que ajudam a contar a história da região. 

À mesa surgem pratos como a miga alentejana, um dos símbolos da cozinha local feita à base de pão reaproveitado; o escabeche de fígado de bacalhau; e as mãozinhas de vitela, especialidade tradicional que valoriza cortes pouco frequentes nas mesas urbanas para promover o aproveitamento total dos animais. Uma adega com mais de 800 garrafas está preparada para fazer boa escolta. 

Nas sobremesas, clássicos como a sericaia, semelhante a um pudim assado de textura delicada, e o bolo de gila, que traduz a abundância de ovos característica da doçaria conventual português.

Nascido no Ceará e criado no Rio de Janeiro, Neto se tornou uma figura central na tradução desse repertório culinário para os hóspedes. Sua trajetória também ajuda a reforçar outra presença constante na vida de Avillez — o Brasil.

Ao falar sobre um documentário que vem produzindo a respeito de sua própria história, o chef menciona com entusiasmo sua última passagem pelo país. Durante as gravações, reencontrou amigos, visitou rodas de samba e revisitou referências que o acompanham há anos. 

“Fiz sete anos de psicanálise e me surpreendo pouco porque acho que já sei tudo sobre mim, mas gravar esse documentário tem sido a maior sessão de psicanálise que eu fiz na vida. Tenho buscado todas as lembranças para contar minha história completa.” 

Entre os compromissos da viagem estavam encontros com Gilberto Gil, visitas ao Samba do Trabalhador e uma feijoada no Aconchego Carioca. Não é um detalhe irrelevante. A relação amorosa com a cultura brasileira ajuda a explicar parte da aura da Casa Nossa. Apesar da sofisticação, o ambiente raramente assume tom formal — a sensação é de intimidade.

Essa dimensão humana aparece também quando Avillez fala de sua carreira. Autodidata na cozinha, mantém sua impressão digital nos negócios, embora hoje atue em outras frentes em seu grupo. “Quando você abre muitos restaurantes, precisa sair um pouco da cozinha porque vira um empreendedor. É preciso entender onde a empresa necessita mais de você, mas ainda crio 90% dos pratos e faço as provas de tudo.” 

Avillez recorda da época em que era massacrado nos blogs. “Um dia escreveram que a minha comida era boa, mas que eu devia usar aditivos de sabor porque não era possível fazer algo tão bom. A inveja ia a um extremo, as pessoas me odiavam. Hoje, me agradecem pelo que estou fazendo pela cozinha portuguesa.”

À frente de um grupo que reúne 15 estabelecimentos, em três países, 12 conceitos gastronômicos, cerca de 400 funcionários e recebe uma média de 50 mil clientes por mês, concentra seu discurso nas pessoas. "Muitas vezes me perguntam o que é melhor, se é o caminho ou a chegada. Hoje, digo: ‘Nem uma coisa, nem outra. São as pessoas com quem nós caminhamos’."

Talvez seja justamente essa ideia que a Casa Nossa procura materializar. A propriedade nasceu como uma casa de família, transformou-se em hospedagem e hoje condensa a síntese da vida de Avillez — gastronomia, arquitetura, Alentejo, livros, música, família e amigos. O que sustenta tudo isso é a noção de hospitalidade, o desejo de receber e reunir pessoas em torno da mesa, que parece anteceder os restaurantes e as estrelas Michelin.

A casa converge com esse ethos: é uma construção contemporânea ligada ao território. Parte das pedras utilizadas veio do próprio terreno, as cores estão em sintonia com a paisagem externa e, na biblioteca, uma mesa reaproveita o antigo bebedouro dos animais que outrora ocupavam a propriedade. O interior combina, sem ostentação, design contemporâneo, artesanato português e referências ao universo rural alentejano.

Os preços, no entanto, reforçam a ideia de que desfrutar da casa de campo do chef mais pop e televisivo de Portugal é algo para poucos — a diária da casa com 11 suítes varia de acordo com a temporada (é bom consultar os preços no site), mas numa breve simulação, chega-se ao valor de 12 mil euros, com hospedagem, café da manhã, almoço, jantar e bebidas selecionadas.

Comporta até 22 adultos e oito crianças, cujo valor é cobrado à parte de acordo com a idade. 

A melhor forma de definir a Casa Nossa talvez seja a mais simples e é justamente essa aura discreta e elegante que a diferencia de tantas outras hospedagens de alto padrão. 

O novo luxo, diz o chef, é poder estar num lugar com os amigos, com um bom serviço, hospitalidade e não precisar pensar muito, só existir. 

"Gosto de coisas simples porque a ostentação faz com que nós fiquemos mais cansados. Quando pensávamos em luxo, imaginávamos aquelas coisas francesas ou russas, os dourados, os espelhos… Hoje, para mim isto é o luxo, estamos no interior, temos tudo à mão, mas estamos ao mesmo tempo longe de tudo, temos paz e silêncio.”